sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

CD2 - Cap 23

Capítulo 23 – Confiança

I believe, I believe
With every breath that I breathe
You and me can turn a whisper to a scream
I believe, I believe

You know what you came here for
You'll pay the cost,
like it's your cross to bear
Are we the ones that put it there
Would you scheme for it
scream for it, bleed for it
Would you

I believe, I believe
Believe we're still worth
The fight you'll see
There's no hope for this world tonight
I believe, I believe
(I Believe – Bon Jovi)
Logan

— Esta arma é estranha! — Jamie reclamou depois de errar o alvo, movendo o pulso para cima e para baixo para tentar aplacar o mau jeito. — É muito leve... Sei lá. Eu me descuidei achando que o coice não ia ser tão grande. Acho que não vai dar certo esse negócio de “arma de treinamento”. A gente tinha logo que usar as normais.
— Não tem nada de errado com a arma, Jamie. A questão é a empunhadura. Veja como Lily faz. — Apontei para minha outra aluna entusiasmada e o garoto disfarçou um muxoxo de frustração. Suspirei, conjurando paciência. Eu já tinha explicado a mesma coisa aos dois, minutos antes, mas Jamie estava animado demais com a arma para me dar atenção. — Você tem que encaixar a mão esquerda exatamente nos espaços vazios, com os polegares das duas alinhados para frente. Se aumentar a área de contato tem um controle melhor da arma e o recuo é menor quando você der o tiro. Assim você não perde a mira e tem maior velocidade de tiro.
— Ah — resmungou, estudando a empunhadura dupla perfeita de Lily e tentando reproduzir. — Você podia ter me dito esse negócio de polegares antes.
Soltei um som mal disfarçado de insatisfação. Jamie podia ser bem difícil às vezes. Lily sorriu discretamente e Jeb, bem menos preocupado com discrição, mas ainda sem querer rir da nossa cara abertamente, fingiu uma tosse. Depois, logo que se recompôs, veio em meu auxílio.
— Preste atenção, menino. —  Logan já tinha explicado. É preciso respeitar as armas e levar a sério, porque é um poder e tanto o que você tem aqui — frisou, batendo no cano da arma que Jamie segurava. — Então é preciso saber o que se está fazendo para não fazer besteira, porque não tem impacto que você possa causar que não volte para você. De um jeito simples: você dá um tiro e leva um coice em troca, é o mínimo. Mas é preciso estar preparado. Um rifle como o meu, por exemplo, dá um tremendo coice de mula.
— Tá, tudo bem. Eu entendi. Vou prestar mais atenção — Jamie se deu por vencido. — Mas ainda não sei por que a gente está treinando com esta arma diferente em vez de usar as Glocks que temos.
— Porque munição é muito difícil de conseguir nos dias de hoje. Os Buscadores não as usam mais, preferem as cápsulas de Paralisium.
— Aquele anestésico que paralisa a vítima, não é? — perguntou Lily, lembrando-se da explicação que dei sobre quando Peg foi capturada, anos atrás. — Se a filha da mãe da Lacey tivesse usado dessas quando atirou em Wes...
Eu não tinha a menor vontade de defender Lacey. Mal tinha paciência com seu jeito rude e desconfiava que a Buscadora tinha tido pouca influência nas decisões equivocadas que tomaram quando dividiam o corpo, mas Lily era minha amiga. Eu não podia deixá-la levar adiante esse raciocínio que apenas a magoaria.
— Paralisium não existia quando Lacey veio atrás de Peg, Lily. Tinham acabado de criar quando aconteceu aquilo tudo que me trouxe para cá com Estrela e sou muito grato por isso, porque talvez meu próprio destino tivesse sido muito diferente se eu não dispusesse desse recurso. Buscadores devem manter a comunidade segura e vocês nos assustam tanto quanto nós a vocês. Não estou justificando o que aconteceu, mas já estive no lugar dela e...
— Não, Logan. Você não teria atirado pra matar. Pode dizer o que quiser sobre como você era antes, mas eu não acredito nisso — ela me calou e percebi que não havia nada além de absoluta sinceridade e confiança ali.
Fiquei sem saber como reagir. Ouvir uma coisa assim me deixava sem palavras, mas graças a essas pessoas, à paciência e ao amor que me dedicaram, eu conseguia acreditar também. Por causa delas, eu podia enxergar que o homem que elas viam agora sempre existiu dentro de mim. Lily não imaginava o valor disso. Coloquei a mão em seu ombro e ela sorriu de lado.
— Não quero ficar pensando no que podia ter sido, de qualquer forma — disse, deixando claro que preferia mudar de assunto. — Então vamos lá. Qual a diferença entre as armas a que estamos acostumados e estas?
— Pouca coisa — respondi. — Internamente, elas são melhor adaptadas ao novo tipo de munição, mas por fora é praticamente a mesma coisa. Jamie tem razão sobre serem um pouco mais leves, mas essa é a única diferença. Não chega a prejudicar o treino de vocês. É só que não podemos desperdiçar nossa munição com aulas e eu só consegui roubar armas de treinamento no escritório dos Buscadores em Phoenix, quando Jared e eu fomos até lá de madrugada.
— E por que se chamam armas de treinamento? — Jeb questionou. — Nunca ouvi falar de algo assim.
— Bem, na verdade a munição é que é de treinamento. São cápsulas sem Paralisium para os Buscadores aprimorarem a mira apenas. É parecido com festim. A arma é a mesma que eles usam.
Lily trocou um olhar com Jamie, como se estivessem continuando em silêncio uma conversa anterior, então foi ela quem tomou a palavra outra vez.
— Ok, certo. Hmm... Pode ser uma pergunta meio delicada, mas o que exatamente você está nos treinando para fazer? Porque eu estranhei quando você nos recrutou para a “equipe de segurança”, quando Jared e Kyle seriam as escolhas mais óbvias. Ou até mesmo Brandt e um dos caras acostumados a se arriscar em incursões. Mas agora está parecendo que você está nos treinando para usar essas armas não letais dos Buscadores só pra ganhar tempo em uma fuga, caso algo dê errado. Mas e se as coisas derem realmente errado, Logan? E se fugir não for suficiente e nós precisarmos atirar para salvar você, Doc ou Sharon? Não quero matar ou ferir ninguém, mas entre a vida de vocês e a deles...
Esfreguei meus olhos com as pontas dos dedos, frustrado pela impaciência deles. Quando Doc e Sharon se ofereceram para entabular um diálogo com as Almas que eu julgasse receptivas, para tentar mostrar que os humanos sobreviventes estavam dispostos a parar de lutar e viver em paz, eu soube que precisava garantir a segurança deles a qualquer custo. Por isso escolhi Jamie e Lily, que pareciam tão aptos a aprender e abertos à causa. Mas eu não sabia bem como dizer a eles que estavam aqui porque eu confiava em sua hesitação, mais do que em qualquer habilidade.
É claro que eu tinha um plano, mas não estava pronto para abrir todos os detalhes, justamente porque não queria ter que responder essa pergunta específica ainda, já que a resposta talvez não fosse bem recebida. Contudo, havia dois pares de olhos inquisidores demandando satisfação. E havia Jeb, me olhando como se dissesse que me avisou sobre parar com os segredos. Por tudo que tinha acontecido, esta era a coisa a que ele mais me incentiva ultimamente: ser franco. Então tive que ceder.
— Não estou tentando treinar assassinos, Lily. Escolhi vocês justamente por serem inexperientes. Jared sabe atirar muito bem e não hesitaria em fazer o que fosse preciso para proteger a todos. Kyle é... Bem, vamos dizer que um pouco instável e também faria de tudo o que achasse preciso. Os outros caras também. Não estou dizendo que não seja uma qualidade mais do que necessária aqui, mas eles estão no limite, podem estourar fácil. Estamos falando de pessoas que estão correndo perigo para proteger os outros há muito tempo e esse tipo de coisa cobra seu preço. Vocês, por outro lado, nunca precisaram apontar uma arma para ninguém. Ainda mantêm o luxo de serem piedosos e ponderados. Certamente pensariam duas vezes antes de puxar um gatilho e destruir, por um impulso mal calculado, tudo pelo que estivemos lutando.
— Então, colocando gentilmente, você nos escolheu porque acha que não vamos ter coragem de atirar?
— Ah, que legal — Jamie ironizou, ecoando em seu tom a insatisfação de Lily.
— Tudo bem. — Suspirei pesadamente. — Vocês estão perdendo o ponto aqui. O que estou dizendo é que vocês não farão nada impensado, não vão falhar por acidente ou antecipação. Ou medo ou preocupação. Vocês só vão agir se for estritamente necessário, se nossas vidas estiverem em risco de verdade. E farão isso com a segurança de que não estarão portando armas letais, portanto não vão precisar hesitar diante do fardo de tirar a vida de alguém.
Nós quatro ficamos em silêncio por um instante, meus três companheiros me analisando e eu esperando. Então Jamie soltou um assovio prolongado, erguendo uma sobrancelha.
— Uau, cara! Você pensou em tudo isso sozinho?
— É, uau — falou Lily rindo. — Acho que se é assim a gente pode tentar. Mas você sabe que os outros não vão concordar muito com essa estratégia paz e amor, não é? Quer dizer, os rapazes vão querer se armar até os dentes quando Sharon e Doc forem se encontrar com alguma Alma. E já foi difícil o bastante que Melanie deixasse Jamie mexer com armas.
— Acho que ela só deixou porque acha que ela e Jared vão estar lá para ficarem de olho em mim — Jamie teorizou.
— Quando eu terminar com vocês, vão estar com a pontaria tão perfeita que não vou nem precisar argumentar a favor de levar apenas os dois. Mas vou montar uma retaguarda em pontos escondidos também. Todos eles estarão por perto, a uma distância reativa, mas segura.
— Você acha que as Almas que você contatar levarão Buscadores? — Jeb questionou.
— Não, mas não estou disposto a arriscar, e o único jeito de garantir vai ser abordá-los de surpresa. Mas temos que preparar a ocasião muito bem, atraí-los para longe da civilização e, ao mesmo tempo, para bem longe de nossa casa.
— Posso ter alguns lugares em mente — ele respondeu.
— Bem, talvez eu devesse ter aberto os detalhes antes, então. Vocês estão sendo mais compreensivos do que imaginei.
— Que te sirva de lição — Lily se afastou, dando uma piscadela. — Vamos treinar, Jamie. Amanhã ele vai nos ensinar a mira em movimento.
— Show! — exclamou o garoto. E ambos se afastaram, colocando seus protetores de ouvido e concentrando-se na empunhadura dupla que eu tinha acabado de ensinar há pouco.
— Você se saiu bem, filho — Jeb me assegurou com a mão em meu ombro.
Sorri um pouco, um tanto sem graça mesmo que ele conhecesse bem minha fraqueza.
— Não estou acostumado a confiar. E nem que confiem em mim cegamente como eles estão fazendo.
— É, eu sei. Por isso disse que você se saiu bem. — Seu aperto congratulatório se intensificou um pouco e ele me olhou pensativo, depois abaixou a mão e ficou observando meus “recrutas”. — Como o Logan humano conseguia fazer as coisas? Digo, quando se tem a profissão que ele tinha é preciso confiar nos colegas, certo?
— Profissionalmente é diferente. Eles sabiam que eu cuidaria deles e então cuidavam de mim. Era simples desse modo, o porto seguro da vida dele. Mas na vida pessoal, no que diz respeito a emoções, era diferente.
— Como? Como é que se leva uma vida sem laços?
— Não é uma vida feliz, isso eu te digo, mas é sem complicações. E não é tão difícil. É o mesmo tipo de vida que eu levava antes de Estrela. Apenas uma questão de se focar no trabalho e na diversão que você pode ter. Mulheres, esporte, carros... Ele gostava disso e parecia o suficiente.
— Acho que também não é muito diferente da minha própria vida de solteirão convicto.
— Pois é — ri, tencionando fazer alguma brincadeirinha maliciosa, mas vi que ele estava sério. Então ele continuou como se eu não tivesse dito nada.
— ... mas eu tinha meus irmãos e sobrinhos. Amigos. Pobre garoto. Fico feliz que não tenha sido assim para você. — Jeb desviou os olhos de Lily e Jamie e me encarou. — Eu me pergunto se ele teria mudado também, como você mudou. Caso tivesse mais tempo.
Como eu poderia responder a isso? É claro que ultimamente eu pensava muito nele, mas não podia me culpar pelo corpo que me dava a vida, potencializava minhas paixões e gerara minha filha. Não dava para ceder a esse sentimento e pensar em como as coisas poderiam ter sido, como Lily dissera há pouco. Não era saudável para minha própria sanidade.
Eu não podia lamentar o Logan humano, apenas honrar o que restava dele em mim.
— Eu queria que ele tivesse sido feliz, mas tento não pensar muito nisso — confessei. — Honestamente, me sinto menos culpado assim. E gosto de pensar que, de alguma forma, sobrou muito dele em mim e estou sendo feliz por nós dois.
— Claro. É um bom pensamento.
— Você tem feito muitas perguntas desse tipo ultimamente. — Tentei escolher as palavras, mas não consegui, porque a melancolia dele estava começando a me deixar inquieto. — Existe alguma razão para você querer saber essas coisas? Ainda sente alguma coisa por causa da inserção?
— Não, não! — Jeb dispensou minha preocupação com uma expressão de desdém atípica dele. — Só estou pensando naquela nossa conversa sobre você querer conhecer mais sobre o Logan humano. Então estive me perguntando se você se lembrou de mais alguma coisa. Acho que Estrela tem razão sobre as partes mais dolorosas precisarem vir à tona para se curarem. Talvez se você se concentrasse na infância...
Eu queria conseguir. As lembranças sobre a vida do humano, mesmo as mais penosas, me faziam sentir mais perto dele e diferenciar o passado de quem eu tinha me tornado. Mas desde Nova Orleans nada novo me vinha.
— Só as mesmas memórias de sempre, por enquanto. Tenho tentado seguir esses conselhos, mas minha cabeça anda ocupada com muitas outras coisas.
Jeb assentiu, compreensivo.
— Bem, você vai lembrar. E se for algo difícil, Estrela e eu estaremos aqui para você. Tente se concentrar no que você já sabe e partir daí.
— É, eu sei. — Sorri tentando parecer otimista.
Mas, apesar de entender a lógica, eu não sabia se daria certo me esforçar por algo que devia vir espontaneamente. E ficava ainda mais difícil quando eu estava tão ansioso com o aqui, o agora e o que viria depois.




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A DIFÍCIL ARTE DE SE APAIXONAR

A DIFÍCIL ARTE DE SE APAIXONAR


Por Jurema Iracy Paes de Lima

Sabe aquelas coisas que você diz a si mesma quando o boy que você está a fim foge de você?
“Ah, ele é tímido”.
“Será que eu não estou sabendo me expressar? Talvez eu devesse ser mais sedutora”.
“Acho que fui exagerada demais hoje, eu deveria ter sido um pouco mais recatada”.
Quem sabe você até faça uso de todas essas desculpas ao mesmo tempo.
Daí, depois de dar tudo errado, vem aquela fase:
"Meu Deus, eu fiz tudo errado, como sempre. Ninguém me ama, ninguém me quer. Vou acabar sozinha."
Isso se você não virar a bandida, neh?!
Ok!
Que tal a gente inverter um pouco o papel do coitadismo e focar em como você age.
Sabe aquele boy que está a fim de você? Eh, aquele mesmo. Aquele que não sabe conversar, aquele que acha que seduzir é só elogiar sua voz, ou sua beleza, ou sua roupa... Aquele que tem aquelas cantadas de péssimo gosto. Aquele que acha que você é massa de modelar pra ele ir enfiando a mão de qualquer jeito...
Como você age com ele?
Você finge que não entende o flerte barato dele, não é? Pois bem, ele também vai entender que ele não soube se expressar direito.
Ok, então quando ele resolve ser mais claro, e dizer de todos os modos poéticos possíveis que está a fim de você, você sorri timidamente e desvia a conversa, educadamente. Correto? Uau, ele vai interpretar que você é tímida. Parabéns pra você.
Daí ele vai tentar te tocar, te convidar, brincar, mostrar que de tão trabalhador que ele é, ele está cansado e merece uma massagem, um toque... Vai até inventar mil situações onde você mesmo com sua "timidez" pudesse agir.
Ops! Agora é sua vez de sair pela tangente mesmo. Sua vez de ser mais clara. E mesmo que você prefira a educação a dizer um foda-se logo, então você começa a fugir.
Coitado desse cara. Ele fez tudo errado?
Não, não fez.
Viu, se invertermos o papel, ele vai achar tudo o que você acha de si mesma quando o boy não te dá moral. Você o fez pensar que não se expressou direito, depois passou a imagem da tímida, e por fim ele saiu acreditando que fez tudo errado mais uma vez.
Por que estou falando isso hoje? Por que resolvi escrever depois de tanto tempo fora do ar?
Porque eu estou vivendo isso em três patamares diferentes. E essa experiência me fez enxergar as coisas claramente.
Um cara está loucamente apaixonado por mim, mas ele não consegue despertar nenhum sentimento meu. Por quê? Oras, eu estou apaixonada por outro. Simples assim.
O mesmo sentimento que a fuga do meu boy desperta em mim, o cara que está a fim de mim, sente toda vez que eu tento sair pela tangente discretamente.
E ainda tem o terceiro cara. Esse me deseja, e caramba, ele tem borogodó, como diria nas antigas. Ele sabe xavecar como ninguém e mesmo eu não estando nem um pouco apaixonada por ele, confesso que molho a calcinha só com as provocações dele. E só não fico com ele, por ele ser compromissado. Sim, isso é a única coisa que me impede: o meu código de ética e moral.
Mas hoje ele falou algo que mexeu comigo. Ele brincando falou que eu não me arrepio ou fico mexida com ele, porque eu só o vejo como o carinha legalzinho que não merece ser enxotado (do ato de levar xota mesmo, ok?!), mas dou uma moralzinha pra ele não sair deprimido.
Na hora eu exclamei um: Sabe de nada, inocente.
E isso me levou a uma das três justificativas: Será que meu boy está fugindo de mim por eu não está sendo clara o suficiente?
E é por isso que estou escrevendo essa reflexão. Para me lembrar exatamente dos erro que cometemos todas as vezes que justificamos a falta de interesse do boy pela gente, e a consequência disso que é sair machucada.
Eu ainda não faço ideia do que preciso fazer ou como devo agir para conquistar um boy.
Sinceramente, a julgar pelos dois caras que estão a fim de mim, eu diria que não é preciso fazer nada. Um se apaixonou por mim só de ver meu perfil no facebook. O outro, só por eu estar muito gata numa festa mixuruca de uma amiga em comum (que diga-se de passagem, era só uma colega de trabalho encrenqueira que é bom a gente fingir que gosta). O que me leva a pensar que preciso ficar gata pro terceiro boy, o que estou realmente a fim, pra quem sabe ele me olhar e me dar uma chance.
Mas por falar em chance, você se perguntaria. Tá, você quer uma chance com o boy que não te quer, e nem pensa em dar uma chance pro boy que está a fim de você? (Desconsideremos aqui o boy do borogodó, porque o meu código de ética já o desclassificou, embora eu me arrepie inteira e já tenha perdido a conta de quantas calcinhas foram ensopadas com as cantadas dele, e os toques nada inocentes).
Bem, eu dei uma chance a ele. Mas não foi nem por reza brava. Como diria uma amiga minha, quando a gente gosta de alguém, beijar ou ir pra cama com outro, dói. E dói muito. Quase rasga a gente no meio.
E aqui, vou dar uma dica. Quer dizer, uma dica para um homem que esteja querendo táticas de como conquistar uma mulher.
Eu realmente não faço ideia se isso funciona geral, ou só com as mulheres inteligentes. Sim, eu reconheço meu potencial cognitivo, por isso não me faço de rogada.
Chegue nela conversando. Converse de tudo. Chegue descontraído, como você faz com seus amigos homens. Aproxime-se contando os causos do seu dia, aquelas coisas engraçadas. Nada de machismo ou brutalismo. Só seja leve como você é com seus amigos.
E mesmo que ela faça aquela cara de: "Quem você pensa que eu sou?" Finja que não percebeu, e continue.
A careta é normal, por que é estranho você ver alguém se aproximando de você sem pedir alguma coisa ou sem te conhecer direito. Depois desse momento de estranhamento, ela vai cair dentro. Não tente já ir pegando, amassando, beijando... Faça como o cara do borogodó que citei acima.
Ele no início me dava umas olhadas de apreciação, misturada com safadeza, que sumia tão rápido que eu pensava ser loucura da minha cabeça, porque ele já estava emendando o assunto com uma brincadeira, uma conversa banal, um comentário divertido.
Depois de uma semana, lá estava ele me tocando com coisa que não queria nada. E quando eu estava sobre seu toque, lá vinha aquele olhar de comedor que ele logo disfarçava como se fosse uma brincadeira e a interpretação errônea fosse loucura minha. E de loucura em loucura da minha cabeça, quando eu menos vi, eu queria mais e mais. Embora o mais e mais não seja possível, porque como disse anteriormente, meu código de ética não deixa.
Contudo, se eu for plenamente racional, eu sei a resposta para me apaixonar ou fazer alguém se apaixonar por mim. Simplesmente acontece. Você o vê agindo, falando e bum... Lá está você pensando que gostaria de tê-lo ao seu lado justamente porque ele falou exatamente da forma que você pensa, ou agiu como você gostaria que o cara certo tivesse agido. E claro, as vezes é mais simples ainda: O boy é um gato e ponto final.
Isso se chama empatia. Você olha para alguém e consegue simpatizar com ele: seja pela beleza, pelos atos ou pelas falas. Ou por tudo junto e misturado.
Quanto a forma como o homem se apaixona por uma mulher, minha tia insiste que é por causa de um belo par de tetas, um airbag traseiro e um rostinho bonito. Esteja cheirosa, gostosa e mostrando na dose certas as suas carnes, e ele irá salivar.
Prefiro acreditar que homens são mais do que apenas instinto. Mas seja como for, se isso realmente for verdade, sendo racional... Eu sei que não vou acabar sozinha, nenhuma de nós vai.
Um dia o cara que se fissurar pelos meus airbag dianteiros e traseiros e meu rosto bonito, também vai ser o cara que vai falar, pensar e agir da forma que eu simpatizo. E quando isso acontecer, vai ser fogo e gasolina. Vai explodir.

E que se protejam os que estiverem por perto.

terça-feira, 26 de abril de 2016

CD2 Cap 22

Capítulo 22 — Sobre Espelhos ou Janelas

Working on the future
Floating on fate
Faced the circunstances
Cleared up the shades, so
(...)
And I've tried,
Maybe you deny
Words of peace
For the future of our lives
Bring to me
Something else than a broken heart
I won't wait 'till my life is wasted
... maybe I wanna die some other day

(Make Believe – Angra)

Ian
            Sempre tentei não me preocupar demais com o futuro. Afinal, meio que perdeu o sentido quando todo o controle saiu de nossas mãos, exatamente na época em que o mundo deixou de ser nosso.  A verdade é que essa não é o tipo de postura que se pode manter por muito tempo quando se é pai e outro ser ocupa quase todos os seus pensamentos e prioridades, até mesmo sem que você perceba. Mas ainda assim, eu dava meu melhor.
            Em nome do máximo de tranquilidade que pudesse alcançar, eu tentava ser o cara que não se incomodava em ficar preso no hotel ou escondido no carro quando, durante as incursões, Peg levava John para conhecer o mundo das Almas, para andar livre, mesmo que só por algumas horas, pelos caminhos que eu não sabia se ele poderia herdar. Não era fácil, mas eu resistia bravamente aos apelos dele para que eu fosse junto, e fazia cara de sereno quando Peg me lançava aquele olhar de quem se desculpava, porque só o que importava era meu filho. E ela, claro. Era bom saber que os dois podiam viver isso juntos, mesmo que o futuro fosse sempre tão incerto.
            No entanto, pensar que esse era o máximo que eu podia fazer era tão difícil quanto uma equação matemática complexa, daquelas que seria preciso admitir que eu não era inteligente o bastante para resolver. Por isso fiquei feliz que alguém, mesmo que não pudesse ser eu, estivesse disposto a resolver aquelas contas complicadas, porque, mais uma vez, meu filho era mais importante que meu orgulho.
            — Você está realmente me dizendo que as Almas pretendem deixar o planeta? — perguntei a Logan, agora que ele e sua família estavam de volta.
            — Não todas, e nem imediatamente. Mas sim, pretendem.
            — Isso não faz sentido — reclamou Kyle, e eu me encolhi imaginando que ele pudesse falar alguma besteira ofensiva, mas a verdade é que também me parecia muito estranho. — Depois de tudo, eles vão simplesmente jogar fora os corpos dos humanos?
            — Não é assim! A intenção é respeitar o ciclo de vida natural dos hospedeiros e depois partir, porque entendemos que o aumento da população humana vai, a longo prazo, tornar uma permanência em massa insustentável.
            — Eles ficarão até os corpos hospedeiros morrerem, então? Porque não tem a cara de pau de tomarem os corpos dos próprios filhos. Falando claramente, é isso que você quer dizer?
            Já que, claro, meu irmão era muito sutil quando falava claramente.
            — As coisas são diferentes agora — Logan se limitou a afirmar, mas todo mundo entendeu. Ele estava confirmando o que Kyle tinha dito. — Na hora certa, os planos de evacuação em massa serão expostos para a sociedade humana.
            — É a sobrevivência da espécie de vocês — lembrou Doc. — Não posso acreditar que vocês a comprometeriam, ainda que em nome de sua descendência híbrida.
            Eu detestava os termos que Eustace — esse nome nunca perdia a graça — usava de vez em quando. “Descendência híbrida”! Como se as diferenças fossem o foco.  Considerando que John era um desses “híbridos”, eu podia dizer que uma vez que se forma uma família, os outros fazem parte de você, como órgãos do seu corpo ou algo assim. Então, embora parecesse inusitado a princípio, não havia nada de estranho nas Almas se sacrificarem pelos humanos. Pais sempre seriam pais.
            — Nossas mães têm que morrer para nos dar a vida, Doc. É natural para nossa espécie priorizar a descendência e o bem comum — explicou Peg, ecoando meu pensamento.
            — Além do mais — completou Logan —, nossa sobrevivência não será comprometida. Há outras colonizações em potencial, além das já estabelecidas. A saúde do planeta está assegurada, mas consideradas as novas informações que temos, a permanência de todos causaria um problema de sustentabilidade, de qualquer maneira.
            — Novas informações? — Jeb perguntou, imediatamente notando que as notícias não paravam por aí.
            Estrela assumiu a palavra, nitidamente se preparando para o que parecia uma longa exposição:
            — Quando você ficou doente, os Curandeiros me chamaram a atenção por você ter ficado tanto tempo não apenas sem fazer qualquer exame, mas por não ter aproveitado as técnicas novas. Na ocasião não pude perguntar, parecia muito óbvio para ela e eu fiquei com medo de estragar nosso disfarce revelando que não estava atualizada com a ciência médica. Mas no tempo que passamos em Nova Orleans, pude pesquisar devidamente. O que eu descobri foi que, movidos pela escassez cada vez maior de hospedeiros, nossos cientistas vêm trabalhando em técnicas apuradas para deter o envelhecimento, e estão conseguindo ótimos resultados. Somado aos recursos a que todos têm acesso agora: medicina avançada, alimentação saudável, ausência de acidentes e de problemas com saneamento básico; isso aumentou e muito a expectativa de vida. Todas as causas naturais de morte foram praticamente extintas.
            — Exatamente de quanto estamos falando? — perguntei.
            — No mínimo mais cinquenta anos para cada pessoa, dependendo da idade em que os tratamentos começarem e de quantas vezes forem utilizados.
            — Espantoso! — disse Doc, mas apesar de tudo não conseguimos ficar assim tão empolgados. No final, isso queria dizer que essa tal retirada demoraria muito mais tempo do que podíamos imaginar.
            — Não sei, ainda me parece uma coisa meio incoerente — opinou Jared. — E incrível também, pensar que darão o direito de escolha para os humanos. Com essa história de respeitar o ciclo de vida dos hospedeiros, como vai funcionar? Não faz muito sentido.
            — Os hospedeiros estão sendo conservados com esses tratamentos, mas muitos optaram por não se submeterem a eles. Não são todas as Almas que conseguiram se adaptar à Terra, então muitos pretendem partir de qualquer maneira — explicou Logan. — A escolha a que os Representantes se referem é em relação aos que querem ficar, à possibilidade de manter uma sociedade mista pelo tempo que os tratamentos permitirem, ou se vão optar pelo fim natural dessa convivência. Acontece que estamos falando agora de humanos cujas famílias são compostas principalmente por Almas. Pais, avós, amigos, talvez até mesmo cônjuges futuramente. Então as perspectivas são otimistas para aqueles que gostariam de permanecer aqui. O que estamos buscando, essencialmente, são maneiras de conviver de forma mais equilibrada, com regras que façam sentido para ambos os lados. Ou, melhor ainda, alcançar um estado em que as coisas não sejam vistas mais nesses termos e estejamos todos de um lado só.
            — Seria maravilhoso — disse Peg, e tive certeza de que ela estava se permitindo ir mais longe nesse sonho, pensando se, de algum modo, eu também poderia me incluir nele. De repente, seu semblante retomou o tom realista. — Mas e quanto à superpopulação? O planeta não pode comportar tantas pessoas assim, não quando sua expectativa de vida é tão grande e os nascimentos continuam a acontecer.
            — Sim, essa é questão a ser levada em conta. Nossa tecnologia possibilita que qualquer tipo de solo se torne fecundo e habitável, a ausência de corrupção e de desigualdades sociais permitem a prosperidade de todos. Ainda assim, a preocupação com a sustentabilidade permanece. É por isso que muitos se recusam a prolongar seu tempo de vida. E é por causa disso também que mesmo que a criogenia nos permita conservar hospedeiros se for preciso, não há mais novas levas de Almas chegando ao planeta. Eventualmente, mesmo com o prolongamento da vida apenas os humanos vão prosperar.
            — A verdade — Estrela completou — é que as técnicas de conservação foram inventadas para os humanos. Porque muitas Almas não conseguiam lidar com a ideia de que seus descendentes pudessem sucumbir em um tempo de vida em que talvez elas ainda estivessem aqui. A questão da mortalidade tem sido complicada de lidar. Este planeta impõe desafios inéditos a nós. Estamos nos adaptando à medida que acontecem. E também tentando nos antecipar a alguns.
            — O fato é que tudo ainda é muito incerto — disse Jeb. — Para nós sobreviventes não muda muita coisa. Eu gostaria de pensar que um dia poderíamos voltar para o mundo maior, para ajudar a construir essa nova sociedade que parece surgir a cada dia. Cada vez que nos adaptamos à chegada de um de vocês me fez pensar que temos muito com que contribuir, mas isso continua sendo impossível.
            — Pois eu acho que um dia podemos voltar — Logan interviu entusiasmado. — Eu estive em um Conselho, e pretendo fazer isso outras vezes, em outras cidades, me articulando com Almas que possam ser nossas aliadas. Podemos fazer isso, descobrir a existência de outras células e incentivar que os aculturados, se existirem, se infiltrem na sociedade maior...
            — Ei, calma aí, garoto! Você está ambicioso demais.
            — Não estou, Jeb. Sei que é possível, porque descobri que não são poucos que pensam como nós. Falaremos com Cal, procuraremos Fords Águas Claras, o Curandeiro que Peg julgou tão receptivo, e meus colegas Flora e David, de Nova Orleans. Não precisamos contar a eles todos os fatos, vamos ser muito cuidadosos. Mas aos poucos, bem aos poucos, podemos fazer os outros perceberem que os sobreviventes podem ser reinseridos à sociedade. Podemos ir devagar, mas devemos começar de algum lugar.
            — Eu acho que Logan tem razão. Eu me arriscaria a conhecer alguma dessas Almas e provar que não sou perigoso — disse meu irmão num rompante, como quase todas as suas ideias “brilhantes”.
            Sunny estava com as crianças, mas se estivesse conosco se encolheria diante da perspectiva. Ver Kyle argumentando pela paz era meio como a ideia de amassar pão com um rifle. Talvez até funcionasse, mas com certeza havia jeito melhor.
Jared olhou para ele e não conseguiu conter uma risada discreta.
            — Sem ofensa, Kyle. Mas acho que nem você nem eu seríamos os modelos ideais.
            — E quem você sugere, então? Eu não estou disposto a arriscar ninguém.
            Nisso ele tinha razão. Nós não podíamos tomar uma decisão como essa por ninguém além de nós mesmos, porque se desse errado...
            — Eu... Bom, em nome da ciência, é... Eu sempre quis... — Doc começou a gaguejar, incerto sobre o que queria dizer. Então Sharon, calada até então, de repente fez o que ninguém imaginava.
            — Nós faríamos isso! — ela disse. — Eu e o Doc conversaríamos com as Almas que vocês achassem que poderiam nos ajudar.
            Assim. “Almas”. Nada de ETs, alienígenas, parasitas ou qualquer coisa depreciativa. Nada de hesitação ou desconfiança. Só pura disposição em colaborar. Aparentemente.
            — Seria perfeito, Sharon — Estrela falou com suavidade, e todo mundo ficou simplesmente ali, sem ação depois disso.
Eu bem que gostaria de estar por perto quando contássemos isso a Maggie. Ou não. Dependeria da proximidade dela com uma arma.
— Vocês estão sonhando alto demais. — Jeb nos trouxe de volta à realidade. — Temos que dar um passo de cada vez. E analisar item por item desta conversa detalhadamente, até esgotar todas as possibilidades de dar errado. Não podem simplesmente abordar um estranho, ainda mais alguém que seja influente e por isso potencialmente também perigoso, e expor a existência de esconderijos, mesmo que não deem detalhes sobre eles. Vocês teriam que estar dispostos a usar de violência se não desse certo, para poderem fugir em segurança. E isso complicaria mais as coisas. Então vamos com calma nesses planos!
Logan chegou a abrir a boca para argumentar, mas fosse o que fosse que ele ia dizer morreu em sua garganta. Sharon e Kyle também pareciam querer falar, mas ninguém disse nada no final das contas. Nós sabíamos que Jeb estava certo, que ele sempre era a voz da razão que podia nos faltar às vezes.
Por um minuto, eu me deixei levar pela possibilidade de passear com meu filho e minha mulher como teria sido antes. De levar John à escola e ao treino de futebol. De ir ao cinema com Peg, mesmo que fosse para assistir àqueles filmes estúpidos que as Almas faziam.  Coisas assim, com sutis variações, devem ter passado pela cabeça de todo mundo. E não era de se surpreender que agora estivéssemos desanimados com o choque de realidade.
— Ouçam aqui, vocês não precisam ficar com essas caras de gatos que tomaram banho de água fria — Jeb tentou remendar. —  Só o que digo é que se queremos garantir que nosso esconderijo esteja aqui para voltarmos, precisamos ser cuidadosos. Apenas isso. Nunca tive medo de arriscar e não vai ser agora, diante de uma coisa que certamente vale a pena como essa, que eu iria me acovardar.
— Eu achei que era impossível ter fé de novo — disse Sharon. — Mas o fato de estarmos vivos e de ainda termos possibilidades, mesmo que sejam remotas, me faz pensar que... Bom, eu acho que temos uma chance e eu me recuso a ter medo! E quanto a vocês?
— Tio Jeb tem razão quando diz que devemos planejar bem nossos passos, mas eu estou dentro, com toda certeza!
            Ultimamente, Mel vinha aprimorando o talento dos Stryder em observar as conversas e depois dar a palavra final, e era exatamente isso o que essa frase era: uma conclusão. Só que não só dela, mas de todos nós.
            Quando Peregrina chegou, no começo de tudo, mudou nossa visão sobre o “inimigo”. De repente, nós entendemos que o outro lado podia ser um espelho, não um muro, porque as Almas sentiam, amavam e sofriam como nós. E o que Logan estava tentando nos descortinar agora era a possibilidade de transformar esse espelho em janela, provando aos outros lá fora o que nós aqui dentro já sabíamos: que éramos muito mais parecidos do que se podia imaginar. Sinceramente, se até Sharon pôde ser convencida, as Almas também poderiam.
Naquela noite, Peg e eu imaginamos um mundo como queríamos que fosse, sem muros e esconderijos. Só janelas e grandes portas que se abriam para infinitas possibilidades para John. E nas horas que se seguiram, eu quase podia escutar os sonhos que ecoavam pelos corredores fechados e escapavam para a liberdade dos caminhos escondidos pelo deserto.


terça-feira, 1 de março de 2016

CD2 - Cap 21

Capítulo 21 – Flores de Plástico

A green plastic watering can
For a fake chinese rubber plant
In the fake plastic earth
(...)

But I can't help the feeling
I could blow through the ceiling
If I just turn and run

And it wears me out, it wears me out
It wears me out, it wears me out

And if I could be who you wanted
If I could be who you wanted
All the time, all the time

(Fake Plastic Trees – Radiohead)

Logan

            Eu não os culpava, era uma conclusão difícil de se chegar. E ao mesmo tempo também não era. Difícil e complicada, porque exigia um nível de abnegação de que talvez nem mesmo Almas fossem capazes, no entanto tornava-se cada vez mais óbvia.
            Não podíamos mais requisitar hospedeiros novos, era muito difícil agora. Os Buscadores tinham desistido de capturar sobreviventes, já que sua consciência do que aconteceria os tornava hospedeiros resistentes e praticamente inviáveis. E Almas em corpos de crianças eram cada vez mais raras, porque no processo de esperar que seus filhos crescessem o mínimo para uma inserção, a maioria dos pais desistia do intento, apaixonando-se pelo pequeno humano que dependia de sua proteção e cuidados. As poucas que existiam tinham, ao lado das crianças normais, uma existência que beirava o artificialismo de flores de plástico. Para mim, particularmente, pareciam aberrações, embora não fosse exatamente justo pensar nesses termos. Ainda assim, eu não devia ser o único a julgá-las estranhas.  
            Simplesmente porque acompanhar o crescimento de uma criança humana é algo único e surpreendente que ocupa todos os demais aspectos da vida de uma pessoa. E com as Almas não existia isso. Havia descobertas, sim, um aprendizado concomitante ao amadurecimento do corpo, mas sem aquela pureza poética de quem via tudo pela primeira vez. E única. Era amedrontador e ao mesmo tempo perfeito saber que aqueles seres e suas vidas eram únicas, tornava-os ainda mais especiais. Por isso escolhíamos para nossos filhos a finitude iminente de mantê-los humanos. Por isso nossas vidas potencialmente imortais não pareciam fazer sentido se nossos anos ao lado deles fossem substituídos por flores de plástico. Não valia a pena se fôssemos lembrados o tempo todo de nossa própria artificialidade, que, para mim, só desvanecia diante da consciência de que estávamos deixando um mundo limpo e melhor para as novas gerações.
            Para eles. Os herdeiros biológicos daqueles cujas vidas tomamos. Para nossa sobrevivência e perpetuação, sim, por isso não podia haver arrependimentos. Mas também para salvar o futuro da Terra. E agora esse trabalho estava feito.
            Nunca pensei nessas coisas antes — nem tinha razões para isso —, mas nós não podíamos ficar aqui. Não para sempre. Este mundo pertencia aos nossos filhos, e aos filhos deles no futuro. Este mundo pertencia aos humanos.
            É claro que eu não esperava que fosse fácil provar esse ponto. Não, isso não aconteceria durante o tempo de Lindsay e John na Terra. Nem um dos humanos que eu conhecia e amava veria o dia em que seu mundo seria restituído aos seus donos por direito. Eu também não veria. Mas se eu estava convencido de que era a coisa certa a fazer, passaria o resto da minha vida convencendo outros também.
            — Você mesmo viu, Green. Os novos humanos são pacíficos. Suas personalidades são altamente... — hesitei diante do que ia dizer, não gostava nem um pouco da palavra quando aplicada a pessoas, já que não parecia certo falar delas como produtos dos nossos méritos. Mas a verdade é que eu conhecia o impacto daquela ideia nos discursos que se propagavam no conselho, e ele era muito favorável, então dei um jeito de empurrar aquela espécie de ultraje para fora. — Moldáveis. As crianças podem ser influenciadas por nós. São nossos filhos, não dos humanos de antes, por isso não é surpresa que se pareçam conosco, que sejam adaptáveis à nossa sociedade e maneira de pensar.
            Green retorceu os lábios, em dúvida. Seu hospedeiro tinha certa idade e nenhum filho, biológico ou adotivo, o que de certa forma explicava a pouca familiaridade da Alma com crianças. Naquela manhã, no entanto, ele tinha se encantado com a espontaneidade delas, em especial de uma.
            A garotinha de traços orientais tinha se aproximado dele, curiosa.
            “Você não é verde”, ela comentou inocentemente.
            Green se surpreendeu. A cor era a tradução para o nome que tinha adotado, ou melhor, para o sobrenome que tinha mantido e transformado em primeiro nome, simplesmente porque seu amor pela natureza terrestre o fez parecer adequado. Obviamente, ele nunca o tinha encarado literalmente, como só uma criança era capaz de fazer.
            “Bem, você também não é uma flor para se chamar Pétalas ao Vento”, rebateu ele, entrando no jogo. A garotinha arregalou os olhos puxados e, por um momento, me encolhi achando que ela ia chorar e deixar o velho sem saber o que fazer. Em vez disso, ela riu. E começou a falar por uns cinco minutos ininterruptos sobre como ela achava que se ele queria ser verde, devia comprar umas tintas, porque todos gostavam de árvores e de passar as tardes no parque, onde havia flores como as que ela tinha pintado com batom na parede do quarto, antes de sua mãe perceber, mas ela não ficou brava, porque, depois de conversarem sobre o assunto, as duas decidiram que ficava mais bonito daquela maneira, embora a mulher tivesse tido que comprar outra maquiagem...
            Por fim, o que eu tinha na minha frente era um velho homem que provavelmente não sabia a diferença entre maquiagem e tinta de parede, rindo de uma história sobre batons e flores desenhadas junto com sua nova melhor amiga de cinco anos.
Em toda parte, membros do conselho se viam enredados em pequenos dedos habilidosos que, generosamente, ofereciam bolos, carinhos e desenhos de animais de estimação. Pelo menos até um garotinho, que estava começando a aprender a andar, ralar o joelho ao cair e todas as outras crianças partirem imediatamente em seu socorro, sem que nenhum monitor precisasse dizer uma só palavra.  
Para as famílias com crianças, era só mais um dia. Para o Conselho, foi certamente um dia revelador. Ainda assim, cachorrinhos e band-aids não faziam os medos desaparecem.
— São crianças, Tempestade Solar — colocou Green, que, apesar de tudo, continuava cético. — Certamente são maleáveis e carinhosas, nunca duvidamos disso. Mas a criação não é suficiente como garantia, há também que ser considerado que não pertencemos à mesma espécie e que, como humanos, sua essência é a imprevisibilidade. Nós mesmos nos vimos transformados por ela. Este mundo nos afeta de maneiras que jamais pudemos supor. E se já é assim conosco, como prever o que acontecerá quando esses humanos de natureza volúvel se tornarem adultos?
O argumento era válido. Mais do que válido, era imbatível, mas a sociedade mista era, àquela altura, uma realidade irreversível. Qualquer possibilidade de controlarmos o desenrolar das coisas não passava de ilusão. Um raciocínio desses vindo de mim significava muito, por isso eu não conseguia entender como eles ainda podiam se portar com tanta ingenuidade.
— E o que você sugere, Green? — perguntou Flora, torcendo um de seus cachos negros nos dedos da mesma cor.  A garota era o membro mais jovem do Conselho, mas sua extraordinária perspicácia a fazia parecer bem mais do que alguém mal saída da adolescência. — Que dopemos nossos filhos e irmãos humanos enquanto estiverem dormindo e coloquemos Almas em seus lugares?
— E você, Flora? Sugere que os pais não tenham mais o direito de escolher se seus filhos serão hospedeiros ou não? — Green rebateu. — Claro que todas as suas ideias são dignas de respeito e análise, mas talvez você tenha se precipitado em seu julgamento em relação ao que eu disse.
— Talvez. Já que não entendi aonde você quer chegar, afinal. Tempestade Solar nos levou até lá com o intuito de provar a cada um daqui o que ele e eu já sabemos. Que as crianças humanas não precisam ser vigiadas de perto, que toda a propaganda criada pelos conselhos passados incentivando famílias a cederem seus filhos como hospedeiros não pode mais ser sustentada. Entendo a nobreza de sua intenção quando diz que precisamos zelar pela superioridade numérica de nossa espécie, mas isso se mostra cada vez mais inviável à medida que esses humanos crescem. Eles terão que ser incorporados à nossa sociedade, até mesmo aos nossos Conselhos pelo mundo. E com direitos iguais. Até quando podemos adiar a conversa sobre a quem realmente pertence este mundo?
— Estamos conversando, querida Flora. Mas ainda somos fortes o bastante para não acelerar nossa decadência.
— Não vejo dessa maneira, caro colega. Mas certamente vou analisar sua opinião sem me precipitar desta vez.
Eu sabia que ela estava sendo irônica enquanto provavelmente estava ganhando tempo. Fazia parte de seu estilo preparar contra-ataques silenciosos, como Jeb, por exemplo, que sempre ouvia mais do que falava, no entanto sempre tinha a última palavra. Eu estava acostumado com isso, mas nossos outros colegas, em geral, não tinham essa espécie de “malícia”, por isso ninguém mais notou. Quanto a mim, eu tinha certeza de que a discussão entre os dois não se encerrara ali.
— Peço desculpas se dei a entender que suas palavras foram completamente impensadas — disse Green. — Entendo sua preocupação. Porém eu peço que adotem um olhar mais clemente para as necessidades de nossa própria espécie. É preciso sugerir às famílias a geração de novos hospedeiros.
Flora e Green seriam adversários declarados se a boa educação das Almas e as regras do Conselho assim o permitissem, mas contentavam-se com as farpas disfarçadas de frases polidas e constantes pedidos de desculpas. Esse que tratávamos, no entanto, era um assunto delicado para Flora, que tinha um casal de irmãos gêmeos humanos que tinha aprendido a defender com vigor e a amar incondicionalmente. Isso tirava muito de sua disposição para ser amistosa.
— Já eu prefiro sugerir que não engravidem se forem matar os humanos que gerarem — soltou por fim, e houve uma comoção geral pela dureza das palavras.
— Somos simbiontes, não usurpadores da vida humana — protestou uma Conselheira. — Os corpos não morrem, nem a essência de nossos hospedeiros. O que fazemos não é...
Matar. A palavra era praticamente um tabu. Nós não víamos dessa maneira no começo, apenas fazíamos o que era preciso para a sobrevivência de nossa espécie. Como leões sendo acusados e julgados por serem carnívoros, o conceito não parecia caber em nossas concepções. E era melhor que não coubesse. A espécie humana trouxe para nossas vidas algo nunca antes experimentado: culpa. E esse não era um sentimento a que nossa civilização resistiria, portanto era consenso geral que não o cultivássemos. Os crescentes murmúrios de indignação e dor que aquela fala tinha engendrado me fizeram correr em socorro de minha aliada.
— O que Flora quer dizer é que é diferente com as crianças. Convivemos com elas, aprendemos a amá-las, porque somos movidos por uma necessidade instintiva de cuidar delas. Suprimir sua personalidade original sem ao menos dar a chance para que ela se desenvolva plenamente soa, para alguns de nós, como se fizéssemos aquela criatura deixar de existir. A sociedade mista é uma realidade irreversível, e não podemos mais adiar que nossa convivência e nossas regras sejam repensadas quando a proporção de humanos só tende a aumentar com o tempo. Pelas próprias leis da natureza, inclusive. Em alguns anos, eles terão seus próprios filhos. E não creio que sequer cogitarão transformá-los em Almas.
— Não podemos deixar de considerar, entretanto, o perigo que isso representa, amigos — a mesma mulher que tinha se ressentido com as palavras de Flora se manifestou novamente. — Uma segunda geração de humanos já não terá laços fortes conosco. Então eles entrarão em guerra contra nós, e em desvantagem numérica não teremos chances de reação.
— Mas a qual reação você se refere? — rebati. — Violência?
— É claro que não! — ela se sobressaltou. — Eles talvez se tornem capazes disso, mas nós... Não! Isso é contra tudo o que acreditamos.
— Inserções forçadas, então? Não há mais o elemento surpresa que favoreceu nossa chegada...
Obviamente, não era uma sugestão. Eu só queria fazê-los perceber que uma guerra poderia apenas ser evitada, jamais combatida. O Conselho era um think tank[1], era nossa obrigação analisar todas as possibilidades.
— Não. Nas atuais circunstâncias, isso seria outra forma de violência — ponderou minha colega. — O que a superioridade numérica nos permitiria, entretanto, seria uma maior influência e melhores possibilidades de diálogo. Eles são herdeiros do planeta, mas se formos a espécie dominante eles terão que levar em consideração o impacto de devastar a civilização causando nossas mortes.
— Pois eu acho que, sem querer, chegamos num consenso. Porque eu também considero o diálogo fundamental, e certamente reconheço as vantagens de estarmos em superioridade numérica. Porém o momento de nos aproveitarmos dessa prerrogativa é agora, meus amigos. Ou vocês acham que se houver uma guerra no futuro, o diálogo será suficiente depois de o termos adiado por anos?
— Presumo que teremos que partir se chegar a esse ponto — concluiu outro Conselheiro. — Não podemos enfrentar uma guerra. E já cumprimos nossa missão de curar o planeta, não nos cabe também morrer por ele.
— É no que também acredito — afirmei, e muitos outros aquiesceram em concordância. Mesmo os mais resistentes não cogitavam permanecer aqui se o preço fosse a completa destruição de nossa essência através de uma guerra.
Nesse ponto, então, nosso Conselheiro Principal, um homem pequeno de vastos cabelos brancos, que usava o nome de David, decidiu se pronunciar pela primeira vez.
— De fato — sua voz segura e calma articulou —, desde que uma nova população humana se tornou uma promessa, esse é o consenso entre os Representantes. Infelizmente, considerando a imprevisibilidade dos temperamentos dos terráqueos e a instabilidade prévia de suas sociedades, a guerra sempre foi uma possibilidade. Por isso, o plano para uma retirada gradual e em massa vem sendo estudado e está pronto para ser posto em prática a qualquer momento, caso necessário.
Os Representantes eram Conselheiros de todo o mundo que se comunicavam regularmente, informando uns aos outros sobre os progressos, decisões e anseios de cada comunidade. Aparentemente, a progressão da população humana era previsível o bastante para sempre ter estado em suas considerações.
— Nunca trouxemos essa discussão para as pautas, porque acreditamos que devem surgir naturalmente em cada Conselho, como sabíamos que surgiria — continuou David. —  É uma decisão séria, e nem mesmo o momento de falarmos sobre ela deveria ser imposto. Mas é preciso que saibam que temos pensado na segurança de todos, inclusive na de nossos descendentes humanos. Se o tempo chegar em que eles não nos queiram mais aqui, partiremos em paz.
— Como se eles fossem simplesmente nos dizer, em vez de um dia darem vazão à violência com que sempre conseguiram as coisas? — pontuou Green, duvidando outra vez que humanos pudessem permanecer bons.
— Não é como antes — Flora apressou-se em argumentar. — Somos família, não mais uma espécie inimiga. Nossas crianças jamais serão abandonadas por nós, maltratadas ou privadas de seus direitos. Elas nos amam tanto quanto nós a elas e não têm motivo para chegarem a nos odiar.
— Concordamos com você. Não há entre nós pais negligentes ou injustiça social, nada que lhes cause dor ou desperte revolta — disse David. — Ainda assim, seu poder de decisão permanece limitado, sujeito ao que nós acreditamos que seja o bem comum. Por isso quando a primeira geração atingir a idade adulta, dentro de poucos anos, serão comunicados sobre nossa oferta de partir. Nós nos certificaremos de que, pelo menos desta vez, a escolha final seja deles.
A surpresa me tomou por completo. E conseguia imaginar que os outros estivessem se sentindo ainda mais perplexos. Sobrecarregados até. Tanta informação... Pensei nas implicações do que ele nos havia dito, nos humanos que conhecia e, obviamente, em minha filha e em John. Eu os deixaria se quisessem. Faria o que fosse melhor. Qualquer coisa. Era o que eu queria, afinal. O plano que vinha traçando em minha cabeça e que me parecia tão lógico quanto surreal momentos atrás.
— Talvez não precisemos partir — peguei-me dizendo mesmo assim. — Se pararmos por completo de requisitar hospedeiros, como Flora insinuou. Se deixarmos com que as gerações humanas se renovem naturalmente até não existirmos mais... Não representaremos ameaça alguma. Completaremos nosso ciclo de vida e partiremos.
Ou morreremos aqui, ao lado daqueles que amamos, porque a duração da vida de Lindsay, e somente um dia a menos, é a medida exata do que eu gostaria de viver.
— Quero ficar com meus irmãos. E, quem sabe, ter um filho um dia. Depois não me importo de morrer — disse Flora, como se lesse meus pensamentos.
— Muito bem — aquiesceu David. — Temos muito a conversar sobre isso também. Sugiro que se sentem.
Todos obedecemos sem hesitar, atônitos demais para levantar qualquer hipótese, a não ser a de que nossas concepções seriam novamente reviradas. Aparentemente, as surpresas não acabariam por ali.



[1] Think tanks são organizações ou instituições que atuam produzindo e difundindo conhecimento sobre assuntos estratégicos, com vistas a influenciar transformações sociais, políticas, econômicas ou científicas, sobretudo em assuntos sobre os quais pessoas comuns não encontram facilmente base para análises de forma objetiva.

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