Amigas Editorial
Onde As Amizades Criam Histórias
segunda-feira, 29 de junho de 2020
sexta-feira, 5 de julho de 2019
Epílogo CD2
Epílogo
Lindsay
12 anos depois...
Pequei meu caderno e fugi para meu
lugar preferido na fazenda: a sombra de uma grande árvore à beira do lago.
Havia muitos lugares que eu amava
aqui. Como a Grande Cozinha, de onde agora vinham risadas e conversas alegres.
A estufa de cheiro doce e ar fresco que me parecia mágica. Ou, ainda, a imensa
clareira onde as crianças amavam brincar e onde antes eu tinha passado tanto
tempo entre brinquedos também.
Este aqui, porém, era meu refúgio.
Meu repouso. Embora não fosse exatamente um esconderijo.
— Fazendo poesia de
novo, Lindy? — disse John, chegando de mansinho e, por cima do meu ombro, tentando
bisbilhotar o caderno onde eu anotava minhas ideias.
— Eu não fico xeretando
na sua coleção de insetos! — joguei na cara dele, usando o caderno fechado no
susto para bater em seu ombro, o que só me rendeu uma careta e uma risada. — Já
te falei que não são poesias, Johnny — suavizei.
Não eram. Não exatamente.
Quer dizer, sei lá. Eu não sabia bem o que eram. Ideias e coisas que eu sentia.
Ultimamente percebi que me fazia bem guardar certas sensações para mim mesma.
Assim como era gostoso revisitá-las mais tarde. Era isso que eu estava tentando
fazer.
— Só queria
descansar um pouco — confessei. — A fazenda hoje está muito agitada.
Era domingo e todos
os nossos amigos estavam presentes. Além das três Casas de Visitantes
completamente cheias, ainda havia gente hospedada nas nossas casas também. Tudo
por conta do aniversário de 80 anos do meu avô.
— Não é que eu não
goste, mas... — continuei, tentando explicar ao meu melhor amigo o quanto eu às
vezes precisava de só um pouquinho de silêncio.
— Tudo bem, Lindy.
Eu entendo — ele se adiantou. — Fazer o que se nosso velho Jeb é tão querido?
— Só estou feliz
por não ir à escola amanhã — disse Caleb, sentando-se ao meu lado também, vindo
sabe-se lá de onde.
Caleb sempre fazia
isso de aparecer do nada. Dava até para desconfiar que estivesse sempre de olho
em onde John e eu estávamos. Isso porque, aos 11 anos, acho que ele se sentia
mais próximo de nós do que dos outros primos menores.
— Não sei do que
você está fingindo reclamar — John o provocou. — Todo mundo sabe que você gosta
de ir na escola.
— Gosto das aulas
de atletismo. E dos meus amigos. E de algumas palestras. E também...
— Gosta de ir na
escola — afirmei, encerrando a discussão.
Caleb olhou para
mim e sorriu. Tinha aqueles mesmos olhos com pontos dourados de Tio Jared, mas
os traços de Tia Mel também eram fortes, tudo estampado na mistura mais
perfeita.
Todos nós íamos à
escola na cidade mais próxima, onde Tia Sharon trabalhava como professora e
John queria trabalhar também, embora às vezes dissesse que queria dar aulas na
universidade, como Tia Peg.
Mas, bem, além de
nós três, ainda havia nossos primos, o que dava quase para encher um ônibus.
Assim, como Doc,
Candy e minha mãe trabalhavam na Instalação de Cura de lá também, acabamos arranjando
um para acomodar todo mundo. Brandt dirigia e, embora o calendário de aulas
fosse bem flexível, a gente acabava indo sempre para a cidade, o que era bom. Porque
eu gostava de estar em contato com outros almanos, que era como, de
repente, a mídia tinha passado a chamar os filhos humanos das Almas.
Acima de tudo, eu gostava de conviver
com as Almas. Tendo sido criada por pais como os meus, simplesmente me sentia em
casa.
Mesmo assim, decidimos ficar na
fazenda alguns dias desta semana, para poder estar junto com nossos convidados
e aproveitar a visita.
Apesar de toda agitação a que estava
me tornando avessa nos últimos tempos, eu estava adorando o fato de rever todo
mundo de uma vez. Sentia falta de todos, especialmente de Tia Lily, o que
tornava o fato de ela e Cal estarem com a bebê Florence em minha casa superespecial.
Depois de se casarem, dez anos atrás,
eles sempre passavam longas temporadas aqui, mas moravam mesmo, na maior parte
do tempo, no Condomínio da Antiga Fábrica de Doces de Nate. A fábrica, aliás,
tinha sido reconstruída e funcionava a pleno vapor, com os moradores do
condomínio, em sua maioria, trabalhando nela. Lily e Cal, entretanto,
trabalhavam como botânicos e paisagistas, principalmente recriando espécies de
flores extintas, que foi algo que aprenderam a fazer juntos.
Eu adorava isso. E achava a história
dos dois muito inspiradora, do tipo que eu queria para mim. Sem sofrimentos ou
conflitos, uma coisa que simplesmente aconteceu, porque tinha que ser. Tipo uma
noite que amanhece em calmaria.
“Foi tudo culpa da bendita estufa”,
Tia Lily costumava dizer. “Passávamos tanto tempo sozinhos lá que era
impossível não sentir falta quando Cal voltava para casa.”
Seja como for, por mais que Lily
tentasse fazer parecer uma coisa corriqueira, acho que as flores tinham mesmo
algum poder, porque eles não foram o único casal que floresceu lá.
Quando começaram os primeiros contatos
feitos pelos Esforços de Paz, Tia Peg tomou uma decisão difícil. Por mais
doloroso que parecesse, achou que devia uma explicação a Fiandeira das Nuvens,
a mãe biológica de sua hospedeira.
Contrariando as expectativas, a
mulher chorou de alívio quando soube que Pet tinha sido mandada de volta ao
planeta que tanto amava. Porque, bem, não era o que se podia esperar cada vez
que uma Alma desaparecia sem deixar explicação. Então, saber que aquela Alma
com quem dividira anos de existência na Terra estava bem, fez seu coração se
acalmar de imediato.
Nós a chamamos de Fia aqui, e ela era
uma Alma típica, inclusive na facilidade que tinha para o perdão. Porque, no
fim, era importante demais para ela estar ao lado da filha de sua hospedeira,
mesmo que fosse Peregrina e não Pet a Alma por trás dos traços angelicais.
Em pouco tempo, Fia convenceu-se de
que queria morar conosco, especialmente depois que Peg engravidou, um pouco depois
de Melanie dar à luz Caleb. Quando Pétala nasceu, a pura e loura imagem da mãe
na figura da menina mais doce que já conheci, Fia se apaixonou por ela no mesmo
instante. Por isso quis estar perto.
Por essa época, Lily estava indo
viver com Cal e a estufa foi deixada aos cuidados da nova moradora. O outro avô
coruja, Paddy, se ofereceu para ajudar. Assim, as flores operaram sua magia
outra vez e eles se descobriram um apaixonados.
Foi lá também que Rio e Céu
conheceram nossa família. Então, alguns dias depois, veio Terra Sonora. Como
ele tinha três filhos biológicos, mais ou menos da idade do Tio Jamie, logo
eles também começaram a frequentar nossa casa, e as visitas de Céu, embora
menos frequentes que as de Rio, eram superanimadas por causa da nossa nova
família grande.
Além deles, o pai e os irmãos de Jared
também vêm sempre, junto com as cunhadas e sobrinhos que ele nem sabia que
tinha. Os pais de Tia Sunny, que também ficaram aliviados em saber que ela
estava segura, vieram duas ou três vezes no começo, mas então nasceram as
gêmeas, e eles acabaram se tornando visitantes assíduos também.
As gêmeas, aliás, eram mesmo
cativantes, se você soubesse lidar com suas personalidades opostas e marcantes.
Ally e Lucy tinham oito anos e se pareciam com a mãe em tudo, exceto pelo
temperamento de Lucy, herdado e moldado exatamente ao do Tio Kyle. As duas, que
eram a exata combinação de placidez e explosão sob a mesma aparência, deixavam o
pai louco, mas Tia Sunny tirava de letra.
Tia Sharon e Tio Doc também tiveram
filhos. Seth tinha nove anos e Christian, ou Kit, tinha seis, mas eram tão
companheiros um do outro, tão semelhantes, que era como se tivessem a mesma
idade. Ambos curiosos e amorosos, com um grande amor pelos estudos. Por causa
disso, adoravam Rio, de quem Kit se
dizia o melhor amigo. Seth, entretanto, dizia a todos que, depois dos pais, sua
pessoa preferida no mundo era sua avó Maggie.
Coisa de criança, eu acho. Porque para
mim, hoje em dia, eram todos eles.
Simplesmente, não era possível pensar
em alguém que eu amasse menos por aqui. Minha família era grande e só crescia. E
eu aprendia muito com cada um.
Ainda assim, havia um lugar todo
especial em meu coração para a única pessoa, dentre as que já amei, que não estava
mais comigo.
O nome dele era Celestino, mas eu o
chamava de Biso. E ele era uma Alma. Era também o avô da minha amada Tia Kate.
Havia uma espécie de trato entre
Almas e humanos remanescentes. Que se fosse de comum acordo, ou melhor, se
fosse da livre e espontânea vontade da Alma, podia-se tentar resgatar a
consciência suprimida do hospedeiro. Meu pai passou por isso certa vez: um penoso
processo de retiradas consecutivas, enquanto o corpo era mantido em coma.
Não funcionava. Pelo menos até onde
tínhamos notícia.
Exceto por meu pai e por Tia Sunny, muito
tempo atrás, nunca nenhum de nós tentou. Era perigoso. E todo mundo aqui
concordava que bastava de sofrimento.
Mas nós sabíamos que havia Almas lá
fora que tinham tentado. Como parte dos Esforços de Paz, meus pais e meus tios
Ian, Peg, Kyle e Sunny já tinham até mesmo viajado para outros países, e nós
mantínhamos contato com quase todas as células remanescentes que eles tinham
ajudado. Toda vez que algum desses humanos procurava seus parentes, toda vez
que alguém se arriscava, o resultado era o mesmo. Nada.
Já havia passado tempo demais. E
ficava cada vez menos seguro tentar.
Por isso Rachel e Kate jamais
cogitariam pedir isso a Celestino. Elas só não contavam que ele faria mesmo
assim. Mesmo antes de conhecê-las bem, mesmo quando o único contato feito, um
breve encontro mediado por Tia Peg, era tudo o que tinham.
Eu me lembro bem até hoje. Tia Kate
ficou furiosa! Durante toda minha vida, nunca achei que a veria transtornada daquele
jeito, mas quando soube, ela saiu daqui direto para a Instalação onde ele
estava, disposta a arrancá-lo do coma “na marra” se fosse preciso.
Foi necessário que Tio Jamie, Rachel
e Brandt intercedessem para que ela não fizesse uma loucura. Mesmo assim, no
minuto em que ele foi trazido de volta da primeira retirada, ela implorou para
que Celestino não se arriscasse mais, porque se lembrava do que meu pai tinha
passado e, diferente dele, o avô não era
mais um homem jovem e forte.
Não sei bem o que aconteceu naquela
noite, as palavras exatas que foram ditas, mas sei que Kate e Rachel o
convenceram e ele veio morar aqui. E foi assim que todos nós passamos a amá-lo
como o ser mais delicado que havia. Dia após dia, ano após ano.
Foi a melhor década de todas, a
última de sua vida. Porque Celestino queria entender a experiência completa,
queria saber o que havia na outra ponta. Ele achava que havia honra em não
adiar a velhice, em abraçá-la com toda a humildade que vinha com o declínio do
corpo. Para meu Biso, havia mérito em nos ensinar e aprender sobre o valor do
tempo. E ele tinha razão.
Então, embora ele cuidasse ao máximo
de sua saúde, um dia seu coração simplesmente parou de bater. Bem aqui, embaixo
de sua árvore preferida. Exatos seis meses depois do nascimento de sua bisneta
Celeste.
Foi Rachel quem o encontrou no fim de
uma tarde de verão feito esta. E aquele foi o dia em que Almas e almanos
aprenderam sobre a morte. Ironicamente, não foi um humano que nos ensinou. Mas
nós entendemos.
Uma vida de amor e bondade é o
suficiente. Uma vida em que se é amado vale tudo. Porque a dor que fica não é o
resultado final. Ela é só uma prova de que você fez as outras pessoas felizes.
Era por isso que eu vinha sempre
aqui. Para lembrar.
Porque um dia este lugar já foi o
símbolo da maior dor que conheci. Mas não podia ser só isso. Não devia. Este
seria o lugar onde eu ainda havia de entender qual seria minha marca neste
mundo, pois tenho certeza que foi isso que Biso pôde ver antes de fechar os
olhos. E é disso que vai se lembrar quando acordar no futuro, em outro planeta.
Ele vai saber que foi amado aqui e que fez a diferença.
Quero o mesmo para mim. Quer dizer,
sei que não vou para outro planeta, provavelmente, a menos que a tecnologia se
aprimore muito, mas quero fazer a diferença aqui de qualquer jeito. Como Tia
Peg e meus pais. Como Vovô Jeb e meus tios.
Aos 16 anos, ninguém sabe ao certo aonde
a grande aventura da vida vai dar. Mas estou aqui para descobrir. Não tenho
pressa.
Eu vou continuar.
— Ei, Lindy — chamou
John, quebrando nosso silêncio e apontando para a cozinha. — Acho que está
chegando a hora do bolo.
Seguindo a mão
dele, vi Vovó Candy gesticulando, nos chamando para voltar e, de repente,
voltei a sentir vontade de estar na agitação. Não havia lugar melhor, afinal.
— O último a chegar
fica sem bolo — gritou Caleb antes de sair correndo.
John e eu trocamos
um olhar e gargalhamos. Por fim, ele me estendeu a mão e seguimos juntos para
nossa casa.
quinta-feira, 4 de julho de 2019
CD2 Cap 43 Final
Capítulo
43 – Remate
I
see trees of green, red roses too
I
see them bloom for me and you
And
I think to myself, what a wonderful world
I
see skies of blue and clouds of white
The
bright blessed days, the dark sacred night
And
I think to myself, what a wonderful world
The
colors of the rainbow, so pretty in the sky
Are
also on the faces of people going by
I
see friends shaking hands, saying: How do you do?
They're
really saying: I love you
I
hear babies crying, I watch them grow
They'll
learn much more, than I'll never know
And
I think to myself, what a wonderful world
Yes,
I think to myself, what a wonderful world
(What
a Wonderful World – Louis Armstrong)
Logan
Perdi a noção da hora enquanto
trabalhava. Ou pelo menos foi o que pensei quando espiei pela porta do ateliê e
vi Estrela e Lindsay adormecidas no sofá. Enquanto isso, uma animação com
música e bichos falantes era projetada pela SmartCombo e a luz azulada da tela
brincava nos rostos delas.
Saí de mansinho e desliguei o
desenho, acendendo apenas uma tênue luminária para iluminar o caminho para os
quartos. Nosso dia tinha sido bem cansativo, levando Rio, Céu e Terra Sonora ao
aeroporto, então imaginei que Estrela estaria exausta e mal se moveria quando
eu tentasse acordá-la. Mesmo assim, apenas um roçar de meus lábios no rosto
dela foi suficiente para que abrisse os olhos desperta.
— Você terminou? —
perguntou como se estivéssemos continuando uma conversa, e, apesar da aparente
falta de contexto, eu sabia que ela estava se referindo à peça em que estive
trabalhando.
— Sim, está pronta.
Quer ver?
— Aham — ela
murmurou, conseguindo parecer ao mesmo tempo sonolenta e animada.
— Ela está com os
dentes escovados? — Apontei para Lindsay, observando que já estava vestida com
seu pijama de unicórnios preferido.
— Está, sim. Disse
que queria comer pipoca, mas como eu sabia que ela dormiria em quinze minutos,
consegui convencê-la a deixar para amanhã.
— No café da manhã?
— adivinhei.
— Mas, bem, aí será
outro dia para se negociar, não é? Provavelmente consigo convencê-la a deixar
para o lanche da tarde. Ou ela vai até a casa de Maggie e consegue o que quer
escondido.
Contive uma risada,
imaginando a cena, ao mesmo tempo em que apreciava o jeito delicado como
Estrela lidava com as manias de nossa menininha.
Mais recentemente, ela
tinha decidido que gostava mais de pipoca do que de qualquer outra coisa, e
queria substituir todas as refeições por uma porção delas. Tínhamos que debater
com ela o dia todo para reduzir a um único lanche e todo mundo ajudava, de
maneira que a luta era contínua, mas não solitária. Sunny, em especial, se
desdobrava em agradar Lindsay com outras coisas de que gostasse, mas Magnólia
teimava em “contrabandear” tudo o que nossa ruivinha manipuladora pedia.
“A vida é curta.
Não faz mal deixar a menina ser feliz enquanto é criança”, insistia. “É só uma
fase, daqui a pouco ela esquece.”
Talvez Magnólia
tivesse razão: era só uma fase. Ou pelo menos foi o que pensamos na fase dos bolos.
Que tinha sido antes da fase dos biscoitos que, por sua vez, aconteceu logo
depois da época em que ela preferia os sorvetes.
— Amanhã é minha
vez como negociador — falei, suspendendo Lindsay nos braços.
Estrela ostentou
uma expressão desafiadora, antecipando a disputa enquanto se espreguiçava no
sofá. Subi as escadas para o quarto e, quando voltei depois de colocar nossa
filha na cama, encontrei minha esposa no ateliê, sorrindo diante de meu
trabalho.
— Ficou lindo! Você
tem se saído um ótimo aluno — disse orgulhosa, já que vinha se dedicando a me
ensinar a desenhar. — Tem alguma coisa que você não faça bem?
— Não ficou tão bom
quanto ficaria se você tivesse feito — admiti, olhando em volta para as paredes
cobertas pelos quadros cada vez melhores que ela criava.
— Mas quando
comecei não era nem a metade tão boa quanto você, novato.
— Mentira — ri,
colocando as mãos sobre a mesa contra a qual ela estava encostada, prendendo-a
ali. — Você sempre foi perfeita. — Ela sorriu, se contorcendo pelo arrepio que
minha respiração em seu pescoço causava. — Como você bem sabe, eu sempre soube
apreciar a beleza. Sua e de sua arte.
— Era outro corpo
naquele tempo, lembra?
— E isso importa?
Era você. Simples assim.
Deixei meus lábios
percorrem o pescoço dela, apreciando o gosto da pele macia, e Estrela soltou um
suspiro suave, me abraçando quando mordi o lóbulo de sua orelha.
— Você nunca me
leva a sério quando te elogio — ela disse, e senti que balançava a cabeça de um
lado para o outro contra meu ombro. — Mas teima em me colocar num pedestal.
— Nada disso, não é
minha imaginação que estrelas estão no ponto mais alto que meus olhos enxergam.
— Ah, que poético! —
ela riu e eu acompanhei, ciente do quanto tinha soado canastrão, embora falasse
a verdade.
Nós nos afastamos em
nosso abraço e, enquanto ela fingia se concentrar outra vez no trabalho sobre a
mesa, observei sua risada se transformar no sorriso suave e tenso que Estrela tinha
quando queria que eu entendesse as coisas à sua maneira.
— O que foi? —
perguntei, passando a mão por suas costas.
— Nós percorremos
um longo caminho, não foi?
— Fizemos muitas
coisas, sim — A resposta parecia óbvia, mas eu não estava certo sobre em que
ponto ela queria chegar.
— Sim, muitas
coisas. Mas não estou falando sobre as coisas que fizemos, estou falando de
quem nos tornamos.
— E o que foi que
nós nos tornamos? — Puxei-a pela mão para se sentar em meu colo na poltrona de
leitura, aquela antiga e espaçosa em que costumávamos passar nossas noites insones
quando Estrela amamentava Lindsay.
— Humanos, eu acho.
Ao menos em parte. Pais, obviamente. E também... Sou irmã e amiga agora. Você
se tornou filho. Mudamos e lutamos pelos nossos amigos, pelas nossas crenças. E
fizemos isso juntos. Nós aprendemos a amar.
— Você sempre soube
amar.
— Não. Eu aprendi
com você. A primeira pessoa que amei e que era verdadeiramente “minha pessoa”. Você
apostou em mim mesmo quando achava que eu era louca, vivendo os amores de
outra.
— Você estava
lutando por Peregrina e pela família dela. Eu podia não entender por que você
achava que aquela era a melhor maneira, mas nunca tive dúvidas de que você
estava protegendo John com todas as suas forças.
— E você me
protegeu para que eu pudesse fazer isso, não foi?
— Você também me
protegeu.
— Sim, eu sei. A
loucura das extrações.
Era assim que Jeb
se referia ao período em que tentamos despertar o Logan humano. E Estrela sabia
que era a isso, principalmente, que eu me referia quando dizia que ela me
apoiava em tudo. Porque eu sabia — e lamentava — o quanto tinha lhe custado.
Sempre seria grato por aquilo, não importava o que ela me dissesse.
— Você sabe que eu
sempre vou te colocar num pedestal... Pelo que te fiz passar. — Abaixei a
cabeça, sem conseguir evitar o sentimento ruim que pensar na dor dela me
trazia.
— Esse é meu ponto —
Estrela levantou meu rosto com as pontas dos dedos. — Eu fiz porque você
precisava de mim. Da mesma forma que precisei de você antes. E é como seria em
qualquer dia das nossas vidas. Nossas aventuras como “infiltrados” em Nova Orleans,
nosso trabalho nos Esforços de Paz... Fizemos tudo juntos.
— Irrevogavelmente
fundidos — sussurrei.
— Irrevogavelmente
fundidos — ela repetiu. — Somos iguais, Logan. Somos duas partes da mesma
coisa. Lado a lado, entende?
— Entendo.
E entendia mesmo. Eu
sabia que ela queria dizer que se incomodava com o modo como eu às vezes
parecia tratá-la. Como uma estrela de fato. Uma ideia perfeitamente
inalcançável. Não como uma mulher comum e com defeitos. O que ela não entendia, porém, era que os
defeitos não significavam nada para mim. Estrela jamais seria comum aos meus
olhos.
— Eu sei que você
estará sempre ao meu lado, tão incondicionalmente quanto eu vou estar do seu —
expliquei. — Já aprendi a não questionar se mereço essa sorte, porque sei que
você não gosta que eu faça isso. Mas não muda o fato de que me considero um
homem sortudo por tê-la em minha vida. Então, querida Estrelinha, você vai ter
que se conformar em ser idolatrada, sinto muito.
Estrela revirou os
olhos de um jeito teatral, me deixando saber que não iria mais discutir comigo.
Depois sorriu, absolutamente luminosa.
— Você não tem
jeito.
— E você gosta de
mim assim.
— Sim, gosto muito —
ela confirmou, beijando minhas pálpebras e depois minha boca. — Eu amo você.
— Também te amo —
respondi, e ficamos apenas contemplando o momento em silêncio depois disso, as
pontas de meus dedos correndo calmamente pela pele macia do rosto dela.
— Você vai entregar
o presente a Jeb agora? — perguntou suavemente, bocejando de cansaço. — Acho
que ele ainda vai estar acordado. Sempre demora a dormir quando o dia foi
agitado.
— Sim. Vou até lá
sondar se as luzes estão acesas. Assim “trocamos dois dedos de prosa”, como ele
diz, e eu te deixo descansar um pouco. Como ainda não estou com sono, acho que
não custa tentar, principalmente depois de você me dar todo esse sermão pra me
convencer a aceitar um elogio — provoquei.
— Não foi só por
isso! — ela protestou, bem-humorada. — Só gosto de checar de vez em quando se
você está mesmo aprendendo alguma coisa com nossas experiências — completou,
retribuindo a provocação.
— Touché.
Dei um sorriso de
lado, daqueles que eu sabia que ela adorava e que eu às vezes dava
propositalmente para jogar charme. Ela riu e beijou o canto da minha boca em
uma carícia tão delicada que me fez fechar os olhos.
— É só que... Não
sei, mas estar aqui, neste lugar, nesta casa, com tantas coisas mudadas, me dá
uma sensação de desfecho, sabe? — explicou. — Às vezes não sei como lidar com
isso e fico tentando tirar lições de tudo.
— Este é um
desfecho, mas não o fim. Não é a mesma coisa. Ainda temos o que aprender. E
tempo para isso.
— Eu sei. Está mais
para um começo. Precisamos “deixar os bons tempos rolarem”, não é mesmo? — ela
repetiu o lema de Nova Orleans, que eu adorava.
— Laissez les bons
temps rouler — recitei em francês, como eles diziam por lá.
— É um bom lema,
não se pode negar.
Fechei meus olhos de
novo quando os lábios dela acariciaram minha testa, enquanto isso ela ficou de
pé para comtemplar as próprias pinturas e esboços.
Retratos de pessoas
amadas. Paisagens de Picacho Peak. O amplo milharal iluminado pelo reflexo do
sol nos espelhos. E, por fim, os campos da Fazenda Stryder.
— Bem — disse,
virando-se para mim enquanto eu continuava sentado a observá-la, o calor do
corpo dela ainda aquecendo o meu. — Eu não me arrependo de nada. Faria tudo de
novo, quantas vezes fosse preciso.
— Você sabe que eu
também faria. — Sorri. — No fim, se você quiser tirar uma lição disso tudo,
acho que pode ser essa.
— A de que valeu a
pena.
— Sim, valeu a pena
— concordei. — Valeu muito a pena.
********
— Pai? — chamei
enquanto subia a escada da varanda, mas ele não respondeu de imediato. Apenas
continuou olhando para a lua acima das casas.
Às vezes Jeb fazia
isso. Demorava para responder como se o vocativo não fosse para ele.
No começo, cheguei
a achar que ele se esquecia de que agora tinha alguém que o chamava de pai. Mas
então ele me disse que estava ouvindo. Que gostava de apenas ouvir. Então não
questionei mais. Era, de fato, uma palavra que eu também gostava de ouvir. E de
dizer.
— Oi, filho —
respondeu, finalmente voltando os olhos para mim quando apoiei os antebraços no
parapeito de madeira, ao lado dele. — Acordado tão tarde?
— Dia agitado.
— Expulsa o sono,
não é?
— Como você está? —
questionei, sério, porque ainda não tínhamos falado sobre a partida de Rio,
depois de ele e Céu terem passado um mês conosco. — Sei que ele prometeu voltar
logo, mas deve ter sido difícil se despedir. Quer dizer, por causa do seu
irmão...
— Não foi difícil.
Meu irmãozinho já partiu. Essa parte não fica mais fácil, mas já lidei com ela.
Esse tempo todo eu queria apenas conhecer Rio. E foi bom. Gostei dele.
— Vocês ficaram um
bom tempo conversando.
— Sim, ele é uma figura
interessante. Mal conheceu a fazenda e já estava fazendo planos para otimizar a
irrigação. É um dos motivos para voltar logo.
— É o trabalho dele
— lembrei, embora Jeb já soubesse disso. — O Instituto de Albuquerque é
especializado em sustentabilidade no uso dos recursos hídricos.
— Rio me ensinou
muito sobre isso. E foi interessante e assustador ao mesmo tempo. Me assustou
muito perceber quanta água desperdiçávamos nos velhos tempos. Poluição,
encanamentos de esgoto e abastecimento quebrados ou construídos da forma
errada, excesso de irrigação quando bastava apenas mudar o tipo de cultura para
outra mais resistente, o mau uso nas indústrias... E eram tantas indústrias
explorando tudo! A crise hídrica era iminente. Muitos países ficariam sem água
e, claro, sem agricultura. Teria sido uma guerra terrível. Nessas horas entendo
que a raça humana teria acabado de qualquer jeito.
— Infelizmente,
concordo com você.
— Bem, não acabou.
Alguns de nós ainda estão aqui. E agora estamos juntos. — Ele me sorriu,
apertando meu ombro. — Em boa parte, graças ao trabalho que você vem fazendo.
— Não fiz nada
sozinho. Fizemos tudo juntos, cada um ajudando de uma forma.
— Sim, eu sei. Mas
hoje me despedi de um novo amigo que me faz lembrar meu irmão. Um pouco da
saudade que eu sentia pôde desaparecer para sempre. Jamie agora tem o gosto de
rever os pais quando quiser. Melanie se reconciliou com seu senso de família.
E, por fim, Magnólia sorriu mais nesse mês que passou do que na última década
inteira. Gosto de pensar no quanto meu filho é responsável por tudo isso. Você
me deu uma família, Logan. Uma que não está mais quebrada.
— Você também me
deu uma família, pai.
A mão em meu ombro
me puxou para um meio abraço, daqueles desajeitados que agora costumava me dar.
Estendi meus braços e completei o gesto dele, unindo-nos num abraço decente.
Quando nos soltamos, senti os habituais tapinhas no rosto, que era um dos
jeitos de Jeb dizer que estava feliz e orgulhoso.
— O que você acha
que Rio e Céu vão fazer? — perguntei.
Terra Sonora, o
companheiro de Céu, tinha vindo também depois de alguns dias, e todos se deram
muito bem. Como Confortadores, eles tinham demonstrado imenso interesse em
aprender com nossa comunidade. Quanto a Rio, em pouco tempo ele desenvolvera
laços significativos com todos da família de Trevor, além de uma grande amizade
com Doc. Então achei que não fosse demais imaginar que poderiam querer criar
raízes aqui, apesar de seus compromissos profissionais os chamarem de volta por
uns tempos.
— Acho que serão
visitas constantes, mas eles têm uma vida fora daqui. E, de qualquer jeito, Mel
e Jamie concordaram em não esperar nada além disso. — Então ele olhou para mim,
ciente das minhas expectativas. — Sempre soubemos que as experiências não
seriam iguais para todo mundo — completou, antes que eu pudesse usar as
escolhas de Paddy como argumento.
— É só um anseio
meio ingênuo de ver todo mundo feliz — expliquei.
— Todo mundo está
feliz, filho. As pessoas podem continuar juntas, mesmo que estejam fisicamente
separadas.
— Eu sei. — Ri. —
Como disse, foi só um impulso ingênuo.
Às vezes, na frente
de meu pai, eu me comportava como se soubesse bem menos deste mundo do que
realmente sei.
— Se fosse no mundo
de antes, provavelmente estariam um para cada lado também. Mel e Jamie teriam
ido para a faculdade, talvez encontrado empregos em outras cidades...
— É — confirmei, só
para demonstrar que tinha entendido o ponto dele. Depois ficamos contemplando o
horizonte por alguns segundos. Pensando. Fazíamos muito isso em nossas
conversas. Pensar juntos. — Não sei como vou me sentir se algum dia Lindsay e
John quiserem sair daqui.
Jeb olhou para mim,
uma expressão solidária no rosto.
— Até lá, se for o
caso, o tempo vai preparar sua cabeça. Mas admito que também não vou gostar.
Acho que é inevitável querer mantê-los perto. Quando você teve a ideia de se
infiltrar nos Conselhos, pensei que...
— Eu não deixaria
meus amigos. Jamais deixaria você — interrompi.
— Talvez não de
imediato, mas quem sabe quanto tempo as missões poderiam levar? Naquela época
era tudo incerteza. E, eventualmente, poderia se tornar mais fácil, ou
necessário, se estabelecer em outro lugar.
— Você já tinha a
ideia de que eu podia ser seu filho.
— Independente
disso, eu sentiria falta de vocês.
— Bem, você nunca
vai precisar se preocupar, pelo menos no que diz respeito a mim e a Estrela.
— Todo mundo se
separa um dia. É apenas natural, Logan — ele falou e minha expressão se fechou
de imediato.
Eu simplesmente
odiava quando Jeb entrava nesse assunto. Voltei a fitar o céu. De repente, a
finitude da Terra tinha voltado a me incomodar.
— Os tratamentos...
— comecei, mas ele me interrompeu.
— Não foram
projetados para nos fazer viver para sempre.
— Alguns precisam
partir para outros nascerem, eu sei. — Soltei uma risada amarga, lembrando do
que Kyle me dissera uma vez, com toda a delicadeza que lhe era peculiar:
“Humanos só têm um planeta para povoar, otário!”— Só não preciso fingir que não
me importo.
— Claro que não. A
gente sempre vai se importar. Mas com o tempo, imagino que até mesmo quem pode
viver para sempre entenda que não vale a pena. Por isso as Almas não tornaram o
corpo humano imortal. Creio que eles até poderiam, se quisessem. Mas sabem que
não deve ser assim.
— O que quer dizer?
— Que se não
morrermos, quem morre é Deus. A morte é a única coisa que tememos, que dá
perspectiva para os valores que construímos. Se vivêssemos sabendo que não há
limites para o que podemos conquistar, o valor das coisas se perderia.
Assenti,
conformado. Não havia como discutir essa lógica. Até mesmo a minha espécie precisava
considerar o término de cada ciclo. E, eventualmente, a possibilidade de um
remate para nossas vidas. Aqui na Terra, muitos como eu passaram a ver esse
momento como uma inevitabilidade tão absoluta quanto para os humanos. Eu não
queria viver mais do que Lindsay, por exemplo. Por ela, eu precisei me tornar
humano no que há de mais intrínseco à vida: o caminhar para a morte.
— Você tem razão —
admiti. — Mas não precisamos falar disso agora. Não gosto desse assunto.
— Não, não
precisamos falar. Só me prometa que quando chegar a hora de lidar com isso você
vai se lembrar que é um preço que compensa.
Ser parte de uma
família, de um grupo. Amar e ser amado. Eu aprendi essas coisas aqui. Neste
planeta. E para onde quer que vá minha consciência quando este corpo perecer,
se é que essa parte de mim vai continuar e seguir para o cosmo ou qualquer
outro lugar, amor estará na minha constituição. Porque na Terra foi onde
encontrei meu coração.
— Eu vou ficar bem,
pai. Você pode ficar tranquilo. Um único dia com vocês já valeria qualquer
coisa. É como Peg diz, há uma balança, mas ser parte disso que vivemos faz com
que ela penda sempre a meu favor.
Jeb me observou em
silêncio, analisando minhas palavras. Depois sorriu e estendeu a mão para
bagunçar meu cabelo como se eu fosse um garoto.
— O que é aquele
pacote mal-acabado que você trouxe ali? — perguntou, indicando que já tinha se
dado por satisfeito no que dizia respeito aos assuntos sérios.
Dirigi o olhar ao
pacote deixado ao pé da escada, esquecido, e gargalhei pelo “mal-acabado”,
porque estava mesmo. Na pressa de pegar Jeb acordado, eu tinha apenas apanhado
um punhado de papel pardo e enrolado em torno da madeira. Desci a escada e o
trouxe para cima, entregando-o nas mãos do destinatário.
— É uma coisa que
fiz para você. Quer dizer, para todos nós. Notei que precisava quando trouxe
Rio e Céu para a fazenda.
Removendo o papel,
Jeb revelou uma placa de madeira com as palavras “Fazenda Stryder” desenhadas
com um aparelho chamado pirógrafo. Não tinha havido um batizado formal, mas era
dessa forma que todos tínhamos nos referido à nossa nova casa desde o começo.
Simplesmente pareceu natural. Abaixo do nome, coloquei a imagem mais caprichada
em que consegui pensar.
— Uma mandala? —
ele perguntou, e me surpreendi que Jeb soubesse como se chamava o intrincado
traçado de círculos concêntricos. Eu não sabia ao certo se era uma desenho
comum.
— Eu queria algo
que fosse legal e tivesse significado. Então pesquisei e descobri que mandalas
simbolizam harmonia e integração. Achei que combinava com este lugar.
— Combina muito,
filho. Obrigado — disse, sorrindo, sem levantar os olhos da imagem.
Então se sentou
numa das cadeiras da varanda, com a placa sobre os joelhos, fazendo sinal para
que eu também me sentasse.
— Não sabia que
você estava aprendendo a fazer isso — observou enquanto eu me acomodava ao seu
lado, por certo referindo-se à pirografia.
— Estou
experimentando técnicas. Sempre gostei de todo tipo de arte, mas tenho que
confessar que era arrogante e perfeccionista demais para tentar aprender alguma
coisa. Agora Estrela tem nos ensinado a desenhar e tive que ser humilde, porque
é óbvio que os desenhos de Lindsay com guache são muito melhores que qualquer
coisa que eu faça.
— É óbvio — ele
reconheceu, soltando uma gargalhada que acompanhei. — Amanhã vamos juntos até a
entrada para colocar a placa. Leve a Lindy. Podemos passar e pegar John também.
Acho que eles devem participar do momento solene.
— Claro — falei.
Depois fiquei pensando sobre aquilo.
“Momento solene”.
Jeb falou em tom de
brincadeira, mas acho que ele tinha uma certa razão na escolha da palavra.
Porque parecia uma coisa simples. Colocar uma placa sinalizando a entrada de
nossa casa. O nome de Jeb escrito nela, nos identificando. Parecia simples. Mas
não era. Queria dizer muito.
— Você já tinha
pensado que uma coisa assim pudesse acontecer? — questionei.
Com as sobrancelhas
arqueadas e uma resignação admirada, ele me respondeu:
— Para ser sincero,
não pensei que nada disso pudesse acontecer. É o futuro que nos
esperava, filho. E você nos trouxe até ele.
— Já disse que não
fiz nada sozinho.
— É claro que não.
Esse é o princípio da coisa, afinal. De qualquer jeito, obrigado.
Senti seus tapinhas
nas costas da minha mão, aquela que estava sobre o braço da cadeira. Olhei para
ele e sorri, encarando os olhos vivos e sábios de meu pai, sentindo meu coração
se expandir no processo.
Depois voltamos a
contemplar juntos a linha do horizonte, bem lá onde a terra se unia ao céu.
terça-feira, 4 de junho de 2019
CD 2 Cap 42
Capítulo 42
Sobre Reaprender a Respirar
It's true the way I feel
Was promised by your face
The sound of your voice
Painted on my memories
Even if you're not with me I'm
With you
(With You – Linkin Park)
Jamie
“Chegaremos em meia hora”, Estrela me
mandou a mensagem mais ou menos na hora do almoço e eu decidi que só podia ser
um sinal de sorte.
As pessoas sempre conversam melhor
quando estão comendo.
Imagino que eles vão chegar com fome demais
para se preocuparem com qualquer outra coisa, então nos sentaremos todos e
deixaremos qualquer constrangimento para quando estivermos de barriga cheia.
Daí, nesse ponto, nem vai mais fazer sentido ficar sem jeito.
“Diga a eles que o almoço está pronto...”,
digitei, mas graças aos neurônios que me restavam, apaguei antes de enviar.
Tipo, que coisa mais aleatória!
Tá, ok. Não precisa ficar nervoso, Jamie Stryder.
Então tentei me recompor e pensar em
algo para escrever de volta. Quer dizer, tinha mil coisas que eu queria
perguntar e, claro, estava ansioso e feliz também, mas pareceria maluquice
disparar um monte de exclamações e perguntas. Ou ligar para Estrela, sendo que
ela estava no carro com eles. Não dava pra bancar o esquisito e assustá-los.
“Eles estão bem?”, resumi, por fim.
“Estão bem tranquilos. Estamos tendo
uma conversa agradável e Rio está tentando ver se consegue se lembrar de alguma
coisa na paisagem. Fique calmo você também, ok?”
“Ok”
“Vai dar tudo certo, querido.”
“Vai, sim. Está tudo pronto aqui”, falei,
querendo soar confiante. “Carinha piscando”, escrevi no nosso código.
“Mandando beijinho”, ela respondeu e
eu ri.
Soava bobo agora, mas tinha virado
nosso costume. Quando voltamos a usar celulares e aplicativos de troca de
mensagens, fiz questão de improvisar os emojis que as Almas tinham feito o
“favor” de abolir, porque achavam a interpretação
das expressões muito vagas.
— Como se as
palavras também não fossem — resmunguei.
— O que foi, lindo?
— perguntou Kate entrando no quarto toda atarantada.
— Chegou a hora —
falei e ela parou olhando para mim.
Depois se sentou ao
meu lado na cama, segurou meu rosto com as duas mãos e me deu um beijo.
— Está pronto?
— Sim — respondi
sem a menor hesitação.
Até que para um
sobrevivente do mundo-pós-apocalíptico-pré-restaurado eu tinha tido que tomar
poucas decisões na vida, mas uma coisa sobre a qual nunca tive dúvidas, mesmo
antes de saber que era possível, era que queria conhecer “meus pais”.
Anos atrás, quando
conheci Peg, soube que me apegaria a ela de qualquer jeito. E se nunca disse a
Melanie que achava que sentiria o mesmo pelas Almas nos corpos de nossos pais,
foi porque sabia que ela não lidava bem com o assunto. Não que o sentimento de
minha irmã não fosse super compreensível.
Claro que eu
entendia. Para ela, sempre tinha sido mais difícil.
Quando perdemos
nossos pais, minha irmã se transformou em minha mãe e, mais tarde, ganhei uma
espécie de pai em Jared. Não era a mesma coisa, mas eu tinha quem cuidasse de
mim. A ficha da perda só caiu com força quando achei que Mel tinha morrido.
Antes disso, e antes de Jared, principalmente, era só uma loucura de fugas
rápidas e de esperar que ela conseguisse comida para nós.
Mel, por outro
lado, precisou se confrontar rapidamente com a realidade de que só tinha a si
mesma para contar. E não dava para pensar muito nisso. Tinha que ser, como tio
Jeb dizia, “uma certeza empedernida” para que ela pudesse agir.
Por isso era tão
difícil para ela entender que agora podia relaxar. Que não precisava me
proteger. Não era como se eu não tivesse vivido as mesmas coisas que ela, as
mesmas perdas. Eu só sabia que podia deixar o passado ir embora.
— Acho que preciso
parar de me referir a eles como “meus pais” — concluí como se Kate tivesse acesso
aos meus pensamentos e não fosse preciso contextualizar. Mas é que, no geral,
não precisava mesmo. Ela me entendia.
— Isso deixa Mel
maluca — comentou. — E acho que eles vão achar esquisito também, pra ser
sincera.
— É, eu sei. Quando
me ouvem falar assim, todo mundo pensa que eu não sei a diferença.
— É claro que sabe!
— Kate protestou.
E fiquei me
sentindo orgulhoso de ser tão claro para ela.
Minha garota.
Corri os dedos pelo
cabelo comprido e cheiroso que ela tinha, grato pelos olhos que me viam sempre
como eu queria ser visto.
Eu não sabia se
merecia, mas era muito bom.
— Só não achei
outro meio confortável de falar. Tipo, não dava pra ficar dizendo: “Ei, Mel,
vamos marcar um encontro com as Almas que estão nos corpos dos nossos pais?”
Sei lá, pareceu meio bruto.
— Bem, mas agora
que já sabemos os nomes deles, podemos usá-los — observou Kate.
— Sim, nomes de
Almas. Como quase sempre, super práticos — brinquei, meio que na tentativa de
manter a defensiva. — É tipo como se a gente usasse nome e sobrenome toda vez
que fosse falar com alguém.
Kate deu uma risada
alta, que foi a primeira coisa que aprendi a amar nela, então entrou na brincadeira.
— “Por favor, James
Paul Stryder, passe-me o saleiro.”
— “Claro, Katherine
Janet Stuart. Depois que você me passar as batatas.”
Rimos juntos e senti
a tensão se esvair aos poucos. Era sempre assim com Kate. Eu nunca precisava
ter medo de que ela me julgasse ou se preocupasse demais. Podia apenas ser eu
mesmo que ela acompanhava o tom.
— Por falar em
batatas, já que pelas contas de Estrela eles chegariam mesmo na hora do almoço,
arrumei uma mesa lá na estufa da Lily. É só buscar a comida quando vocês
decidirem almoçar — ela comentou. — Sunny se encarregou da cozinha e, olha, ela
caprichou!
— Humm! Preciso
agradecer a ela. E a você também, claro. A ideia da estufa foi boa.
— Cal veio esta
semana. Está tudo lindo lá. Achei que era mais reservado, mas não pessoal
demais.
Tivemos muito
cuidado com isso, porque refeições eram especiais. Ao longo dos anos, apesar de
vivermos tão próximos, muitas vezes a gente nas cavernas passava muito tempo
cuidando apenas das nossas obrigações. Dava até para esquecer que algumas
pessoas estavam ali. Mas aí nos juntávamos para comer e “bum”! A sensação de
família estava lá de novo.
Por isso, embora
todas as casas tivessem cozinhas bem legais, a gente também pediu a Paddy que
fizesse uma cozinha coletiva, com mesas compridas como eram nas cavernas. E
apesar das paredes de vidro e estilão moderno do nosso refeitório, as horas do
dia que passávamos lá nos faziam nos sentir de volta à nossa antiga casa. Apenas
por estarmos juntos.
E era por isso
mesmo que eu tinha tido a ideia. Ao menos desta vez, a gente podia lembrar como
eram os velhos tempos. Nós, os Stryder. Só por um momento. Parecia besteira,
mas sei lá. Talvez não fosse.
Então Kate pensou
que a gente podia escolher um lugar neutro, para não parecer muita pressão para
ninguém, mas, ainda assim, ter aquele jeitão de encontro de família. Da nossa
família. E eu simplesmente embarquei na coisa da estufa, porque era mesmo o
lugar mais bonito que a gente tinha até agora, bem onde era a antiga sede da
fazenda em que meu pai e meus tios cresceram.
Quando Paddy estava
ajudando Nate com uns projetos para a montagem de um condomínio na antiga
fábrica, Cal decidiu fazer algo legal por nós também. Então ele construiu a
estufa, plantou as flores mais bacanas que nosso clima tolerava e tem ensinado
Lily a manter tudo perfeito. O que estava sendo muito bom, se você me
perguntasse, porque Lily estava bem empolgada com a tarefa.
Por fim, era isso.
Parecia ser o local perfeito para mim e ninguém discordou. Ou acho que só
estavam tentando me deixar resolver tudo do meu jeito, porque era minha responsabilidade,
já que fui eu que fiz questão do contato.
E quer saber? Deixar
por minha conta era o melhor que podiam fazer mesmo. As coisas não precisavam
ser complicadas e eu era bom em simplificar.
Provavelmente qualquer
um consideraria surreal demais estar preparando um almoço com “meus pais” — assim,
entre aspas mesmo — e o resto da minha família humana. Maluco demais para ser
corriqueiro, com certeza. Isso até eu reconhecia. Ainda assim, para quem tem
convivido com Almas na família há tanto tempo, era quase normal.
Por isso podia ser
simples, sabe? Embora também fosse esquisito. Mas é que já fazia uns anos que eu
tinha decidido não complicar as coisas refletindo demais sobre elas.
As pessoas são o
que são. E a gente se vira como pode para encaixar o que somos com o ser dos
outros. Saber disso e ter boa vontade tem sido o suficiente para mim.
No caso, não
importava muito que tipo de pessoas seriam Céu de Inverno e Rio Entre as
Montanhas. Jamie Stryder era do tipo que fazia dar certo, como Kate me disse
uma vez. E lembrar disso me ajudava a ficar tranquilo.
Por isso respirei
fundo e fui com Kate até a Grande Cozinha — era assim que eu estava chamando o
refeitório, porque gostei de como soou estranhamente épico. Como previsto,
quase todo mundo estava lá e Mel levantou o olhar para mim assim que cheguei.
— Estrela já te
avisou? — perguntei.
— Estou pronta —
ela disse, depois de balançar a cabeça positivamente.
Sinceramente, minha
irmã era uma rocha. Então não era surpresa que já tivesse achado um meio de não
parecer tão ansiosa e preocupada como no começo disso tudo. Mesmo assim, me
espantei com aquela expressão serena. Dava quase para a gente se assustar com o
clima de calmaria quando Tia Maggie se levantou e colocou as mãos nos ombros dela,
encarando nós dois depois de trocar um olhar com Tio Jeb.
Achei que minha tia
fosse dizer alguma coisa, mas ela apenas sorriu para mim e deu um aceno de
cabeça para Melanie, como se estivessem conversando sobre isso antes de eu
chegar. Por fim, Sharon e Tio Jeb se aproximaram, ele com aquela cara
indecifrável de sempre, e os três seguiram para a estufa enquanto Mel e Jared
se despediam.
— A gente já
superou o impossível, certo? — ele disse.
— É, então isso vai
ser fácil — Mel respondeu.
Quanto a mim,
fiquei apenas observando tudo, achando meio exagerado. Quer dizer, sim, a gente
já tinha passado por coisas muito malucas. O dia de hoje nem chegava perto.
Então ia ser fácil, não ia? Bem, pelo menos eu achava...
— Pare de revirar
os olhos, Jamie! — minha irmã esbravejou e todo mundo deu risada.
— Mas... Eu não...
Você nem estava olhando pra mim!
— Não preciso de
sentidos para saber o que você está pensando, guri.
Ah, pronto.
Mas aí eu nem tive tempo
de ficar irritado, porque Melanie segurou minha nuca e encostou a testa na
minha, como fazia quando eu era pequeno. Só que agora as posições tinham se
invertido e era eu que tinha que abaixar meu rosto.
Dois segundos assim
e eu já me sentia melhor, mais calmo. Quando nos separamos, achei que Mel
estava se sentindo como eu.
— Vai dar tudo
certo, gente — disse Ian, e Kyle complementou a frase com os dois polegares
levantados enquanto Sunny batia palminhas de empolgação.
Peg se aproximou e
deu um abraço em cada um.
— Eu sei que eles
vão adorar estar aqui — garantiu com aquela certeza da qual ninguém tinha
vontade de discordar.
Por fim, Kate me
deu um beijo e eu segurei a mão dela até nossos braços estarem esticados demais
enquanto eu caminhava para fora com minha irmã ao meu lado.
Quer dizer, se
minha família ia se encarregar de deixar tudo dramático, por que não fazer
minha parte?
Por isso, lá fora,
passei o braço em torno do corpo de Mel e beijei a testa dela. Ela sorriu e
tomamos fôlego juntos. Não era preciso dizer mais nada.
********
A primeira pessoa
que vi, ainda meio ao longe, através do vidro da estufa, foi Céu de Inverno. E,
meu Deus, minha mãe continuava linda.
Quem tivesse
conhecido Melanie antes acharia que se tratava de uma versão mais velha,
ligeiramente grisalha e menos esguia, mas eu me lembrava bem. Minha mãe tinha
uma beleza só dela, uma coisa qualquer que não se parecia com ninguém. E
continuava lá, mesmo que não fosse mais ela.
Eu não sabia o que
pensar do fato de Céu ter entrado primeiro, tão tranquila como se achasse que
nós ainda não estaríamos esperando, mas ela estancou assim que nos viu e meu
coração disparou.
Meu Deus, só não deixe nenhum de nós sair correndo. Amém.
Pois é, fiquei meio
religioso de repente.
Eu mal tinha
conseguido respirar depois de ver o rosto de Céu, quando Rio entrou logo atrás.
Ele sorria carregando Lindsay no colo, parecendo se divertir com alguma coisa
que ela dizia, então parou também, mais ou menos ao mesmo tempo em que a gente
se levantava da mesa.
Depois disso,
fiquei meio sem coragem de checar as reações dos outros, porque, cara, eu
ficava repetindo para mim mesmo que era para ser uma coisa sem complicações. E
era. Ou podia ser. Mas descomplicada não era a mesma coisa que fácil, e naquele
momento eu estava sentindo o peso de tudo. Especificamente das bolas de cimento
que pareciam estar amarradas aos meus tornozelos, porque eu não conseguia me
mover. E, pelo jeito, eu não era o único, já que ninguém fez um único movimento
ou som que eu pudesse ouvir.
Só Lindsay.
Mexendo-se no colo
de Rio até ser colocada no chão, ela correu em nossa direção, pulando primeiro
no pescoço do Tio Jeb, que tinha se abaixado para pegá-la.
— Vovô!
— Ah, patinha, que
saudade! Cadê meu beijo?
E assim ela o
cumprimentou e depois repetiu o ritual de beijos e abraços com todo mundo, o
que obrigou a gente a sair do congelamento e voltar a parecer pessoas, em vez
de robôs assustadores sem respiração.
Daí então,
lentamente, Céu e Rio foram chegando perto, meio que a reboque quando Estrela
pegou ambos pelas mãos e Logan os incentivou com tapinhas nas costas.
— Melanie. Jamie —
Rio falou baixinho e num tom estranho, que eu não sabia se era de reconhecimento
ou se ele estava só cumprimentando.
De qualquer jeito...
Caramba! Meus olhos se encheram de lágrimas por ouvir meu nome na voz do meu
pai outra vez.
— Viu, Céu de
Inverno? Eles não são fofos? — disse Lindsay.
Céu deu um
sorrisinho, obviamente sem saber o que responder. Não acho que “fofos” fosse um
adjetivo muito comum para ela. De qualquer jeito ela procurou alguma coisa para
dizer.
— A criança falou
muito de vocês durante a viagem. Ela estava ansiosa para rever todo mundo.
Parece gostar muito de vocês.
Puxa, sem prestar
atenção nas palavras, a voz dela soava quase como minha mãe.
Olhei para Mel,
buscando nela a mesma sensação que aquilo me dava. Mas seu rosto estava meio
rígido, esquisito. Como se estivesse tentando imitar a cara de pôquer do Tio Jeb.
Então ela passou a mão nos cabelos de Lindy e se abaixou para dar outro beijo
no topo da cabecinha dela.
— Somos a família da
Lindsay — falou, frisando o nome.
Ah, droga! Eu sabia
que ela tinha odiado ouvir Céu chamar nossa menininha de “a criança”.
Mel sempre detestou
isso nas Almas, porque, segundo ela, fazia parecer que estavam falando de um
cachorrinho ou algo assim. Mas, sinceramente, achei que ela daria um desconto
para as primeiras palavras que trocamos.
Oh, merda!
— É claro que ela
sente falta — continuou. — Crianças precisam estar perto da família. Não é,
Jamie?
Tio Jeb limpou a
garganta e olhou para mim, como se estivesse me mandando dar um jeito naquilo e
eu arregalei os olhos, sem saber como reagir. Acho que Mel também percebeu o
que ele queria dizer, porque pareceu se dar conta na hora do quanto tinha sido
rude sem necessidade. Mesmo assim, ficamos os dois sem falar nada.
Constrangimento estampado nas nossas caras enquanto nossos visitantes deviam
estar achando que éramos um bando de loucos.
Contudo, o que
aconteceu foi que um minuto de clareza se abateu sobre mim, porque, de repente,
olhando para Mel ali, tão desamparada que nem parecia ela, percebi que estive
me preocupando tanto com Rio e Céu que tinha me esquecido da minha irmã. Esse
tempo todo nós não tínhamos tido uma única conversa sobre aquele momento, simplesmente
porque achei que ela estivesse pronta.
Bom, claramente não
estava.
Ah, pelo amor de Deus! Dê um jeito nisso, Jamie Stryder.
— Desculpem,
estamos meio sem jeito, mas a gente queria dizer obrigado por vocês terem largado
tudo e vindo nos ver — falei olhando para Mel com uma cara de quem tinha tudo
sob controle, já que não me custava fingir. — A gente ficou muito feliz com a
visita, não é, Melanie?
— É, sim. Obrigada.
Ficamos felizes mesmo — ela respondeu sem graça, mas com uma sinceridade que eu
esperava que desse para eles sentirem.
— Nós também
ficamos — disse Rio.
— Sim. Pareceu
interessante... Quer dizer, acho que foi bom ter vindo — Céu completou meio
desastrada.
Parecia que Rio
estava bem, apesar de todo mundo ter apostado que a situação toda seria mais
difícil para ele. Mas Céu, pelo jeito, estava nervosa. Então decidi que
precisava quebrar o gelo com um golpe frontal.
— Eu queria fazer
um pedido, espero que não soe inconveniente, mas... Posso dar um abraço em
vocês?
Eu ia pedir por mim
e por Melanie, mas não me atrevi, porque agora sim eu estava prestando atenção.
Então eu ia primeiro traçar o caminho para ela passar quando estivesse pronta.
Nenhum dos dois
disse nada, mas acho que a pergunta teve um efeito. De algum modo, a gente não
estava precisando muito de palavras naquela hora.
Céu de Inverno
respirou fundo, como se tivesse sido pega de surpresa, depois assentiu. Mas aí
ela parou, meio sem saber o que fazer, se esperava ou tomava a iniciativa.
Então ficou olhando de mim para Melanie e de nós para Rio. A situação ficando
cada vez mais estranha como se o ar tivesse sido sugado do ambiente. De novo.
E o fato de eu
continuar travado também não ajudava em nada, devo acrescentar. Mas o que eu
podia fazer?
É claro que eu
sabia que tinha que dar o primeiro passo, já que inventei a coisa toda, mas
tenho que admitir que congelei. Porque, caramba, aquilo não era qualquer coisa.
Só ouvir a voz deles já tinha feito meu coração disparar.
Por isso fiquei
aliviado quando Rio deu um sorriso para Céu, se comunicando com ela de um jeito
que devia ser só deles, e depois passou os braços ao meu redor, do mesmo jeito
que meu pai teria feito. Sem hesitação, sabe?
Então foi isso.
Eu só fechei os
olhos e correspondi.
E nem sei como
explicar como me senti.
Geralmente não me
faltam palavras, mas...
Ouvi alguém fungar,
mas não quis saber quem estava chorando, não quis olhar, só não queria abrir os
olhos e lembrar que eu não era mais um menino nos braços do pai.
Mesmo assim eu
lembrei. Devagar, a consciência daquilo foi se infiltrando em mim. E não foi
ruim. Porque aquilo não era só ausência, nós éramos alguma coisa boa também.
Éramos Jamie
Stryder e Rio Entre as Montanhas. Humano e Alma. Filho e pai biológicos. Ainda
que completos desconhecidos nesta vida.
Bom, nem tão
completamente desconhecidos a partir daquele momento.
Se me perguntarem,
foi um ótimo começo.
Não sei dizer
quanto tempo durou, mas acho que eu estava chorando quando a gente se afastou e
Rio estendeu os braços para Melanie. Não cheguei a ficar um segundo inteiro
preocupado, porque sabia que ela não teria coragem de se negar. E foi quando
aconteceu.
Acho que foi este o
momento em que todo mundo se encontrou no meio do caminho.
No começo, Mel só
se deixou abraçar, mas vi exatamente o instante em que o corpo dela relaxou e
começou a corresponder. Os braços se fechando em torno de Rio e o rosto
afundando na curva do ombro dele. Mesmo que ela tivesse fechado os olhos como
eu, dava para saber que ela também estava chorando. E foi quando eu tive aquela
sensação de que tudo estava no lugar.
Finalmente, Céu
tomou coragem e estendeu a mão para tocar meu rosto.
— Você cresceu —
ela falou.
— Passou muito
tempo — respondi de um jeito meio mecânico, porque meus sentimentos estavam um
tanto fora de controle quando ela secou uma lágrima minha e ficou pensativa,
contemplando a gota na ponta do dedo enquanto o calor dela ainda estava na
minha bochecha.
— Eu me lembro agora
— murmurou. — Lembro de fazer isso sempre. Quando você era pequeno.
Oh. Tá. Ok.
Ela se lembra de mim.
Minha nossa.
Senti uma coisa me
aquecer por dentro. Era tristeza. Saudades da minha mãe de verdade. Mas também
era um carinho incontrolável por aquela pessoa à minha frente.
Não que eu já não
soubesse disso, mas tive certeza de que, uma vez que agora tinha conhecido Céu
e Rio, nunca mais deixaria de pensar neles. Não tinha outra opção que não fosse
amar os dois.
Senti a mão dela em
mim de novo, os dedos se enrolando no meu cabelo e me puxando de leve mais para
perto. O resto meu corpo fez sozinho, porque acho que a gente não esquece o
caminho para esse tipo de abraço, e, quando percebi, estava perdido no cheiro
dela.
O cheiro da minha
mãe. Que agora era também o perfume que me faria lembrar de Céu de Inverno.
E, sim, eu podia aprender
a gostar muito da sensação. Poder sentir o perfume, o toque e ouvir a voz ganhavam
disparado da alternativa, que era não ter nada disso.
Por isso decidi que
de jeito nenhum arriscaria deixar Mel se esquivar de se sentir como eu estava
me sentindo. Não tinha nem cinco minutos desde que eu tinha decidido respeitar
o ritmo dela, mas havia um limite do quanto uma pessoa podia ser madura numa
situação dessas. Por mais que minha irmã fosse a força em pessoa, às vezes ela
precisava de ajuda. E eu sabia que com Céu seria mais difícil.
Com nosso pai as
coisas sempre foram mais naturais, e com Rio tinha fluído tão bem quanto, mas
era da nossa mãe que Mel sentia mais falta. Eu não saberia explicar como
percebi, mas sempre soube. E minha irmã tinha medo dessa emoção, medo de não
saber lidar com Céu de Inverno. Por isso tinha sido rude com ela.
Olhando para Mel
ali, esfregando os braços naquela pose desengonçada de constrangimento, os
olhos buscando se focar em outra coisa, só tive mais certeza disso. Então segurei
a mão de Céu, puxei a de Melanie e uni as duas.
Eu já ia tomar uma
atitude menos sutil enquanto elas se olhavam como se estivessem com medo uma da
outra, mas não precisei. Céu começou a afagar o braço de Melanie, depois o
rosto, o cabelo, colocando com cuidado uma mecha atrás da orelha... Por fim,
Mel cedeu e a puxou para perto.
É como respirar, eu
acho. Amar as pessoas. A gente só precisa parar de segurar o fôlego.
— Obrigada — disse
Céu.
— Pelo quê? — Mel
perguntou surpresa.
— Não sei... Mas creio
que sua mãe gostaria que eu dissesse isso. Pela forma como vocês cuidaram um do
outro. Sei que não foi fácil. Estrela me contou — disse ela, olhando para minha
outra irmã que assistia a tudo abraçada a Lindsay e Logan.
Melanie abraçou Céu
mais forte e ambas respiraram fundo antes de se afastarem.
— Foi importante
eles nos contarem. Não podíamos imaginar os detalhes — completou.
— Bem, tivemos
ajuda — Mel admitiu, olhando para nossos tios.
— Nós não sabíamos —
Rio interferiu. — Podíamos supor que tinham se encontrado com Jeb e presumimos
que estavam seguros. Mas não tínhamos ideia do quanto tinha sido difícil.
Sempre ouvimos falar sobre os saques que os humanos fugitivos faziam, de que
havia esconderijos que os Buscadores não eram capazes de localizar...
— Nós ficamos bem —
interrompi, porque percebi que quanto mais Rio falava, mais constrangido ele se
sentia. Era difícil de olhar e eu não queria que nossa primeira conversa fosse
sobre aquilo.
— Será que vocês
conseguem nos perdoar? — ele insistiu. — Naquela época, chamar os Buscadores
era a única opção que acreditávamos ter. Achamos que estávamos fazendo o melhor
para mantê-los conosco. A realidade deste planeta, os sentimentos... Estávamos
apenas começando a entender.
— Você não tem que
fazer isso, Rio — falei. — O que todo mundo acreditava era diferente. As coisas
aconteceram do jeito que tinham que acontecer. Ninguém nunca tinha pensado que
podia ser como agora.
— Nós não culpamos
mais vocês — Mel explicou. — É que às vezes ainda dói muito. E acho que vai
doer sempre. Mas não queremos construir nossa relação com vocês em cima da
parte mais difícil de encarar. — Aproximando-se de Rio, ela tocou o rosto dele
e o fez levantar a cabeça. — Vamos construir a partir de agora.
Percebi que Mel o
deixava seguro. De um jeito próprio e natural, ela conseguia definir as bases
de um jeito que eu mesmo tinha que me esforçar para fazer. Mas minha irmã
sempre foi boa nisso, em fazer as pessoas confiarem nela. Era cuidando que ela
se sentia forte, e todo mundo conseguia perceber isso.
Fiquei aliviado
quando ele pôs a mão sobre a dela e sorriu de leve, parecendo mais calmo. A
gente não estava mais andando em campo minado.
Ufa.
— Entendo. Mas
estarei pronto para conversarmos a respeito se um dia vocês quiserem.
— É importante conversar
— Céu interferiu, concordando com Rio. — Sempre partimos do ponto de que é
necessário verbalizar o que...
Mel segurou a mão
dela, interrompendo.
— Não dá.
— Um dia então —
assentiu e Mel sorriu daquele jeito que eu sabia que significava que ela nunca
mais ia tocar no assunto.
Por fim, Melanie
passou o braço sobre o ombro de Rio e apontou para nossos tios.
— Tem mais gente
aqui para te ver.
Tia Maggie foi a
primeira a se aproximar, agora que todos tinham nos dado espaço suficiente.
Rígida e com aquela cara resignada, ela estendeu a mão para Rio que lhe deu um
sorriso antes de segurar a mão dela e lhe dar um beijo no rosto.
— Magnólia. Eu me
lembro muito de você. E você deve ser a Sharon. É muito bonita.
— Obrigada — Sharon
respondeu sorrindo enquanto Tia Maggie tentava fingir que não tinha se
comovido. — Você é muito bem-vindo na nossa casa.
— Vocês dois são —
Tio Jeb complementou olhando para Céu, depois para Rio de novo. — Posso
chamá-los de Céu e Rio? Costumamos abreviar por aqui.
— É claro. Já
estávamos imaginando. Logan nos avisou — Rio respondeu pelos dois enquanto Céu
concordava com a cabeça.
— Então muito
prazer. Sou Jeb, mas vocês já sabem disso.
Céu retribuiu o
cumprimento, mas Rio ficou em silêncio, observando.
— O que foi? — Tio
Jeb perguntou.
— Ele te amava
muito. Amava todos, mas, por alguma razão, achava mais difícil dizer isso a
você.
Ah, pronto.
Tio Jeb ficou meio
em choque, o contato seco e civilizado que ele estava fazendo até agora foi
empurrado garganta abaixo quando ele engoliu em seco. Para a surpresa de todos,
Tia Maggie afagou as costas dele. Acho que para ajudar a descer a emoção.
Eu precisava
reconhecer que a famosa cara de pôquer do meu tio não era mais a mesma, porque
a gente conseguia ver que ele estava bem comovido e sem saber como reagir. De
repente, olhou para Logan, respirou fundo e colocou a mão no ombro de Rio.
— Bem, então que
bom que você disse. Andei aprendendo que é a melhor coisa.
— É o que sempre
digo. É preciso externar os sentimentos sempre que possível — Céu comentou e a
gente disfarçou o riso, porque não era bem no sentido de uma conversa com
Confortadores que Tio Jeb estava falando aquilo.
Mas servia.
Quer dizer, eu
tinha começado o dia achando que as coisas seriam diferentes. Então pensei em
mil maneiras de simplificar para todo mundo, sendo que, no fim, a gente só
precisava deixar o coração ditar o tempo e o caminho. Para além disso, era só inspirar
e expirar. Não tinha nada de complicado nisso.
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