sábado, 11 de julho de 2015

ELS Cap 26

Capítulo 26 – Jogos de Amor e Ódio

The world was on fire and
No one could save me but you
It's strange what desire make foolish people do
I never dreamed that I'd meet somebody like you
I never dreamed that I'd lose somebody like you
(…)
What a wicked game to play
To make me feel this way
What a wicked thing to do
To let me dream of you
What a wicked thing to say
You never felt this way
What a wicked thing to do
To make me dream of you

(Wicked Game - Chris Isaak)


            A terça-feira parece não passar rápido o suficiente.
            No dia anterior, depois que Marina foi embora, eu dei a mim mesma a noite amena e agradável que tinha me prometido, e permiti que minha mente vagasse pelo mesmo caminho de meu coração. Parece estranho, mas há muito tempo eu não sentia que uma coisa podia acompanhar a outra. Tenho vivido com a sensação fraca, porém insistente e incomodamente familiar, de estar sempre longe de casa, sempre de passagem por algum lugar amistoso e confortável, mas que não é o meu.
            Então, quando deitei a cabeça em meu travesseiro, pensando que, fosse como fosse, havia um lugar para mim na vida de Marina, que havia uma possibilidade mais do que palpável de que ela me aceitasse racional e emocionalmente, senti como se estivesse me aconchegando de novo no conforto de minha própria cama depois de uma longa viagem. Desde o momento em que a vi, não só na noite de nosso reencontro algo fatídico, mas no dia longínquo em que a acolhi em minha vida, é assim que a presença dela me faz sentir: como se eu estivesse em casa. Finalmente.
            A paz que essa constatação me trouxe embalou meus sonhos, mas acho que eles pouco tiveram a ver com Marina, afinal. É com o coração cheio da presença de Eric que acordo, abrindo os olhos para a rosa vermelha que flutua num vaso de vidro ao meu lado como um sinal luminoso, frágil e belo de que há coisas a serem vividas no dia que se desdobra diante de mim. Um dia que vai culminar em uma noite de trabalho ao lado dele. Uma noite inteira. Pensar nisso faz um sorriso bobo surgir em meu rosto e uma ansiedade gostosa começa a acompanhar meus passos.
            Pareço uma criança enquanto espero a hora chegar, cumprindo pequenas tarefas do cotidiano pela casa, indo passear com Blue e tentando distrair minha cabeça com coisas que nem precisariam ser feitas, para começo de conversa. Felizmente, um cachorro novo num apartamento faz sua cota de sujeira, mas não é como se eu morasse em uma enorme mansão desorganizada que precisa de arrumação e faxinas constantes, então chega uma hora em que as tarefas domésticas se esgotam e eu sou obrigada a me sentar e tentar ler um pouco.
            Por um tempo funciona, mas logo os personagens principais começam a se descobrir apaixonados e algo em mim flutua pelos ares enquanto eles se beijam. Em um instante, meus lábios se transmutam nos dela e sou eu que estou dizendo a um Eric literário que quero mais, sempre mais de seus beijos, de seu corpo, de sua companhia, porque tudo o que sou parece subitamente pertencer a ele. Fecho o livro quando começo a sentir a maciez dos cabelos dele sob meus dedos e o calor etéreo de seu corpo imaginário prensando-se contra o meu.
            Céus! Então é assim que é estar apaixonada?
            Acho que você vai precisar de um hobby!, provoca aquela parte de mim. Mas eu sinceramente espero que seja só a ansiedade do começo, a saudade misturada com expectativa que cerca meu reencontro com ele depois do nosso — do meu — primeiro beijo. E é por isso, por causa dessa ansiedade toda, que, apesar de minha preocupação em deixar Blue sozinho por um período longo pela primeira vez, estou pronta para ir bem antes do meu horário.
            Fico com o coração apertado quando o cãozinho acompanha, com olhos ligeiramente decepcionados, meus movimentos ao meu arrumar. Queria não precisar deixá-lo sozinho por tanto tempo, mas a verdade é que ele vai ter que se acostumar, porque é assim que será a maioria das nossas noites. Então tento não fazer drama ao ir embora, comportando-me como se fosse uma saída rápida para ir à padaria, por exemplo, e torço para que seja verdade que os cães têm uma percepção de tempo diferente da nossa.
            Dou um “ossinho” a ele e tento lhe fazer um cafuné, mas Blue já não parece mais preocupado com minha ausência quando tem a comida para se distrair. Sendo assim, posso sair discretamente, deixando a luz acesa e o rádio ligado baixinho para lhe fazer companhia durante minha noite de trabalho.
            Chego ao bar cerca de meia hora antes do previsto, reparando que, como sempre, a moto de Eric já está em seu lugar de costume. Ele sempre é o primeiro a chegar e o último a sair, nunca tira folgas e nem atribui a Samuel algumas coisas que poderiam ficar sob a responsabilidade de um gerente.
            O bar está diferente agora, tem um cardápio mais sofisticado e uma rotatividade maior de bandas, o que torna o lugar mais atraente a uma clientela mais adulta, que tende a ser mais assídua e também a gastar mais do que os adolescentes de sempre. Essas mudanças todas são por causa de Eric, e isso certamente justifica ele trabalhar bem mais do que Samuel quando era dono do On The Rocks mais despretensioso de antes.
            Ainda assim, embora eu saiba que Eric tem suas obrigações administrativas a cumprir, coisas como receber fornecedores, contratar as bandas e cuidar para que tudo esteja em ordem, às vezes tenho a impressão de que ele passa o máximo de horas que pode trabalhando neste bar porque se sente melhor aqui do que em outros lugares. Talvez eu possa perguntar isso a ele qualquer dia, porque, sabe como é, eu gosto do mistério todo e de fazer minhas suposições, mas seria ótimo não ter que ficar adivinhando tudo, só para variar.
            Depois da entrada de serviço, no corredor que leva à cozinha e ao nosso pequeno depósito, há um conjunto de armários simples de metal, como os de academias de ginástica, para podermos guardar nossos pertences. Entro distraída, vasculhando minha bolsa desajeitadamente em busca do pequeno cadeado com chave que Paty me importunou para comprar depois que algum dinheiro desapareceu de minha bolsa.
            Ela nutre suas desconfianças em relação a Lara, mas eu prefiro pensar que perdi esse dinheiro por aí, porque não quero outro motivo que alimente a inimizade que a namorada de Samuel tem por mim. Ainda tenho alguma ilusão de poder ajudar Lara a se encontrar e, mesmo que no fim ela não precise da minha ajuda, seria bom se pudéssemos ficar em paz.
            Você e sua mania de querer consertar as pessoas!
            “Sim, sim, eu tenho complexo de salvadora, blá, blá, blá... Me processe!”
            Claro! Porque isso seria perfeitamente lógico e possível.
            Alcanço o cadeado, mas como estou preocupada — como uma boa pessoa sã — em brigar comigo mesma, acabo derrubando a bolsa e seu conteúdo se espalha parcialmente pelo chão. Ainda não está totalmente escuro, há um resquício de luz vindo de fora, mas a penumbra já se espalha pelo corredor e, a fim de encontrar meus pertences, pressiono o interruptor. Quando faço isso, minha atenção se volta involuntariamente para a parede de armários, e reparo que o meu está entreaberto. Dou uma olhada lá dentro e reparo que há uma forma delicada presa à parte interna da porta.
            Uma rosa vermelha.
            Recolho minhas coisas atabalhoadamente e jogo dentro da bolsa de qualquer jeito, porque meu coração acelerado me impulsiona em direção ao meu novo presente. Um pequeno post-it amarelo está colado ao lado da flor. Na letra que já me é familiar, as seguintes palavras pulam direto de meus olhos para dentro de meu peito:
Pela noite que ficou melhor depois de escutar sua voz.
            Não estou pensando, apenas sentindo a presença dele naquele clichê romântico tão doce quanto qualquer coisa que estreita a distância entre dois corações. É tão simples e ao mesmo tempo tão perfeito que dispensa palavras. De repente, não me importo mais com todos os mistérios que ele guarda dentro de si. De um jeito ou de outro, ele parece arranjar um jeito de falar comigo e me deixar saber que não estou sozinha em meus sonhos.
            Retiro a fita que prende a flor à porta de metal e acaricio as pétalas perfumadas, sentindo-me como se aquela beleza fugaz fosse o que há de mais eterno no mundo, porque, para mim, a delicadeza daquele carinho e a felicidade com que ele preenche meu coração não vão desaparecer. Talvez a vida seja isto mesmo: a fixação do efêmero por meio do amor.
            Fico com pena de deixar a flor trancada, mas, mesmo que eu a leve para o carro, de qualquer forma teria que esconder sua beleza da luz, o que acaba por me lembrar o jeito de Eric de se esconder do mundo. É uma comparação poética, embora melancólica, mas sei que nenhum dos dois vai permanecer no escuro por muito tempo.
            Como eu disse, tenho complexo de salvadora, penso, com um sorrisinho de canto pretensioso.
            Pego um copo plástico ao lado do bebedouro e encho de água, tentando acomodar a bolsa, os tênis pelos quais pretendo trocar as botas no fim do expediente e o vaso improvisado, apoiado no canto do armário para não cair. Fecho tudo e prendo a pequena chave na correntinha que coloco em torno do pescoço, por dentro da camiseta com o logotipo do On The Rocks. Então, finalmente, parto com o coração aos pulos ao encalço da outra beleza guardada por trás do jeito sombrio dos olhos que povoam meus sonhos.
            Abro a porta que dá acesso ao salão, esperançosa de que dar de cara com ele, sem ter tempo de pensar, possa me fazer esquecer a timidez, mas uma rápida olhada me avisa de que não vai ser tão fácil assim. Ele não está em nenhum lugar visível, o que significa que deve estar fechado em seu pequeno escritório numa sala contígua ao backstage. Isso quer dizer que vou precisar bater na porta com uma desculpa para conversar que vá além de um: “Olá, também chegou mais cedo hoje? Eu tive que passar em um lugar antes de vir, mas levou menos tempo do que eu supus, então... Bem, aqui estou. E, ah, obrigada pela flor”. Agora talvez eu precise incluir um: “Não pude esperar para te ver, então decidi vir aqui interromper seja lá o que você esteja fazendo na privacidade de sua sala particular para agradecer e... quem sabe... sei lá, talvez, se couber na conversa, te declarar amor eterno”.
            É, isso definitivamente mandaria toda a minha desculpa esfarrapada e minha calma calculada para o espaço!
            Também não sei por que estou preocupada em criar pretextos. Talvez eu possa apenas dizer mesmo a verdade ou, quem sabe, não precise dizer nada. Não sei, e também não importa muito, acho que posso pensar nisso quando estiver com ele.
            Porém, quando estou na porta da sala maior onde as bandas descansam, nos fundos da qual fica o escritório, percebo que a porta não está fechada, mas que Eric está acompanhado. Posso ver a silhueta dele encostado ao batente, meio corpo para fora. Toda sua postura corporal indica alguém que não quer estar ali e seu tom de voz, embora baixo, é agressivo e irritado.
            De lá de dentro, uma voz sussurrante de mulher rebate o que ele diz. Posso ver as pernas dela, cruzadas confortavelmente enquanto ela faz a cadeira de rodinhas girar com o movimento de seu corpo. Não consigo ver seu rosto, mas sei que ela é bonita. E sei que a odeio antes mesmo de ser capaz de entender por quê. O ineditismo do sentimento me atinge em cheio e não é bom. Sinto meu corpo se encher de uma energia estranha que faz com que eu me desconheça.
            Agressividade.
            Não gosto disso. Não gosto mesmo.
            Uma curiosidade mórbida, e algo mais que isso, faz com que, em lugar de ir embora e ficar longe da conversa que não me diz respeito, eu decida permanecer onde estou, com o corpo meio escondido pela parede, atiçando meus ouvidos para decifrar o que eles estão dizendo.
            — Eu já disse a você que sei o que estou fazendo, que vou fazer isso do meu jeito.
            — Se você sabe o que está fazendo, por que está demorando tanto? Você me prometeu o outro e eu sei que isso requer mais paciência, eles precisam de tempo. Mas você sabe muito bem que paciência não está entre minhas virtudes. Talvez se você acabasse logo com isso, eu me contentasse em ficar sem prêmio de consolação dessa vez. Nós podíamos ir embora daqui, estou cansada de ver você sofrer desse jeito.
            Ao dizer isso, a forma dela desaparece da cadeira e se materializa ao lado de Eric, levantando uma das mãos para tocar no rosto dele. Ela é como pensei: linda. É alta, mesmo que não estivesse usando saltos agulha, tem longos cabelos lisos e escuros que lhe caem languidamente pelas costas, olhos grandes e profundos como buracos negros e traços exóticos e marcantes. Únicos. Não como a beleza convencional que alguns me atribuem, mas um encanto só dela. O corpo de formas curvilíneas é um insulto dentro da calça justa e da blusa de seda preta que lhe marca os contornos dos seios pequenos e empinados.
            E ela está lhe falando, com aquela maldita voz sussurrante, sobre um sofrimento que eu não conheço, mas ela sim. Sobre irem embora juntos. Embora. E está tocando no rosto dele.
            Por uma fração de segundo, Eric inclina o rosto na direção do carinho, repousando na mão dela de olhos fechados. É só um momento, tão rápido que me pergunto se não o imaginei, mas odeio o descanso que ele encontra naquela cumplicidade que não tem comigo. É tempo suficiente para algo se quebrar dentro de mim e eu me sentir transbordar de uma ira contida, como se as unhas dela tivessem feito um fissura irreparável na represa de meus sentimentos.
            Quando ele cai em si e tira a mão dela, afastando-a com um gesto brusco, já é tarde demais. Meus olhos já ardem com as lágrimas e minha garganta se engolfa no gosto ácido de um sentimento que eu nunca tinha sentido — e espero jamais sentir novamente — por ninguém.
            Eu a odeio.
            — Não vou a lugar nenhum com você, Esther — ele diz. — E não me venha com esse teatro, você está aqui porque quer sua parte.
            — Não, querido. Eu estou aqui porque ele quer sua parte. Não se esqueça de quem nós somos, você já fugiu tempo demais dessa verdade. Quanto a mim, posso conseguir a minha parte a hora que quiser, você sabe muito bem.
            — Fique fora do meu caminho. Desta vez não vou deixar esta merda toda me manipular. Só fique longe...
            — Ou?
            Os dois estão furiosos, quase posso tocar a tensão entre eles de onde estou, mas Eric está mais do que irritado. Há uma desolação na postura dele. Na maneira como ele parece admitir algum tipo de razão na fala dela.
            Talvez seja por isso que ele não responde ao tom desafiador da pergunta. Apenas sai de perto dela, dando-lhe as costas enquanto apoia as mãos crispadas na mesa do escritório. A tal Esther apenas revira os olhos e se apoia no batente onde Eric estava antes, só que a postura dela é relaxada e confiante, com um dos saltos tocando a madeira e os braços cruzando-se triunfalmente enquanto os ombros dele afundam mais um pouco.
            — Foi o que pensei — ela diz. E vejo o corpo de Eric se endireitar, tensionando-se de raiva, mas ele não volta a olhar para ela ainda assim.
            Ouço a porta do salão se abrir bruscamente. Paty está chegando, e seus modos extrovertidos estão prestes a denunciar minha posição. Coloco meu indicador em riste diante dos lábios para sinalizar para ela de longe, pedindo para que fique quieta. Vejo-a começar a atravessar o salão pé ante pé em minha direção, sorrateira e silenciosa como um gato. Graças a Deus!
            No instante seguinte, quando volto minha atenção novamente para os dois, Esther está se movendo em direção a Eric, segurando seus ombros delicadamente e virando-o para si.
            — Isso podia ser tão fácil, querido. Você ganharia o controle que tanto quer e poderia me dar o que quero, o que vem me prometendo há tempos.
            — Não prometi nada a você, Esther. Nunca concordei com seus delírios. E o que você acha que é a solução ideal está longe disso para mim.
            — Eu posso fazer você concordar, amor. Do jeito mais difícil ou do jeito mais prazeroso. Mas você sabe o que eu prefiro.
            De repente, ela é toda braços e boca, acariciando-o e fazendo com os lábios o caminho do seu pescoço, que ele inclina para trás para evitá-la, e depois do maxilar tenso que ela contorna até chegar à boca dele.
            — Mas que porra é essa!? — pergunta Paty à minhas costas, num sussurro mais alto do que deveria. — Essa lambisgoia está atacando seu namorado e você vai ficar aí, sem fazer nada?
            — Ele não é meu namorado, Paty. Nunca disse que era. E também não está exatamente se defendendo.
            Eric mantém-se parado, os braços ao lado do corpo, parecendo resistir ao toque dela, mas sem fazer nada além de tombar a cabeça ligeiramente para trás, fugindo do alcance dos lábios de Esther, que alcançam seu queixo e seu pescoço em vez da boca pretendida.
            — Besteira, ele não está jogando a vagabunda para trás nem nada, mas está tentando resistir. Se ele beijou você outro dia e não está beijando ela agora significa alguma coisa, ele está escolhendo e você devia fazer algo a respeito.
            As lágrimas despencam pesadamente de meus olhos, mas estou determinada a não interferir. Está claro que o que está acontecendo ali deve ser interrompido por ele, não por mim, a sua não-namorada que pediu um tempo antes mesmo de começar qualquer coisa. Que direito eu tenho, afinal?
            — Aah! — bufa Paty. — Se você não vai fazer nada, eu faço.
            E então ela faz uma entrada barulhenta na sala de descanso, batendo os pés com força no chão para se fazer notar, enquanto Eric finalmente segura Esther pelos ombros e a afasta de si.
            — Ah, oi, Eric... Opa, desculpe, achei que seria bom dar uma geral aqui no backstage, mas não sabia que você estava aqui, e ainda por cima com visita. Foi mal mesmo — diz Paty, fingindo-se de desentendida.
            A desculpa é esfarrapada. “Dar uma geral no backstage” não está entre as tarefas que nos preocuparíamos em executar numa noite em que aquela sala não seria usada, mas Eric parece achar a interrupção bem-vinda.
            — Não tem problema, Patrícia. Minha amiga já estava indo embora e eu tenho muito que fazer antes de o bar abrir também — ele diz, olhando incisivamente para a “amiga”.
            — Não sem antes conhecer seu staff, querido — ela rebate, devolvendo-lhe um olhar provocativo. — Mas que moça adorável! — diz, como se Paty fosse algum tipo de bibelô de vitrine. — Patrícia, não é? Meu nome é Esther.
            — Como vai? — responde Paty, segurando firmemente a mão que ela oferece.
            — Bem. E como é mesmo o nome da outra? Clarice, Clara...?

            — Clara — Paty responde. — Ei, Clara! — ela grita, fingindo que estou longe. — Vem aqui um minuto!
— Isso é desnecessário, Esther — Eric interfere. — Eu já disse que tenho muito que fazer e que é melhor você ir embora. Clara deve estar ocupada em algum lugar, não é, Patrícia?
            — De jeito nenhum! Ela estava por aqui, limpando as mesas, mas tenho certeza de que ela tem um minuto para conhecer a sua...
            — Namorada — Esther responde, após a hesitação proposital de Paty.
            — Ex — Eric corrige.
            Meu estômago afunda. E não sei que força faz com que eu enxugue os olhos, cole um sorriso fingido no rosto e entre na sala como se nada tivesse acontecido.
            — Oi, Clara — diz Paty. — Eu te chamei porque a ex-namorada do Eric quer te conhecer.
       — Ah, é mesmo? — pergunto com uma cara de pau tirada do fundo da minha cólera borbulhante. — Como está, querido? — digo para Eric, usando a palavra pela qual ela o chamou tantas vezes nos últimos minutos, e abraçando-o enquanto beijo seu rosto do jeito mais terno que consigo, dada a raiva que sinto.
            Queria ter tido forças para dar um beijo na boca dele, mas não é desta vez que consigo ser tão atrevida. De qualquer jeito, três pares de olhos arregalados me encaram quando termino minha ceninha e fico satisfeita com o resultado. Se é que consigo ficar satisfeita com alguma coisa nestas alturas.
            — Então você é minha parcela de competição saudável? — diz Esther, estendendo a mão para mim. Ela me puxa e me dá um beijo fingido no rosto, como se estivesse conhecendo uma nova amiga. Quero arranhar a cara dela e limpar a minha com desinfetante. Céus! Como eu quero! Nunca me senti assim. É terrível! — Esse é o seu jeito de se fazer de difícil, querido? — ela pergunta para um Eric mortificado. — Podia fazer melhor.
            Diante do desdém dela por mim, Eric se irrita e a arrasta pelo braço para fora dali.
            — Já chega disso, Esther. Está na hora de você cair fora — ainda consigo ouvi-lo dizer.
            Paty olha para mim com orgulho e raiva emanando dela em todas as direções.
            — Na hora que você quiser, Branquinha. A gente parte a cara dela na hora que você quiser. 

ELS Cap 25

Capítulo 25 - Verdade

I'd take another chance, take a fall
Take a shot for you
And I need you like a heart needs a beat
But it's nothing new - yeah
I loved you with a fire red
Now it's turning blue, and you say...
I'm sorry like an angel
Heaven let me think was you
But I'm afraid...

It's too late to apologize, it's too late

(Apologize – One Republic)

            Paty passou boa parte da tarde comigo. Almoçamos, passeamos com o cachorro, conversamos mais um pouco... E depois mais um pouco. Sobre todas as coisas insignificantes que nos viessem à mente. Eu tinha me esquecido de como é a cumplicidade descompromissada que se cria com alguém, simplesmente quando se aprecia sua companhia.
            Há poucas pessoas no mundo com quem já me senti assim: minha mãe, Beto, Caio e... Marina. Pensar nela ainda faz uma dor silenciosa ferir meus ouvidos, como um zumbido perturbador numa frequência que a audição humana não pode discernir.
            Não porque eu esteja magoada com ela. Sempre soube que não seria fácil, sempre soube que doeria. Sua mão contra meu rosto não pesa mais do que os anos que esperei por ela. E eu não me importo com minha própria dor. Não o suficiente para fazer de mim mesma vítima de sua atitude ferida. Ela é como uma gata acuada, sempre foi. Fere quando tem medo.
            E é exatamente isso o que dói em mim. Saber o quanto a magoei.
            O meu abandono.
            Principalmente quando tudo o que eu queria era ficar. Especialmente quando o ato de feri-la me abriu como se fosse o outro gume da mesma lâmina. Cega. Cortando desastrosamente o laço entre nós, macerando a confiança dela em mim. Eu fui embora. Eu a deixei. Não importa o meu porquê, não importa que não tenha sido, de fato, uma traição, outra pessoa em quem ela confiou deixando-a para trás. O que importa é que foi assim que ela se sentiu. A lembrança que ficou guardada é mais realidade para ela do que a verdade, a minha verdade, jamais será. Então, tudo o que me resta é esperar.
            Esperar que um dia os olhos dela não estejam tão machucados que ela não possa enxergar nosso caminho de volta uma para a outra.  Esperar que um dia ela consiga me perdoar. E talvez, se não for pedir muito, que não demore o bastante para que minha dor se torne para mim tão importante quanto a dela. 
            Sinto meus olhos arderem um pouco com a ameaça de lágrimas quando penso assim, no quanto pode demorar, no quanto talvez nunca aconteça. Talvez eu me importe... um pouco... ou muito, não sei,  com minha própria dor, no final das contas. Ainda bem que momentos depois que isso me ocorre, me pego pensando quando foi que a palavra “nunca” passou a fazer parte de minhas cogitações com relação a Marina, e fico com vergonha de pensar dessa maneira, de ter tão pouca fé nela.
            Esperar é o mínimo que devo a ela e é isso que vou fazer, simplesmente respeitar seu tempo e continuar vivendo sem deixar que a expectativa se instale em mim e corroa minhas emoções. Não estou fazendo nenhum favor a mim mesma especulando sobre sentimentos que não são meus. Eu sei exatamente o que sinto por ela, e sei que isso não vai mudar. Ela é minha irmãzinha, minha menina, minha filha. E eu a amo. É só disso que eu preciso. Aconteça o que acontecer.
            Decido não pensar mais nessas coisas, porque eu estava bem enquanto minha mente e meu coração estavam ocupados por Paty, Blue e, principalmente, por ele. Eric. Involuntariamente, meus dedos correm de volta ao papel guardado em meu bolso como um segredo e, ao tocar suas palavras, sinto como se estivesse tocando sua pele.
            O simples pensamento me aquece e sinto uma súbita necessidade de mais, de tê-lo por perto de alguma forma, de manter o calor que me embala. Tendo passado a tarde com Paty, eu nem tentei ligar de novo, mas agora, enquanto penso no quanto a voz dele ressuscita partes de mim que eu nem sabia que tinham desaparecido, decido tentar novamente.
            Blue abana o rabo em expectativa quando fareja meu ar de determinação súbita, ele parece sempre curioso em relação ao próximo passo, seguindo todos os meus movimentos na esperança de que acabemos na cozinha comendo, mas quando me sento no sofá com o telefone em uma das mãos, ele simplesmente se senta também e assiste. Com a mão livre, tamborilo de leve com as pontas dos dedos em sua cabeça de pelos arrepiados, brincando com as pontas de seu topete de moleque-cão, enquanto minha determinação começa a falhar um pouco.
            Respiro fundo e aperto o redial, mesmo dizendo a mim mesma que ele deve estar ocupado, que posso agradecer depois, e todas aquelas baboseiras de que tentamos nos convencer quando não temos mais certeza de uma coisa que parecia tão necessária momentos antes. Espero ansiosamente até o quinto toque. Então escuto.
            A voz dele.
            — Oi — um instante inteiro se passa enquanto bebo aquele som. É só uma palavra, mas é dita de um jeito que é como se ele soubesse que estou sedenta. Como se a sede não fosse só minha. — Você pode esperar um pouquinho?
            Estou pronta para responder, para mentir e dizer que posso esperar o tempo necessário, mas isso não acontece, é ele quem não espera pela resposta. Ouço sons de vozes abafadas e uma movimentação, como se ele estivesse tampando o fone com a mão e indo para algum outro lugar. Então o silêncio se corta com uma versão mais fria e distante daquela voz:
            — Baby, podemos conversar amanhã? Estou meio ocupado agora.
            — Ah, claro. Tudo bem — respondo, sem conseguir esconder minha decepção. O que mais eu poderia dizer?
            Um silêncio constrangido se espalha entre nós. Apesar do que ele disse, ainda tenho aquele “oi” e não quero desligar. Aparentemente, ele também não, porque permanecemos na linha.
            — Eu só queria agradecer — aproveito para dizer.
            — Ahn?
            — Por... — Ontem. Por seus lábios. — Pelo seu presente.
            — Certo — ele diz, parecendo se lembrar, como se hoje de manhã tivesse acontecido em outra vida. Mas sua voz voltou à suavidade original, ao seu jeito de carícia doce e sedenta. — Você gostou?
            — Muito. Como você sabia o tamanho?
            Estou ciente de que estou protelando com essa pergunta, mas quero adiar o momento da despedida enquanto puder, mesmo correndo o risco de parecer carente ou inconveniente. Sinto o sorriso em sua voz quando ele responde.
            — Eu conheço seu corpo, baby. Não tão bem quanto gostaria, mas posso perfeitamente adivinhar. Você já esteve em meus braços. Apenas pareceu certo.
            Sim. Pareceu certo.
            Inspire. Expire. Inspire...
            Noto que ele nem perguntou se tinha mesmo acertado. Ele simplesmente sabe.
            Expire...
            — Bem, vou desocupar você. Só queria dizer isso mesmo. Não precisava se incomodar, mas já que o fez, eu adorei o presente.
            — Não foi incômodo. Imaginar você dentro da jaqueta foi um agrado a mim mesmo, na verdade. Além do mais, a sua outra ficou arruinada.
            — Arruinada!? — provoquei com bom humor. — Já inventaram um negócio chamado “lavar roupas”. Acho que posso me beneficiar desse processo e ficar com duas jaquetas, embora a que você me deu seja mais bonita.
            — Engraçadinha! — ele riu. — Até que eu gosto quando você se mete a atrevida. Faz eu ter vontade de sujar todas as suas roupas... Eu poderia me beneficiar muito do processo de estar por perto quando você tivesse que lavá-las.
            — Eric!
            — O quê? Só porque estamos pegando leve não quer dizer que eu não possa provocar você.
            — Você gosta de me deixar constrangida, não é?
            — Gosto de te deixar vermelha.
            — Incorrigível! Esse seu tom! Faz tudo parecer meio... — Paro um momento, em busca de uma palavra que não encontro.
            — Obsceno? — ele sugere, abusando do tom de voz que me provoca e me convida a aceitar a ideia.
            — Acho que sim.
            — Obrigado.
            — Não foi um elogio — digo, mas é claro que estou rindo quando o faço.
            — Ah, foi sim. Um dia você vai saber o quanto.
            Céus!
            É estranho e totalmente atípico de mim, mas eu quero que esta conversa continue por horas. Só para poder ouvir as modulações de sua voz quando fala comigo e seu riso meio sacana que faz borboletas voarem em meu estômago. Entretanto, ainda existe um pingo de bom senso em mim e eu me forço a lembrá-lo de que ele está ocupado com alguma outra coisa.
            — Não é que eu queira desligar, mas você não disse que estava ocupado?
            — Feck![1] Eu tinha até esquecido disso. Você me faz esquecer as coisas que devo fazer, minha Luz.
            Minha. Luz. Minha.
            Minha.
            Insp...
            “Nem ouse me mandar respirar. Eu quero mais é perder o fôlego!”
            Por sua conta e risco, então.
            — Mas, bem, eu preciso mesmo ir. Nos vemos amanhã?
            — Amanhã — respondo, mas minha vontade é dirigir pela cidade até onde ele está. Seja lá onde for. Felizmente, não sou uma maluca. Ainda. — Até lá, então.
            — Até. — Mas mais uma vez ele não desliga. — Clara, eu...
            Fico esperando, mas ele não completa a frase.
            — Sim, Eric? — incentivo.
            — Nada. Fico feliz que você tenha ligado — ele confessa, parecendo indefeso como se tivesse dado um passo para fora de sua fortaleza.
            É engraçado, mas o rasgo de sinceridade desse momento faz meu coração tentar escalar minhas costelas em direção à minha garganta, onde ele começa a bater desenfreadamente. Mesmo assim, consigo empurrar estas duas palavras para fora.
            — Eu também.
            Fazemos silêncio por um instante bem curto.
            — Bom. Fico feliz por isso também. Até amanhã, minha Luz.
            Então ele desliga, mas eu ainda fico segurando o telefone contra meu ouvido. Ainda fico me prendendo às suas palavras, suspensa no ar entre elas e o corte súbito de nosso contato que, entretanto, parece continuar vivo e presente para mim.
            O telefone fica mudo.
            Mas o meu silêncio não.

******

            Estou no clima de me presentear com um jantar bem feito, então, no finzinho da tarde, decido ir até o empório na esquina de casa e comprar os ingredientes necessários para uma receita chique que vi num programa de televisão. Há uma música gostosa tocando em minha cabeça e estou fazendo planos de passar uma noite agradável em minha própria companhia. Nada muito diferente das minhas noites de folga normais, exceto que está tudo diferente. De um jeito bom.
            A música se interrompe no meio do verso mais bonito, porque tudo em minha cabeça para quando meu corpo estaca no meio do movimento de abaixar um pouco o saco de compras a que estou agarrada, a fim de ver melhor os degraus da entrada do prédio. Meus olhos captam a imagem rapidamente, quase um relance, mas é o suficiente.
            Sentada no degrau mais alto, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça enterrada nas mãos; o cabelo castanho, ondulado e brilhante caindo em uma cascata desorganizada por seus antebraços; está Marina.
            Fico parada na calçada sem saber o que fazer, perdida na visão dela usando jeans, tênis e camisa xadrez, exatamente como naquela época. Por um segundo, é como se eu tivesse voltado no tempo, para todas as vezes em que a tinha visto vulnerável: a morte da mãe, o medo da gravidez, as dificuldades para continuar a estudar... Quando ela levanta os olhos para mim, olhando-me de cima da pequena escada, ainda está ali.
            Toda a fragilidade daquela menina. Ainda está ali.
            Subo os primeiros degraus, apenas o suficiente para nossos olhares se encontrarem na mesma altura, ela sentada e eu de pé diante dela, mas ainda não consigo dizer nada. Estive esperando por ela, mas não pensei que seria tão rápido. Não pensei em como nunca estaria pronta. O que, na realidade, não importa mais, porque ela está aqui, com olhos tristes e ar cansado. Exausto.
            — Não consigo mais dormir — ela me diz, como se soubesse que estou preocupada com as olheiras sob seus olhos. — Caio me disse onde você morava.
            — Venha — respondo, porque se ela está aqui deve estar querendo conversar.
            Ela se levanta e me segue em silêncio. Tenho a sensação de que ela me observa enquanto não estou olhando, mas quando estamos sozinhas no elevador, ela não olha para mim. Em vez disso, começa a examinar o celular depois que se cansa de simplesmente olhar para os próprios pés.
            Enquanto isso, sou eu que a observo. De pé, fingindo que não está sentindo as coisas que está sentindo, ela parece bem menos frágil do que quando a vi na escada, instantes antes, e todo seu jeito de mulher feita começa a achar seu lugar de volta em seus movimentos elegantes e em sua postura segura. Mas ainda tem o jeito como ela está vestida, uma versão mais elegante e bem cortada das roupas daquela época.
            Eu me lembro.
            Fico me perguntando se alguma vez ela já se deu conta disso. Conscientemente, quero dizer. Mas depois de todos esses anos, ela ainda me deixa ver o que sente pelas pequenas coisas. Essas roupas, o olhar arredio, a expressão de “não se aproxime” estampada no rosto falsamente confiante, toda essa postura de “sou eu contra o mundo”, é o jeito como ela me pede socorro. É seu jeito inarticulado e involuntário de dizer que embora queira parecer forte e dona de si, isso está longe de retratar o que ela sente.
            Assim que abro a porta, Blue “voa” para mim com todo seu entusiasmo de cachorro feliz. Ele a vê logo atrás e primeiro dá um latido de estranhamento, depois vai cumprimentá-la com o rabo abanando e a cabeça baixa: “Desculpe pelo latido, moça. Eu não sabia que você era nossa amiga”.
            Marina se abaixa para afagá-lo em retribuição ao cumprimento. Ela não diz nada, mas sei que está se perguntando por que ele está tão magro e machucado. Respeito pela vida sempre foi algo que compartilhamos e ela sabe que eu não deixaria um animal chegar àquele estado. Sempre discutíamos sobre isso quando morávamos juntas, sobre como agiríamos com amor e responsabilidade quando tivéssemos um bichinho em nossa casa. Acabou nunca acontecendo.
            — Eu o adotei ontem — explico. — Ele estava perdido na rua.
            — Você sempre recolhendo os abandonados — ela responde, numa clara referência a como nos conhecemos. Há mágoa e animosidade em suas palavras e perceber isso dói um pouco. Nada comparado ao que eu sinto quando ela continua: — Certifique-se de não abandonar este aqui também. Ele parece precisar de você.
            — Marina...
            Quero dizer que aquilo não é justo, que ela era minha família e deixá-la para trás doeu tanto quanto perder minha mãe, mas que eu não a abandonei, havia uma razão, quero dizer que... Há tantas coisas a serem ditas, que tudo fica entalado em minha garganta, as palavras emboladas no nó que se forma ali, no medo de feri-la ainda mais misturado à certeza de que não posso deixar que ela passe a vida me acusando.
            Quero que ela se sinta realmente melhor, que ao menos comece a entender o que teremos que passar juntas, não que despeje sua raiva aos meus pés e saia daqui sentindo-se pior do que chegou. Precisamos conversar honestamente em vez de termos uma reprise da noite de sábado. Respiro fundo e me preparo para dizer isso, mas ela é mais rápida que eu em perceber nosso caminho errado e me silencia com a mão estendida num gesto de rendição.
            — Desculpe. Não foi para isso que vim aqui. É que olhar pra você... simplesmente não é lógico, e isso me tira do sério. Eu não consigo entender...
            — Eu sei que é assim que você se sente, e sei que precisa descontar sua raiva. Você tem esse direito. Mas nada vai se resolver enquanto você estiver ocupada em me atacar e eu em me defender.
            — Sim, eu sei. Foi o que Fernando me disse.
            Ainda estamos paradas na porta. A única coisa que fiz foi pôr o saco de compras no chão e Blue está mexendo nele. Decido levar as compras para a cozinha sem me deter com formalidades. Simplesmente não consigo me imaginar dizendo a ela: “Sente-se, por favor. Quer um café?”
            De preferência bem quente para ela jogar na sua cara! O pensamento irônico escapa pelas frestas, porque esse sempre foi meu jeito de suavizar a tensão que cresce dentro de mim.
            “Comporte-se.” Repreendo a mim mesma, mas sorrio um pouco, porque funcionou. Estou um pouco mais calma por agora, só um pouco.
            Quando volto, ela já fechou a porta atrás de si e se sentou na poltrona. Parece que, de algum modo, estamos na mesma sintonia quanto a essas pequenas coisas. É como se nossa intimidade nunca tivesse se desfeito. Sento-me no sofá à frente dela e espero por sua reação, mas ela não vem. Então decido iniciar a conversa da forma mais inocente que encontro.
            — Fernando é seu marido, não? Caio tem me contado coisas sobre vocês, sobre a sua família. Ele ama o pai.
            — Eu também amo. — Por um segundo, os olhos tristes e confusos dela brilham com a segurança de uma verdade simples e incontestável.
            — Fico feliz por isso — confesso.
            Ela sorri.
            É tão pouco, apenas um curvar ligeiro de lábios, tão rápido que se minha atenção não estivesse inteira voltada para ela eu perderia. Mas não perdi. E é aí que percebo que tudo vai ficar bem, porque o coração dela não está cheio de dor, ressentimento, mágoa... Está cheio de amor e boas lembranças. De mim também, tenho certeza.
            A filha dela tem o meu nome, afinal. Isso não me passou despercebido. Minha passagem pela vida dela deve ter significado mais do que minha partida. Quero falar sobre isso, perguntar por que minha ausência a feriu tanto se as lembranças boas foram claramente mais importantes, mas não quero forçar minha sorte. A verdade é que eu sei a resposta. É claro que sei. Ela me ama. Mesmo depois de muito tempo de meu suposto abandono, ela ainda deu à sua filha com Fernando o meu nome. Só não é o tipo de coisa que devo forçá-la a admitir quando ela está com raiva. Ou é?
            — O que aconteceu... depois que eu fui embora?
            Você sofreu? Passou por dificuldades? Me odiou? Algum dia, você me perdoou? Mesmo que por um tempo, antes de me odiar de novo?
            — Depois que você nos abandonou, você quer dizer?
            Depois do comentário dela sobre Blue, eu tinha prometido a mim mesma que de jeito nenhum usaria essa palavra nesta conversa, não quero trazer a ideia ou admitir algo que não é verdade, que nunca foi minha intenção. Mas ela continua a trazer isso à tona. Normalmente, eu diria que essa deveria ser a primeira coisa a ser tirada do caminho, mas é também a razão de toda sua mágoa. Não vai simplesmente desaparecer do jogo.
            Ela não fala nada. Eu não falo nada. Por um tempo. Mas então, as palavras que saem da minha boca, destinadas a pôr um fim ao empecilho que não a deixa ouvir, acabam soando surpreendentemente cruéis, ainda que verdadeiras.
            — Eu não sou sua mãe, Marina. Ela abandonou você, mesmo estando fisicamente presente enquanto você crescia. Eu só fui embora. Apenas porque não pude mais ficar.
            — O que você quer dizer com isso? Que não tinha nenhuma responsabilidade sobre mim? Que minha confiança e meu amor foram um fardo que você não precisava ter carregado?
            Posso ver o esforço que ela está fazendo para não gritar comigo, para manter-se racional quando tudo o que quer é jogar a raiva aos nossos pés como cobras peçonhentas, rastejando de dentro dela para toda parte. Em lugar disso, entretanto, ela respira fundo, os lábios contraídos e as narinas infladas dando lugar a uma expressão mais serena.
            — Eu sei disso, mas... Nunca ninguém tinha cuidado de mim. Nunca ninguém se importou de verdade. E eu pensei que... Pensei que com você era diferente. — A voz dela é pouco mais que um sussurro embargado agora, e ela não olha para mim quando diz baixinho: — Eu te amava.
            No instante seguinte, estou ajoelhada aos pés dela, procurando seus olhos e tentando segurar suas mãos. Ela permite que eu faça isso, e olha para mim esperando. O ruído em meus ouvidos está tão alto que mal consigo ouvir minha própria voz. Não faz diferença, de qualquer jeito. É a verdade que escorreria de mim ainda que subitamente o mundo estivesse desprovido de qualquer linguagem. É a realidade que me constitui.
            — Eu amo você, Marina. Não sou sua mãe, mas queria ter sido. Por favor, por favor, me perdoe.
            A matéria de que somos feitas parece ceder ao nosso redor e perder importância. De repente, tudo o que resta são emoções que confluem. Tudo é uma sequência de imagens que capto apenas com a imprecisão vaga com que se toma consciência de movimentos que precisamos fazer, como pôr um pé na frente do outro ao andar.
            Olhos que se enchem de lágrimas. Os dela. Os meus. Sentimentos que escorrem e desabam pela pele. Pele que se toca num abraço encolhido. Desesperado. Dois corpos que são apenas um apelo cansado no chão de um apartamento pequeno. Eu, minha filha, um cachorrinho que olha sem entender. Um universo inteiro entre nós.
            — Eu ainda não entendo — ela diz.
            Estamos perto, mas a distância entre nós persiste. Persistirá enquanto ela estiver confusa como agora. Sentimentos tão embaralhados que mal consigo vê-los através dos meus próprios. Todas as cores estão ao nosso redor.
            — Eu quero explicar.
            Ela se afasta de mim e meus braços se sentem vazios, como se eu tivesse carregado alguma coisa por muito tempo, por muitos quilômetros, e então não carregasse mais. É um alívio. E é também um vazio que dói. A distância entre nós volta a ficar um pouco maior.
            — Eu não sei se consigo. Não tenho certeza se quero entender. Odiar você é mais fácil.
            Talvez ela tenha razão. Não sei. Amar pode ser doloroso às vezes. Como agora.
            — Não sei como responder a isso, Marina. Eu só quero que você fique bem, mas você não me parece assim. Você parecia aquela menina assustada de vinte anos atrás quando te encontrei lá fora.
            — Você não me deu tempo de agradecer. Eu sempre achei que teria tempo, que poderia fazer isso todos os dias. Qualquer dia. Mas nunca fiz. E aí você foi embora.
            Desde que nos reencontramos no sábado, nossa conversa tem sido assim, desconexa. Cheia de respostas a perguntas que não foram feitas, mas que flutuam pelo ar, cada uma delas carregada pela nossa dor até o outro lado do rio, aquele onde estamos paradas, cada uma em uma margem. Como se, de alguma forma, a Marina de antes, daquele dia quando ela acordou sozinha na casa que eu tinha tornado dela, estivesse falando com a Clara de hoje. A Clara que, para ela, continua a mesma.
            É de se admirar que ela ainda não tenha fugido de toda essa loucura.
            Estamos sentadas no chão, de frente uma para a outra, Marina com as costas apoiadas no assento da poltrona onde estivera sentada e eu com Blue tentando subir em meu colo, em minhas pernas cruzadas como as de alguém que medita. Coloco-o no chão e me levanto estendendo a ela minha mão. Levo-a até a mesa da cozinha, onde ela se senta enquanto preparo o chá de que ela aprendeu a gostar naquela época. A bebida de minha mãe para conversas sérias.
            — Estar com você e com Caio foi a época mais feliz de minha vida. Você não precisa agradecer.
            — É estranho olhar pra você. Parece a mesma pessoa e eu me sinto como naquele primeiro dia, tentando entender o que estou fazendo aqui, o que você pretende. É desconcertante. Eu sempre pensei em você como minha irmã mais velha, e agora eu pareço mais velha que você.
            — Também não é fácil para mim. Mas você se acostuma... — Percebo que estou falando como se ela já tivesse aceitado tudo isso. Como se estivesse definitivamente de volta em minha vida. É isso que eu quero, mas jamais seria capaz de impor minha presença a ela. Então retifico: — Se quiser.
            Eu fico meio que esperando que ela diga que sim, que quer se acostumar, mas ela não diz nada. Repreendo-me mentalmente, forçando meu coração a aceitar que já é bom o suficiente que ela esteja aqui, que esteja me escutando em vez de simplesmente ir embora, mas ultimamente tem sido difícil impedir a mim mesma de querer mais da vida. Tudo está acontecendo ao mesmo tempo e eu sinto como se não tivesse mais nenhuma barreira entre eu e o mundo, entre eu e o amor que posso ter. Exceto que as barreiras continuam existindo. Ao menos aquelas que não dependem de mim.
            — Se você era nosso anjo da guarda, por que... por que precisou ir embora?
            A pergunta súbita não me impede de perceber que ela escolheu as palavras dessa vez. Não usou a palavra terrível que vem pesando entre nós. Abandono. Aos poucos, sinto que estamos pisando nos lugares certos.
            — Eu não sou um anjo da guarda, Marina. — Ela olha para mim, confusa, mas não pergunta nada. Apenas espera que eu continue. E é isso que faço. — Sou o estranho que, depois de você perder o ônibus, se oferece para pagar seu táxi e garantir que você chegue na hora para a entrevista de emprego que definirá sua vida. Ou aquela pessoa que garante que você vá à festa onde vai conhecer o amor. Basicamente, qualquer pessoa que te estende a mão num momento inesperado, parecendo saber de coisas que você não sabe e garantindo que você não as perca.
            — Mas... solidariedade, compaixão, acasos fortuitos... Os seres humanos fazem isso uns pelos outros. Talvez não seja comum, mas felizmente não é impossível encontrar estranhos gentis por aí.
            — Felizmente, não. Mas às vezes, por questão de segundos, talvez por causa se uma atitude impensada, fruto apenas do acaso e não reflexo do exercício do livre arbítrio, uma janela de oportunidades se fecha e a história muda para pior. Deus não interfere nas decisões que são produto do livre arbítrio, e a trama dos acontecimentos que ligam os seres humanos é respeitada e admirada, mas às vezes essa trama se rasga. Pequenas rupturas que parecem insignificantes a princípio, mas que desencadearão uma onda se mudanças avassaladoras com resultados críticos. É a teoria do efeito borboleta. Em tese, mudanças não são boas ou ruins, são apenas o desenrolar das coisas, e bom ou ruim é apenas uma questão de ponto de vista. Mas, na prática, sabemos que os resultados delas podem prejudicar a raça humana muito mais do que beneficiar. Algumas dessas mudanças podem ser paradas a tempo, sem prejudicar o direito ao livre arbítrio. É para isso que existimos.
            — Existimos? No plural?
            — Sim, há alguns de nós por aí, mas eu não sei ao certo quantos.
            — Como é que você não sabe? Se conhece tudo isso, se entende as consequências do efeito borboleta sobre a trama dos destinos humanos, como não sabe quantos de vocês andam por aí?
            — Porque eu não sei de tudo isso, na verdade. O quadro geral pertence ao Todo Poderoso. Só Ele é onisciente e onipresente no tempo, só Ele sabe o que pode ou não ser mudado. Nós somos apenas operários, executamos as pequenas missões que se tornam grandes para Ele.
            — Como vocês sabem o que precisam fazer? — ela continua. — Deus fala com vocês?
            — Não como você está pensando, mas sim. De certa forma. Nós sentimos, simplesmente sabemos o que temos que fazer.
            Marina ouve tudo com uma expressão cuidadosamente neutra, provavelmente desenvolvida em seu trabalho como psicóloga. O tom impassível de sua voz quando ela faz suas perguntas não revela nenhum julgamento. Ela apenas me escuta de forma distanciada, como se eu estivesse contando a ela a história de um filme no qual ela não está particularmente interessada.
            Não me importo com isso, porém. Provavelmente é melhor assim. A alternativa à expressão neutra em seu rosto certamente seria um olhar que me faria sentir como alguma coisa saída diretamente de um episódio de Arquivo X.[2]
            — Vocês simplesmente sabem. Entendi. — Ela fica em silêncio novamente, por um minuto ou dois, acho, pensando. — Bom, não. Na verdade, eu não entendi. Isso não faz o menor sentido.
            — É algo como o que vocês chamam de intuição, aquela sensação que optam muitas vezes por ignorar. Nós não a ignoramos, não duvidamos. Nós ouvimos.
            — Mas como vocês sabem que essa... intuição está correta? O motivo para ignorarmos esse tipo de sensação é que muitas vezes ela está errada.
            — Não há nada de errado com ela, e sim com a maneira como vocês a interpretam. Vocês tendem a distorcer tudo a seu favor, e sempre ficam na defensiva em relação a qualquer coisa que não lhes pareça passível de uma explicação nos seus moldes. — Como olhar para uma pessoa cuja aparência é exatamente a mesma de 20 anos atrás, e ainda assim duvidar quando ela dá um explicação que foge do que você imaginou possível. — Mas nós não temos motivos para duvidar, sabemos o que somos.
            — Anjos? — ela pergunta com um tom ofensivamente incrédulo e ligeiramente debochado.
            — Na verdade, esse não é um nome muito preciso, porque nascemos humanos e também podemos morrer, Então somos mais como... hum... Enviados Especiais seria uma boa definição. Mas estamos habituados a ser chamados de Anjos, nossas famílias costumam gostar mais dessa palavra por alguma razão. Acho que nos faz parecer mais singulares ou algo assim.
            — Vocês nascem humanos!? Então como... quando... como tudo começa?
            Ela está nitidamente desconfortável, remexendo-se na cadeira e engolindo em seco quando faz essa pergunta. Durante nossa conversa cheguei a pensar que a confusão de emoções daquele dia a tivesse impedido de processar o que eu disse sobre Caio. Aparentemente, eu estava errada e ela estava cultivando algum tipo de esperança de que eu tivesse mentido em relação a ele.
            — Eu sempre soube, embora tenha precisado de um amigo, um mentor, para me ajudar a entender melhor. Mas outros demoram a entender. O mentor tem que agir com paciência nesses casos, porque é mais difícil para um adulto com ideias formadas aceitar que é diferente, mesmo que ele sempre tenha se sentido assim.
            Fico esperando pela reação dela. O silêncio se prolonga.
            — O que vai acontecer com ele? — ela pergunta baixinho.
            Várias emoções passaram por seu rosto enquanto esteve em silêncio, analisando os fatos, mas a que finalmente se fixa me faz ficar com pena. Sua expressão se torna algo entre confusa e torturadamente preocupada, como se eu tivesse dito que, a partir de amanhã, Caio vai começar a andar por aí com duas cabeças e três braços de cada lado.
            De onde estou, do lado oposto da mesa, afasto nossas xícaras delicadamente e me inclino em direção a ela, segurando suas mãos. Tento falar num tom claro, calmo e conciliatório.
            — Vai depender dele. Quando estiver pronto, ele saberá a verdade sobre nós. Eu me encarregarei de contar a ele, mas você pode estar junto se quiser. Então ele vai poder decidir entre ser como eu, e nesse caso eu o ajudarei a se estabelecer, ou continuar sendo humano.
            — Ele pode dizer não? — ela pergunta, genuinamente surpresa.
            — É claro que pode. Todos têm livre arbítrio, esqueceu? E mesmo que ele aceite, pode desistir e voltar a ser como antes a qualquer hora.
            — Você quis dizer não quando ainda era humana? Você já quis desistir algum dia?
            Há tantas expectativas contraditórias nessa pergunta. Sei que ela quer que eu diga que Caio não precisará passar por nada disso, porque por enquanto para ela está parecendo algo bem mais ruim do que bom, mas a verdade é que eu não posso falar por ele. Tento explicar da melhor maneira possível como eu me senti, mas cada história é única e a de Caio ainda pertence ao futuro.
            — Para mim foi diferente. Eu já tinha aceitado o que era antes de entender as implicações disso, já sabia desde sempre, embora não soubesse explicar até que Alberto, meu mentor, apareceu em minha vida. Eu tinha 16 anos, tinha acabado de perder meu pai, minha mãe e eu estávamos nos sentindo sozinhas e sem propósito, porque naquela época não havia muitos papeis sociais que uma mulher pudesse cumprir. Quando entendemos o que eu era foi maravilhoso! Foi como encontrar um caminho iluminado por milhares de estrelas. Eu nunca vi isso tudo como algo ruim. Não é o caminho de estrelas, eu vim a descobrir, há sofrimentos como em qualquer escolha, mas é o meu caminho e eu sou feliz andando por ele. Mesmo assim, eu quis desistir uma única vez, por sua causa. Para ficar com você e com Caio. Mas eu não consegui. Quando se tem algo como a capacidade de cumprir a vontade de Deus com uma clareza que independe de seus esforços, é difícil de se abrir mão. Eu simplesmente não estava pronta.
            — Mas você poderia ter continuado sendo o que era e ficado ao nosso lado mesmo assim.
            — Cedo ou tarde vocês notariam que eu não envelheço. Eu teria que contar a verdade e isso influenciaria as decisões futuras de Caio.
            — Por que você não envelhece? Você é imortal?
            — É mais fácil cumprir nossa missão se nossos corpos estiverem sadios e fortes. Podemos servir melhor e por mais tempo, por quanto tempo desejarmos. Embora eu não tenha certeza, porque, bom, não é como se houvesse um Registro Geral de Anjos – brinco, e ela ri um pouquinho, o que me deixa feliz —, acho que não há muitos de nós por aí. Então eu suponho que exista uma relação entre isso e o fato de que quando um de nós aceita sua missão, acaba desejando ficar por mais tempo do que um corpo humano permitiria. Mas, não, não somos imortais. Somos imunes a doenças fatais, mas não a acidentes ou violência. Felizmente, nossa “intuição” nos protege dessas coisas, mas não somos invulneráveis a elas.
            — Se nada disso acontecer, entretanto, vocês nunca morrem?
            — Todos nós acabamos pedindo por uma vida normal depois de um tempo. Então morremos como todo mundo.
            — Por quê? — ela pergunta — Se vocês podem, virtualmente, viver para sempre? Quem não ia querer isso?
            Marina parece eufórica agora. Minha mãe também ficou assim quando percebeu que nunca precisaria se preocupar em ver a filha numa cama de hospital ou sob uma lápide. Acho que, de uma forma um pouco distorcida, esse é o sonho de toda mãe.
            — É doloroso ver todos que você ama partindo. Sem a esperança de que vai encontrá-los logo, mesmo que “logo” pareça meio longe, a dor seria paralisante e insuperável.
            Sinto-me culpada quando percebo que derrubei um imenso balde de água fria em seu entusiasmo, justo quando ela parecia estar vendo o lado bom da coisa. Mas a verdade é a verdade. E para mim se tornou quase fisicamente impossível mentir para Marina depois de começar a contá-la. Acho que as palavras nem sequer se formariam em minha boca se eu tentasse.
            — Eu não tinha pensado nisso — ela diz, desanimada. — Ele não vai poder ter filhos, uma esposa, envelhecer com ela... Não enquanto for um anjo, não é?
            — Não há regras quanto a isso. Mas quando aceitamos nossa missão, passamos a ver o amor de uma forma mais ampla do que o amor romântico exige. A preocupação com uma família não o impede de ser abnegado e fazer o bem ao próximo, mas as prioridades se transformam. Então, quem se apaixona geralmente opta por se tornar humano novamente.
            — Isso é tudo muito confuso! — ela choraminga, enterrando a cabeça nas mãos. — Eu não consigo me imaginar explicando essas coisas a Fernando e... Ah, Deus! Como vamos contar ao Caio?
            — Para ele vai ser mais fácil. Porque, de certa forma, ele já sabe que tem algo diferente. Todos sabemos.
            — Mas por que ele não entende como você?
            — Algumas pessoas são mais apegadas à própria humanidade do que outras.
            — E eu queria poder me apegar à minha para não sair por aí chutando tudo o que encontro pelo caminho, como quero fazer. — Ela se levanta de repente, com gestos inquietos e o rosto contorcido numa expressão que é resultado dos sentimentos mais caóticos que já devem ter passado por seu coração. — Acho que por hoje já chega. Eu preciso ir para casa.
            Não digo nada enquanto a acompanho pela sala e a vejo pegar a bolsa atirada no sofá e abrir a porta sem esperar pela minha cortesia. Mas ela para sob o batente, de costas para mim, os ombros curvados em uma postura de exaustão derrotada. Não quero perguntar, mas não consigo deixá-la partir sem saber. Eu pedi perdão, na carta que deixei há muitos anos; em minha mente, em cada dia que vivi; e hoje. Mas ela nunca me respondeu.
            — E nós, como ficamos? — indago finalmente.
            Ela se vira novamente e me encara, seu olhar de dor perpassa meu corpo como uma flecha, mas eu não posso mais cair. Tenho que esperar pela resposta com a dignidade que ela merece.
            — Eu inventei desculpas pra você — ela diz, mas, de novo, não olha para mim quando o faz. Dói que seja tão difícil me olhar nos olhos, mas esse sempre foi o jeito dela, então tento não me importar. — Um ex-marido abusivo do qual você estava fugindo — ela continua. — Algum tipo de Programa de Proteção a Testemunhas. Até mesmo um trabalho secreto para o Governo. — Um riso sem humor escapa de seus lábios, mas eu continuo controlada, ouvindo, porque este é um momento mais sério do que a morte para mim. — Eu parecia uma criança tentando acreditar nessas coisas, porque precisava crer nas suas palavras, de que me amava, de que ia voltar. Eu nunca imaginei algo assim, no entanto. Você não me abandonou, mas, no fim, não faz tanta diferença, porque eu sofri como se você tivesse feito isso. E é tarde para perdão, porque eu nem sequer posso culpá-la, não posso odiá-la pelo sofrimento que me causou. Mas saber a verdade muda tudo. Permite começar de novo. Eu só preciso de tempo.
            — Tudo bem — digo. — Eu amo você.
            Ela sorri ao me olhar uma última vez antes de ir embora. Ainda está ali quando ela acena e parte sem olhar para trás. De ombros retos e cabeça erguida.



[1] Forma mais polida de dizer “fuck” no inglês da Irlanda.

[2] The X-Files (Arquivo X no Brasil) foi uma série de televisão norte-americana de ficção científica exibida ao longo dos anos 1990 e criada por Chris Carter. Os enredos sempre envolviam situações e criaturas fora do comum, para não dizer bizarras.

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Entre a Luz e as Sombras

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