domingo, 5 de maio de 2019

CD2 Cap 41


Capítulo 41
Rio Entre Distâncias

Please tell me there's a new beginning
Coming up with the sunrise
Holding out for a happy ending
And it's gonna be alright
Please tell me there's a new beginning
And it's going to be alright

Someday we'll be closer to loving each other
The way that it should be
The streets that divide us
Will join and unite us
You've gotta believe
(New Beginning – Noah Guthrie)

Rio Entre as Montanhas

— Está reconhecendo o lugar? — perguntou Logan enquanto percorríamos a pequena estrada que, poucos quilômetros à frente, nos daria acesso à Fazenda Stryder.
Dali já era possível vislumbrar as plantações e, obviamente, Trevor tinha feito aquele caminho inúmeras vezes, mas aquilo não me trazia nenhuma lembrança ou emoção.
— O caminho parece familiar, tenho a sensação de que devia reconhecer alguma coisa, mas é só uma impressão vaga — respondi, encontrando o olhar dele no retrovisor com um pedido silencioso de desculpas.
— Está tudo muito diferente, imagino — disse meu novo sobrinho, e eu apenas assenti, porque, na verdade, não saberia dizer o quão diferentes estavam aquelas terras do lugar das memórias desvanecidas de Trevor.
— Lembranças assim se perdem com facilidade — opinou Céu de Inverno. — Passamos por um processo de desvinculação das emoções do hospedeiro logo que o assumimos. E lembranças distantes no tempo como essa são apagadas rapidamente.
— Claro. É compreensível — concordou Estrela gentilmente, mas não perdi o olhar que ela e Logan trocaram.
Havia muitas expectativas no ar. A história daquelas pessoas envolvia uma vivência muito diferente da nossa. A ligação das Almas aculturadas com seus hospedeiros era diametralmente oposta ao que Céu de Inverno tinha narrado. Por mais que o conceito em suas palavras fosse completamente familiar para as Almas comuns, Estrela e Logan não eram comuns. Por isso desejei que minha amiga não tivesse usado um tom tão profissional.
— Imagino que os familiares de Trevor e Linda devam estar diferentes também — comentei, tentando mudar um pouco o foco da conversa. — Os filhos principalmente. Eram praticamente crianças da última vez em que os vi.
— Mel e Jamie são ambos adultos agora. E são ótimas pessoas, embora sejam bem diferentes um do outro — respondeu Estrela. — Jamie é mais expansivo e Mel é mais séria, sempre muito responsável e prática. Mas isso é porque ela teve que crescer rápido para poder garantir que o irmão fosse bem cuidado. Então, por muito tempo, Jamie foi o nosso garotinho protegido, e por isso às vezes pode dar a impressão de ainda ser um adolescente rebelde tentando se afirmar. Mas ele é muito maduro. Sempre foi. Nunca cansa de surpreender a gente pela forma como encara as coisas.
Fiquei pensando naquilo. Em como Logan disse que foi a pedido de Jamie que ele tinha me encontrado. Aparentemente, o rapaz não guardava nenhum ressentimento. Mas eu não sabia onde isso deixava Melanie, que tinha passado a adolescência — esse período tão determinante para os humanos — salvando a si mesma e ao irmão pequeno. Também não sabia o que pensariam os irmãos de Trevor. E eu estava bem curioso a respeito.
Deveria estar nervoso, mas estava mais intrigado e ansioso do que com medo. Desde que os esforços de paz começaram, me questionei se voltaria a ver algum deles e como seria se acontecesse.
— Tia Mel e Tio Jey são fofinhos — disse a menininha ruiva acomodada num assento especial no banco de trás, entre eu e Céu de Inverno. — Vocês vão adorar eles.
Os pais sorriram em resposta, como se a interferência da criança tivesse sido mais do que simplesmente oportuna, mas também uma pérola de compreensão das relações. Então me flagrei querendo sentir aquele tipo de orgulho, entender como se dava um sentimento que mudava tantas coisas. Assim como Logan e Estrela, eu já tinha ouvido falar de muitas Almas que tinham abdicado de sua condição imortal apenas porque não conseguiam conceber outras vidas sem sua prole humana. E apesar de eu conseguir me lembrar da intensidade do que Trevor sentia, por um instante, desejei mais do que isso. Mais do que apenas lembrar.
— O vovô Jeb e a vovó Maggie são muito legais também. A vovó me deixa comer biscoito escondido e o vovô me faz cosquinha assim... — Estendendo a mãozinha, a garotinha roçou os dedos gorduchos em minha barriga. Não senti nada, mas era inusitadamente divertido vê-la tentar, então fingi uma risada.
Sem fazer a menor ideia de onde tinha vindo o impulso de agradá-la.
— Eles são seus irmãos, né? — perguntou Lindsay, a pequena humana de cujo nome eu subitamente tinha conseguido me lembrar.
Bem, eles eram. Biologicamente falando. Da mesma forma que Melanie e Jamie Stryder eram meus filhos. Mas eu não era meu hospedeiro. E simplesmente não conhecia aquelas pessoas. O que, pensando bem, era uma noção bem complicada. Quase um dilema filosófico, eu diria. Certamente não era algo que eu saberia explicar a uma criança.
Lancei um pedido mudo de socorro pelo espelho retrovisor, mas Céu de Inverno interferiu antes que Logan ou Estrela viessem em meu auxílio.
— Sim, eles eram irmãos do hospedeiro Trevor Stryder, mas Rio Entre Montanhas é uma Alma. Então parentes de sangue é uma definição melhor.
A pequenina franziu a testa, confusa. A frase não parecia fazer sentido algum para ela. Por isso, mais uma vez, desejei que Céu de Inverno simplesmente tivesse ficado calada.
Era quase estranho finalmente admitir isso para mim mesmo, mas eu detestava a maneira como ela confiava excessivamente em sua função de Confortadora, agindo de modo mecânico como se suas palavras fossem um manual à prova de erros e as diferenças individuais fossem irrelevantes.
— Eu não sei o que são parentes de sangue... — Lindsay repetiu devagar, como se testasse as palavras. — Tia Flora é nossa parente de sangue? E o vovô David? Porque eu não conhecia eles antes também. Nós somos parentes de sangue, Tio Rio?
Logan fez uma careta estranha para Estrela e ela segurou a mão dele pousada sobre o câmbio.
— Tudo tem tum-tum, lembra? — ele falou e a filha assentiu sorrindo, parecendo se conformar com aquela resposta estranha.
— Lindsay cresceu em um grupo muito unido — explicou Estrela. — Ela chama os mais jovens de tios e os mais velhos de avós, porque nos consideramos todos família. Para ela, o conceito de parentesco de sangue não faz sentido.
— Desculpe — pediu Céu de Inverno, parecendo envergonhada pela primeira vez. — Nossa orientação aos membros de famílias mistas sempre foi lidar com as dúvidas das crianças utilizando os fatos.
— E nós concordamos com isso, por isso não é necessário se desculpar. Mas minha filha nasceu entre humanos, entre os dela, então o ponto de vista a partir do qual ela interpreta os fatos às vezes é um pouco diferente. É uma nova realidade para vocês, Confortadores. E para quem mais for trabalhar com crianças como Lindsay ou John.
— Claro — disse Céu de Inverno, por fim concedendo à razão de Estrela. — Minha nossa, eu não tinha me dado conta! Acho que teremos que estudar essa situação específica e criar algumas instruções para o trabalho com famílias como a sua. Meu companheiro, Terra Sonora, vai se entusiasmar com a perspectiva.
— Não acho que instruções possam ajudar — Logan comentou, ainda parecendo contrariado.
— Acho que nós apenas temos muito a observar, Céu de Inverno — falei.
— Nisso eu concordo — ela respondeu.
— Vocês são mais que bem-vindos para conviver com nossas crianças e aprender com elas — disse Estrela, novamente sendo gentil. — Aliás, se durante o tempo em que estiverem na vila quiserem se hospedar em nossa casa... Digo, há uma casa para os visitantes, e ela é grande e confortável o bastante, mas se um de vocês quiser mais privacidade, podemos providenciar alguma alternativa.
— Oh, não. Não é necessário. Rio Entre as Montanhas e eu nos damos muito bem. Somos amigos desde os primórdios da colonização. Já dividimos o mesmo teto antes.
— É verdade — confirmei.
Embora a parte de termos morado juntos fosse óbvia e de conhecimento geral, às vezes o fato de sermos amigos parecia quase improvável, dadas as diferenças entre nós. Mas Céu de Inverno não as considerava relevantes o bastante e eu guardava por ela um imenso carinho por causa das lembranças de Trevor com Linda. Assim, mesmo que nunca tenhamos nos sentido unidos o suficiente para sermos um par, sempre mantivemos contato e nos tratamos com grande afeição.
— Acho que entendo um pouco os laços a que Estrela se refere — disse a ela. — Você e eu, por exemplo, não somos um casal e nossa ligação familiar poderia perfeitamente ter desaparecido junto com nossos filhos, mas não foi o que aconteceu.
— Hum, tem razão. Faz sentido. Na realidade, não é muito diferente dos nossos próprios laços comunitários. Mesmo tantos de nós tendo nascido da mesma mãe, é o convívio e o zelo pelo bem comum que nos tornam irmãos. Me pergunto o que sentiremos em relação aos humanos. O que me diz, Estrela? Certamente, vocês têm alguma conclusão que possa nos servir de ajuda.
— Eu não saberia o que dizer. Cada experiência é única, obviamente. Mas acho que tudo depende do quanto vocês vão se envolver com os humanos a partir de agora, independente das lembranças que ainda possam guardar.
— Eu sou parente de sangue do vovô Jeb — disse Lindsay, repentinamente voltando à conversa, como se estivesse elaborando as ideias enquanto falávamos. — Ele é papai do meu papai. Mas como é que John é meu irmão?
— Somos todos parentes de coração, amor — Logan falou num tom suave que eu só o vira usar com a criança. — Vovô Jeb é meu pai porque nos amamos. John é seu irmão porque ele também é nossa criança. Nós cuidamos dele e os pais dele cuidam de você. Nós nos ajudamos e nos amamos. É isso que importa.
— Tá bom.
— Escute, criança — Céu de Inverno a abordou. — A Tia Céu se confundiu, mas é porque eu sou nova nisso de família e pensei que para os humanos ter o mesmo sangue fosse importante. Porque, veja, Melanie e Jamie nasceram da mesma mãe e do mesmo pai, que são os hospedeiros de Rio Entre as Montanhas e meu... Bem, você deve saber o que é um hospedeiro... Ela sabe? — perguntou, dirigindo-se a Estrela e Logan, como se com isso pedisse permissão para continuar a explicação. Mesmo assim, foi Lindsay quem respondeu.
— No começo, todo mundo era humano que nem eu — Lindsay começou a recitar, como se fosse uma história que ela tivesse ouvido muitas vezes. — Aí as Almas vieram morar na Terra também, mas elas são muito pequenininhas, então precisavam pegar carona.  Só que não deu. Elas não queriam machucar ninguém, mas machucaram. Os humanos que sobreviveram ficaram muito tristes e se esconderam. As Almas ficaram com medo, porque achavam que a gente tinha raiva deles. Mas agora vai ficar tudo bem.
— Isso — Céu de Inverno concordou, impressionada. — Quando Melanie e Jamie ficaram tristes com nossa chegada, eles se esconderam e nós não os vimos mais. Então é como se não nos conhecêssemos. Mas agora que está ficando tudo bem, eles querem nos ver, porque somos parentes de sangue. Foi isso que eu quis dizer.
Senti uma ponta de orgulho de Céu de Inverno. Claramente, era difícil para ela lidar com as concepções de uma criança sui generis [1] como Lindsay. Tudo era inédito demais e minha amiga não era boa com mudanças de paradigma. Mesmo assim, a menininha a tinha sensibilizado o bastante para que ela desse seu melhor e tentasse conciliar a situação, aprendendo com o novo.
— Somos parentes de sangue por causa dos nossos hospedeiros, mas podemos tentar ser uma família com o tempo — completei, dando a Céu de Inverno um olhar que pedia que confirmasse o que eu dizia, independente de suas pretensões reais, e assim ela o fez. — Porque como seus pais nos explicaram, tem a ver com estarmos juntos, certo?
Lindsay assentiu e percebi que estava pondo em palavras uma coisa que eu mesmo tinha acabado de aprender.  
— Então você vai ser papai dos meus tios, igual o vovô Jeb do meu pai?
— Bem, eu não sei — respondi honestamente.
— Eu queria. Vovô Paddy ficou com a gente e ele é legal.
— Paddy é o pai biológico de dois de nossos amigos — explicou Estrela. — Ele se mudou para cá.
— Entendo — falei, notando que a semelhança das situações exercia sobre nós uma pressão incômoda, por isso Paddy não tinha sido mencionado antes em nossas conversas.
— Eles vieram conhecer nossa família, bebê. Apenas isso — Logan interferiu, esclarecendo a filha. — Não sabemos o que vai acontecer, mas, no mínimo, seremos muito amigos.
— Isso nós já somos — ela falou com meiga indignação. E foi minha vez de sorrir como se a garotinha tivesse dito algo genial.
— Melanie, Jamie, meu pai, todos vão recebê-los de braços abertos. Almas são familiares para eles. O campo já foi aberto há muitos anos.
— O que quer dizer? — perguntou Céu de Inverno.
— Que nós cortamos o mato para vocês colherem os frutos — Logan completou. — Construímos relações de confiança e amizade com esses humanos, de modo que eles fazem mais do que nos aceitar. Eles nos amam. Receber vocês só vai requerer abrir um pouco mais os braços.
— Você anda falando como Jeb — disse Estrela, rindo. E Logan a acompanhou.
— Ele parece um homem sábio — observei. — Excêntrico, segundo me lembro. Mas muito inteligente e bondoso.
— Jeb me recebeu como filho muito antes de alguém ter qualquer razão para confiar em mim. Ele acolheu Estrela sem preconceitos e, antes disso, Peg e Sunny, nossas irmãs.
— Você disse que ele não quis fazer o teste genético para confirmar que era seu pai.
— Ele disse que não tem importância — Logan deu de ombros.
— Essas relações são fascinantes — disse Céu de Inverno. — Mas confesso que não as entendo muito bem.
— Bem, você se acostuma — disse ele. — Para mim também foi confuso no começo. Mas é minha lógica agora.
— Percebo — ela confirmou, reflexiva. — Vocês se referem à outra criança, John, como se fosse seu filho também. Estrela disse “nossas crianças” e que Jamie era o garotinho protegido de todos...
— Eles são criados por todos. Nossas crianças são filhos de uma comunidade — declarou Estrela.
— Interessante. Não somos tão diferentes assim.
— Não, não somos — concordei com Céu de Inverno.
E esse pensamento me animou quando atravessamos a velha porteira da qual eu começava a me lembrar.
— Chegamos — disse Logan.
Olhei para Céu de Inverno, confiante de que tínhamos tomado a decisão certa, afinal. Mas a verdade é que desde o momento em que os caminhos se apresentaram, jamais cogitei tomar outro que não fosse o que me traria até aqui.




[1] Expressão latina que significa “única de seu gênero”.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

CD2 Cap 40


Capítulo 40
Família

There were times I didn't understand
And there were times I wouldn't hold your hand
But now baby now I'm here for you
'Cause baby I am so in love with you

I'm gonna stand by my woman now
I'm gonna stand by my woman now
'Cause I can't live my life alone
Without a home
(Stand By My Woman – Lenny Kravitz)

Jared

— Acho que nunca vou me acostumar com isso de novo! — disse Lily, acionando a torneira da pia da cozinha planejada. — É impressionante como a gente não dava valor para coisas assim antes...
— Olha pra isso — comentou Brandt, entrando na brincadeira e ligando e desligando o interruptor da luminária sobre o balcão que dividia a cozinha. — E o chuveiro, então! Meu. Deus. Do céu.
Ao meu lado, Melanie riu e deu uma batidinha no ombro de Paddy, que pareceu feliz com a satisfação dos outros diante de sua obra.
Aparentemente, Lily estava encantada demais com os eletrodomésticos e a acolhedora mesa de jantar, mas o resto de nós seguiu Paddy de volta para a sala de estar, onde Kate ainda estava estatelada no imenso e confortável sofá que formava um arco em torno da tela grande que era um misto de TV, computador, celular, videogame e projetor.
— O que é mesmo que esse troço faz? — perguntei, apontando para a tela. Só porque eu queria ouvir de novo a descrição de como ela era fantástica.
— Você pode ver programas 3D, conversar por videoconferência, brincar com jogos interativos para várias pessoas e ler. A SmartCombo dá acesso a todas as bibliotecas do mundo, livros de antes e depois da nossa chegada. Todo e qualquer conhecimento já produzido, é só escolher.
— Fico com a parte dos jogos — disse Mel , mas Peg vai adorar as bibliotecas.
— Sim — ele concordou. — Dá para usar a tela grande, pedir uma projeção para uma tela portátil ou acionar o áudio que o computador lê as obras para você.
— Caramba — Kate exclamou, ainda esparramada. — E esse sofá é demais, quase que não dá vontade de sair daqui. Acho que vou querer um igual. Provavelmente minha mãe também vai gostar de um destes pra casa de vocês, não acha, Bran?
Meio atordoado, Brandt confirmou, mal conseguindo disfarçar os ciúmes quando a enteada deixava implícito que teria sua própria casa com Jamie. Melanie também se sentia assim e fui obrigado a rir quando percebi a troca de olhares e pigarros entre os dois superprotetores.
— Posso levar vocês até a loja — comentou Paddy, alheio ao clima estranho.
— Eu ia adorar! — disse Kate. — Ficou bem legal o que você escolheu pra cá. Você tem muito bom gosto.
— Obrigado, mas o pessoal da loja de móveis ajudou bastante, então acabou sendo fácil acertar.
— Não é só isso, Paddy. A decoração ficou ótima mesmo, mas a casa em si está muito bonita — Mel comentou.
— Eu gostei de trabalhar nela — respondeu ele, dando de ombros. Depois lançou a ela um sorriso discreto de cumplicidade. — O propósito é muito nobre.
Estávamos na futura Casa dos Visitantes — a única totalmente montada naquele ponto — e o propósito a que Paddy se referia era acolher nossos amigos quando viessem visitar, mas, principalmente, hospedar nossos familiares biológicos quando — e se — viessem nos conhecer. A ideia tinha sido de Melanie, depois de uma conversa com Kyle e, a pedido dela, tinha sido a primeira casa a ser terminada. As demais estavam em fase de pintura e outros acabamentos, mas logo já poderiam receber os móveis que seus futuros moradores escolheriam nos próximos dias.
— Nós vamos passar a noite aqui, não é? — perguntou Lily, vinda do corredor dos quartos. — Eu posso dividir um quarto com Kate, Paddy e Brandt dividem outro e vocês dois ficam com a suíte, que tal?
— Se estiver legal para vocês, acho mais confortável para todo mundo — concordei.
Estávamos fazendo a mudança em etapas e tínhamos vindo hoje para trazer várias coisas no caminhão e começar a fazer umas faxinas. Mas a ideia inicial de dormirmos em colchões no chão da casa que estivesse mais limpa ao fim do dia tinha perdido força rapidamente, assim que Paddy veio nos encontrar dizendo que esta casa já estava habitável.
— Amanhã vem mais gente para ajudar — disse Mel, animada.
— Nesse ritmo, em uma semana já podemos nos mudar de vez — observou Paddy, parecendo aliviado. Por causa da construção, ele passava várias noites em um trailer na entrada da vila, e claramente queria voltar a ficar o tempo todo perto da família que tinha adotado.
— Vai ser bom — disse Lily. — Mas agridoce, né? — completou e todos concordamos em silêncio, sem ter muito a acrescentar.
Não era algo que qualquer um de nós saberia definir, mas a sensação era provavelmente a mesma para todos. Por trás dos planos de deixar tudo habitável para que pudéssemos correr para lá quando sentíssemos falta, havia uma imensa dificuldade em nos despedir de uma parte da nossa vida. É claro que as plantações não seriam abandonadas até o fim da colheita, então nos revezaríamos entre o trabalho aqui e lá, mas não era exatamente a mesma coisa.
— É preciso abrir mão de coisas para se dar lugar ao novo — Paddy aconselhou, entendendo nossa relutância. — Vocês serão felizes aqui.
— É uma nova fase — Mel complementou. — E só tem como melhorar, certo?
Kate assentiu, espantando o olhar saudosista do rosto.
— Não é como se não tivéssemos passado por uma mudança total antes. Só que agora é, com certeza, para melhor — argumentou.
— Acho que a gente devia deixar pra pensar nisso diante de um bom prato de comida — disse Brandt. — E depois de um bom banho!
— Certo, Bran. Já sabemos que você sentiu falta de chuveiros — provocou Lily, explodindo numa risada que todos acompanharam.
— Bom, ainda bem, né? Queriam que eu gostasse de ficar sujo? — ele respondeu com indignação fingida.
Acompanhei os risos, tentando adiar o instante em que teria de lembrá-los de que ainda tínhamos muito a fazer, então olhei para Melanie, que parecia leve depois de ter andado preocupada por muito tempo, e decidi que não valia a pena acabar com o momento.
Depois de tantos anos carregando boa parte da responsabilidade pelo bem-estar dos outros, às vezes eu sentia que não sabia mais como me divertir, mas Mel me fazia lembrar que eu não precisava planejar cada mínimo detalhe do dia. Muito menos arrastar os outros para o redemoinho da minha própria e rígida logística interna.
Sempre foi ela.
Melanie. Minha prioridade, minha preocupação, mas também o meu descanso. Minha mulher.
— Está nervosa? — perguntei em seu ouvido, descendo a mão de leve por sua coluna enquanto a observava apreendendo os detalhes da casa. — Ficou do jeito que você queria, não ficou?
— Ficou até melhor. — Ela sorriu. — Paddy fez um ótimo trabalho, mas você sabe que isso não garante nada. — Deu de ombros.
No dia anterior, Logan e Estrela tinham partido em busca de Trevor e Linda Styder. O objetivo era, assim que se sentissem seguros e confiantes, trazê-los para cá para uma visita. Nesta casa, esperávamos, eles teriam o espaço necessário para lidar com a sobrecarga de emoções que um reencontro significaria, especialmente para Trevor, ou como quer que ele se chamasse agora. Era quase certo que lidar ao mesmo tempo com todos os remanescentes da família Stryder seria tão necessário quanto difícil para a Alma no corpo do pai de Melanie.
Por isso ela tinha canalizado toda sua angústia em forma de expectativas para a Casa dos Visitantes, para que fosse um escudo que os protegesse, ao menos um pouco, do medo do contato direto. Pelo tempo que ficassem aqui, Trevor e Linda teriam onde se refugiar quando a situação fosse demais para eles. Assim como Mel e Jamie poderiam aceitar que a porta se fechasse, sabendo que poderiam bater de novo quando estivessem prontos.
Era como uma estranha apólice de seguros para os sentimentos de todos, uma que Mel não tinha certeza se cumpriria seu propósito, mas ao menos até aqui parecia ter funcionado bem para ela.
— Se eles não quiserem vir — completou —, pelo menos vou saber que fiz o melhor que pude.
— Sim, você fez. Você sempre faz — assegurei, abraçando-a e sentindo seu corpo se aninhar no abrigo dos meus braços.

********

A previsão de Paddy estava correta. Em menos de uma semana, as casas já estavam terminadas e, com tudo previamente organizado para a mudança, tínhamos nos instalado de forma rápida e permanente na vila da Fazenda Stryder. Tão rapidamente, aliás, que ainda parecia mais com estar passando férias em um hotel.
A única constante era a presença das pessoas. Para mim, especificamente, a coisa que me fazia sentir verdadeiramente em casa era Melanie. Por isso acordei sobressaltado quando, na manhã do terceiro dia, me virei na cama e percebi o lado dela vazio.
Andei pela casa, meio trôpego de sono, até encontrá-la no sofá, olhando para o celular deixado sobre a mesa de centro como se fosse algum animal perigoso observado à distância.
— Mel — chamei. — O que foi?
— Logan me ligou. Eles estão voltando.
Por si só, essa informação não dizia muita coisa, já que eu não sabia se Logan e Estrela estavam voltando com ou sem os pais de Mel, mas ela não disse mais nada.
Contando apenas com esse silêncio, tentei avaliar a situação, perceber se sua expressão parecia decepcionada ou ansiosa, mas desisti de fazer suposições. Então sentei-me ao lado dela e esperei.
Assim como fazia sempre, minha garota chegou mais perto e se aninhou a mim, que a recebi como se ela nunca devesse ter saído.
— O nome dela é Céu de Inverno. É Confortadora em San Diego — disse enquanto eu alisava seu cabelo. Ela respirou fundo, esfregando o nariz em meu pescoço e me causando um arrepio. Depois continuou baixinho. — Eles não vivem como companheiros, se separaram logo depois que Jamie e eu fugimos. Então Rio Entre Montanhas... esse é o nome dele... — Ela riu baixinho. — Tio Jeb vai dizer que parecem nomes de hippies.
— Ou de índios naquelas histórias de cowboy — acrescentei e rimos juntos, baixinho, deixando um pouco da tensão de lado. — Mas você estava falando sobre Rio Entre Vales.
— Rio Entre as Montanhas — corrigiu, aceitando minha deixa para não permitir que o assunto caísse em banalidades. — Ele foi para Albuquerque, trabalhar no Instituto de Criações Avançadas que as Almas fundaram lá. A profissão dele é o que chamam de Criadores. Acho que é tipo um cientista.
— Parece interessante. Doc vai gostar dele — arrisquei e ela apenas assentiu, dando a entender que o tal Rio das Montanhas viria mesmo para cá. Pelo menos ele. Soltei um pouco do ar que estava prendendo, aliviado.
— Isso explica por que demorou tanto. Primeiro Logan e Estrela tiveram que ir pra Califórnia, depois pra minha cidade natal. Esse tempo todo Rio Entre as Montanhas estava tão perto... Eu podia tê-lo encontrado antes. Estivemos tantas vezes em Albuquerque nos últimos anos.
— Tem hora pra tudo, amor.
— É, acho que sim.
— E o que mais você já sabe sobre eles?
Mel endireitou o corpo para me olhar e um sorriso sutil, o primeiro do dia, apareceu em seus lábios.
— Rio é bastante progressista, segundo Logan me disse. O nome dele constava nas atas de várias reuniões do Conselho de Albuquerque. Apenas como ouvinte, ou seja, ele não era Conselheiro como David, mas era participante ativo. Tem interesse em se juntar às Forças de Paz.
Sorri em resposta. O prognóstico era bom, ao que tudo indicava.
— Céu é menos ativa nesse sentido — ela continuou. — Parece que se dedica apenas ao trabalho de Confortadora. E ao novo companheiro. Mas não tem filhos. Aliás, Rio também não.
“Bem, uma complicação a menos”, pensei, mas não disse nada, porque sabia que, de certa forma, irmãos biológicos balançariam as estruturas de Melanie tanto quando a deixariam confusa.
— Você está feliz? — perguntei, segurando o rosto dela em minhas mãos.
Mel apenas deu de ombros, mas sorriu de novo, a expressão carregada de expectativas.
— Eles estão a caminho. Vão chegar daqui umas horas — contou finalmente, e o olhar que acompanhou a frase me deu a resposta que eu precisava.
— Jamie já sabe?
— Estrela deve estar no telefone com ele neste momento.
E como se o nome fosse uma invocação, Jamie abriu a porta de nossa casa e entrou sem cerimônias, o celular apertado contra a orelha, trazendo uma Kate confusa e de pijamas a reboque.
— E você acha que eles vão ter problemas em ficar juntos na Casa dos Visitantes? — questionou, mas não deu tempo de resposta à pessoa do outro lado da linha. — Porque um deles pode ficar na minha casa... Aham... Certo. Entendi.
— Diz pra Estrela que a casa dela está arrumada com tudo o que ela escolheu — cochichou Kate, mas Jamie não deu ouvidos, animado enquanto combinava detalhes e se sentava num dos bancos altos da bancada da cozinha.
— O que está acontecendo, hein? — Kate perguntou, acomodando-se ao lado de Mel no sofá. — Jamie me acordou e me trouxe pra cá, mas não desgrudou desse telefone. Só sei que é Estrela porque reconheci uns gritinhos da Lindsay.
— Nossos “pais” estão vindo — Mel simplificou e a garota arregalou os olhos, em choque.
— Hoje!? Ai, meu Deus! Isso é o máximo! — ela exclamou, atirando-se sobre Mel num abraço tão animado quanto alguém poderia estar às 7 da manhã. — Caramba! Eu tenho falado com Estrela todos esses dias, porque me ofereci para ajudar Peg a preparar a casa deles enquanto estavam longe, mas ela não me disse nada.
— Logan só tinha me dito que encontrou as localizações deles — Mel explicou. — Mas ele não quis entrar em detalhes antes de conhecê-los pessoalmente. Eu meio que pedi isso a ele. Não quis que a gente ficasse recebendo informações aos pedaços. Preferi saber tudo de uma vez.
— Foi bom vocês terem combinado isso. Seria impossível lidar com Jamie.
— Não ter notícias é boa notícia, como Tio Jeb costuma dizer.
— Estou tão feliz por vocês — Kate suspirou, apertando as mãos de Melanie. — Você também vai procurar sua família, Jared?
— Minha família são vocês — respondi, sorrindo para a menina. — Estou concentrado em Mel e Jamie agora. Eles precisam de mim. Mas no futuro... talvez. Não sei.
— Eu entendo bem — ela disse, seu rosto jovem ganhando subitamente ares daquela maturidade forjada entre sobreviventes. — Mas acho que você devia, sim.
Então ela me beijou no rosto e foi ao encontro de Jamie, que ainda prendia Estrela a um telefonema inesgotável, abraçando-o por trás e cochichando algo no ouvido dele. Pela primeira vez desde que entrou aqui, meu filho postiço ficou em silêncio, olhou para a namorada e lhe ofereceu exatamente o mesmo sorriso que Mel tinha me dado minutos atrás.
É, estava começando. E eu estaria aqui para passar por tudo com eles. Com a minha família.


quarta-feira, 3 de abril de 2019

Cap 39 CD2


Capítulo 39
O Futuro à Espera

If you told me
Nothing's perfect
Hearts are broken
Nothing's free

I could show you
Why it's worth it
That's the way that it's meant to be

It's too strange
How your life's changed
You know nothing
About the people that you've touched
(Possibilities - Michael Hutchence)

Melanie

— Como estão as coisas? — perguntei a Kyle quando ele deixou Paddy anotando coisas numa prancheta junto com Tio Jeb e veio para o meu lado.
— Eles estão pensando em fazer uma grande rua em formato de U, com as casas ocupando todo este terreno aqui, até o pomar. — Apontou.
Segui a mão dele, tentando fazer cálculos mentais. O terreno parecia bom o bastante, com suas lavouras variadas ladeando um pequeno lago onde se podia pescar. A área reservada para o futuro condomínio continha alguns armazéns e galpões com máquinas que teriam que mudar de lugar, mas Paddy achava que era o melhor local, porque havia espaço para expandir, caso necessário.
Estávamos na antiga Fazenda Stryder, onde meu pai e meus tios foram criados. Eu tinha vindo aqui poucas vezes na infância, e mal me lembrava de alguma coisa, mas Tio Jeb ficou em êxtase quando Logan localizou a propriedade nos registros dos Buscadores e descobriu que ainda havia espaço para nós aqui, desde que não nos importássemos com alguns poucos vizinhos Almas que vinham cuidando das plantações ao redor.
A decisão ainda não estava formalmente tomada por todos os moradores remanescentes das cavernas, mas me parecia bem óbvio que se conseguíssemos ficar juntos seria bom para todo mundo. Então alguns de nós viemos para estudar o terreno e fazer planos que pudéssemos mostrar aos demais. Paddy, que estava passando uns dias conosco, veio com Kyle para oferecer seus serviços de construtor, profissão do Senhor O’Shea que ele também seguiu. Logan, Jared e eu viemos para fazer companhia para meu tio e, enquanto os dois rapazes tinham ido se apresentar aos futuros vizinhos, fiquei para lidar com a animação do velho Stryder.
Cedo demais, porém, o papo sobre inclinação do terreno e coisas assim me entediou um pouco e vim apreciar as árvores mais antigas, tentando me lembrar de alguma coisa de antes. No galho mais grosso de uma delas, havia as marcas de uma corda para balanço, mas assim como minhas memórias eram só traços desvanecidos de um passado em família.
— Paddy disse que hoje em dia dá pra fazer tudo muito rápido. Em dois meses, no máximo, a gente pode vir pra cá — Kyle explicou, orgulhoso da aparente experiência e animação do novo membro da família que planejaria sua própria casa aqui também, ao lado das pessoas com quem sempre desejou estar.
— Parece legal — murmurei de forma meio mecânica e Kyle concordou.
— Seu tio disse que não quer aquelas construções “modernosas” das Almas, mas Paddy acha que consegue adaptar um estilo mais rústico aos confortos da civilização. — Riu. — Saí de lá quando eles começaram a falar sobre mobília. Design de interiores é onde eu traço meu limite — concluiu, fazendo uma careta.
Tentei imaginar a ideia de uma rua comum, com casas dos dois lados separadas umas das outras por pequenos jardins, mais ou menos como era antigamente nos subúrbios como aquele em que morei. Só que a nossa seria como uma rua sem saída, o que deve ter sido ideia do Tio Jeb. Certamente, a casa dele e de Candy ficaria bem no meio, na curva do U, de onde ele poderia ver todas as outras da pequena varanda que construiria à frente.
Não sei se teríamos muros. Quando se passa tanto tempo dividindo todos os espaços e aprendendo a respeitar a privacidade dos outros de forma quase intuitiva, soa estranho traçar limites de concreto. Mas se tivéssemos, eu pediria para morar na casa ao lado da do Tio Jeb, com um portão contíguo que me desse acesso direto. Assim eu poderia ajudar Logan a ficar de olho no nosso velho quando finalmente chegasse o ponto em que a gente precisasse prestar mais atenção.
Tudo bem que Tio Jeb teria como esposa uma Curandeira que, ainda por cima, era uns bons quinze anos mais nova que ele. E que Logan e Estrela provavelmente estariam na casa do outro lado. Mas na Nova Terra todos tínhamos tarefas, às vezes a gente viajava muito... E também tinha a Tia Maggie. Agora que Sharon estava planejando ter os próprios filhos, haveria momentos em que ela estaria ocupada. Tia Magnólia talvez precisasse de companhia...
Passei as unhas sobre o tronco da árvore, pensando no futuro enquanto arrancava algumas cascas meio soltas. A ponta de um dos meus dedos ficou arranhada no processo e tive que parar e encarar os fatos enquanto sugava a gotícula de sangue que tinha se formado.
Ah, merda!
Quem eu estava querendo enganar? Isso era mais por mim do que por qualquer outra coisa. Porque nos últimos tempos eu tinha me dado conta de que não importava que eu tivesse o mundo inteiro para correr fora das nossas cavernas, só queria estar perto da minha família e aproveitar a sorte de conviver com os Stryder que tinham me sobrado. Só para compensar os que eu tinha perdido.
— Como estão as coisas com Paddy? — decidi perguntar, chegando mais perto do ponto que estava me incomodando. — A convivência com você e com Ian e tudo mais?
A intimidade da pergunta não pareceu surpreender, era quase como se Kyle já estivesse esperando por ela. O que era estranho, considerando que minha afinidade era com Ian, que era meu melhor amigo. Mas não estranho de todo.
Meu começo com Kyle tinha sido desconfortável, para dizer o mínimo. Nos primeiros tempos, era difícil falar com ele sem lembrar do peso de sua mão na minha cara, de quando ele espancou Peg. Ao contrário dela, eu não conseguia perdoar e considerar os atenuantes. Mas depois percebi que sua mudança era verdadeira e, não é que tenhamos nos tornado amigos, mas eu adorava Sunny e ele era amigo de Jared, então tornou-se suportável. Depois, com o passar dos anos, a coisa foi se tornando um pouco fácil e agradável do que simples tolerância mútua. E agora estávamos aqui, quase amigos, reconhecendo um no outro a necessidade de proteger nossos familiares. Em especial, nossos irmãos mais novos.
Por isso a pergunta era para ele. Se eu perguntasse a Ian, ia receber o mesmo tipo de resposta que receberia de Jamie.
— Ele quer fazer as retiradas. Acha que é o que queremos, o motivo oculto e real para ele estar aqui.
— Mas vocês já disseram que não querem isso.
— É mais do que não querer. Eu não vou deixar que ele faça isso com a gente. Não vou cometer o mesmo erro duas vezes.
Dava para ver o maxilar dele se movendo por baixo da pele, os dentes trincando naquela expressão séria e raivosa que Kyle fazia quando estava decidido a mandar em todo mundo.
— A Alma no corpo do meu pai ligou para os Buscadores — expliquei. — Tenho certeza de que Trevor Stryder não estava mais ali quando ele nos denunciou. Ou minha mãe, porque ela teria tentado impedir se estivesse, de alguma forma, consciente. Eu tenho certeza de que meus pais nos amavam e mais ainda de que não sobreviveram. Ou não teriam feito isso comigo e com Jamie. Mas Paddy amou vocês desde o primeiro instante. Talvez seja por causa do seu pai — concluí.
Eu sabia que estava em território complicado. E, pior, estava pensando só em mim quando cutucava a ferida de Kyle, sugerindo que o pai dele tivesse sobrevivido à inserção. Mas apesar de saber que o irritaria, eu precisava falar disso com alguém que tivesse a experiência recente de um reencontro. Precisava esmiuçar a questão. E se eu tinha que ferir os sentimentos de alguém, preferia que fosse os de Kyle aos de meu irmão, porque o homem diante de mim tinha sido moldado nesta vida à base do tranco, como eu. Por isso eu achava que ele podia aguentar.
Quando digeriu de fato o que eu disse, ele negou com a cabeça, teimoso, me lançando um olhar quase hostil.
— Eu não sei o que fez algumas pessoas sobreviverem à inserção enquanto a maioria não teve nem chance. A Estrelinha andou pesquisando e veio com uma teoria sobre equiparar os casos de resistência com gente que não consegue ser hipnotizada. Ela diz que a mente de alguns simplesmente não é sugestionável o bastante. Sei lá, mas também não me interessa mais. Porque sei que Paddy não é meu pai. Mesmo depois de tanto tempo, eu reconheceria meu velho debaixo de toneladas de gentilezas de Paddy. Eu não sei por que ele nos ama, ou por que Sunny era apaixonada por mim através das lembranças de Jodi, ou por que Peg se deixou levar pelas suas lembranças... Só sei que eu já passei por isso uma vez. Fiz Sunny sofrer, arrisquei o corpo humano dela e feri os sentimentos que ela já tinha, tudo por causa de uma esperança que não deu em nada, a não ser em uma segunda morte de Jodi pra mim. Eu gosto de Paddy. Não vou deixar que ele passe por isso, porque o corpo é dele agora. Além disso, ele precisa entender que não vou perder meu pai outra vez. Fim de papo.
— Ian concorda com você... — falei, mas não era bem uma afirmação, muito menos uma pergunta.
— Sim, ele concorda. Mas Ian respeita Paddy demais para impedi-lo de fazer alguma coisa. Já eu, se precisar injetar uns anestésicos nele, colocar o cara em coma e depois mentir que fizemos as retiradas para Paddy sossegar, eu faço isso. Embora prefira não ter que chegar a esse ponto.
Eu entendia completamente. Mais fácil do que entendia a posição de Ian.
Pensei no que eu tinha ouvido de Jamie.
“Se nossos pais não quiserem fazer as retiradas por nós, não podemos fazer nada a respeito. Se quiserem, vamos respeitar a vontade deles também. Não é tão complicado, Mel.”
Só que era.
Primeiro, que eles não eram “nossos pais”. Eram só dois estranhos sobre cujos sentimentos não sabíamos nada. Até na linguagem, Jamie demonstrava que tinha dificuldade em fazer a distinção. Por isso eu não era capaz de prever o que um encontro com essas pessoas podia fazer com os sentimentos do meu irmão. Nem mesmo com os meus, para falar a verdade. E embora Jamie já fosse um adulto, eu ainda sentia necessidade de defendê-lo, porque, nesse aspecto, ele ainda era aquele menininho que tinha perdido os pais.
— Você acha que Ian pode estar certo? — arrisquei. — Quer dizer, se Paddy está disposto, que mal há dar essa chance ao seu pai? Com Logan não deu certo, mas... Cada pessoa é tão diferente da outra. Sei lá.
Kyle deu uma risada que mais parecia um grunhido. Depois chacoalhou a cabeça e respirou fundo, como se estivesse se preparando para explicar algo difícil a uma criança.
— Ian já passou por muita merda nesta vida. E ele precisa da ilusão de que se mantém justo apesar de tudo. Então tudo bem, eu sujo as mãos por ele, até porque todo mundo já espera isso mesmo. Mas se ele não está preparado para contrariar a vontade de Paddy, todo preocupado em agir em nome do respeito, também não está preparado pra passar pelo que eu passei com Sunny. Mesmo se estiver, eu posso e quero protegê-lo disso e estou aqui para evitar que ele e Paddy sofram. Além do mais, John já está apegado ao novo avô. Alguém tem que pensar nisso, e Peg e meu irmão são gentis demais para esfregar essa verdade na cara do Paddy. Eu não sou.
— Entendo — falei vagamente. — Acho que você tem razão em muita coisa.
— Acha!? Pode apostar que sim!
— Aham. — Tentei sorrir, o que deve ter sido um tremendo de um fiasco, porque Kyle me sondou sério, inclinando a cabeça como se estivesse estudando um enigma.
— O que está realmente te incomodando, Mel? Não é a vida da minha família, disso eu sei.
Expirei, já meio vencida. Não adiantava mentir, adiantava? Arranquei uma folha da árvore, torcendo-a entre os dedos para ganhar um segundo antes de ser sincera.
— Jamie quer procurar “nossos pais”.
— Certo — ele respondeu, paciente e impassível. — E você não acha uma boa ideia.
— Dã! Você acha?
— Não tenho muita moral para opinar. — Deu de ombros.
— Essas pessoas... Nem todas as Almas serão como Paddy. Talvez eles nem queiram vê-lo. E ele pode dizer o que quiser, pode bancar o tolerante e maduro o quanto for, mas vai ficar decepcionado.
— E você também.
Lancei-lhe um olhar mal-humorado. É claro que eu ficaria. Meu coração não era de pedra, pelo amor de Deus! Mas aquilo não era da conta de ninguém.
— Não importa, eu me viro com isso. Só estou pensando no meu irmão.
— Jamie é adulto, Mel.
— Ian também! Paddy também! Jamie é um bebê perto deles —explodi. — Mas não faz nem dois minutos você estava aí discursando sobre controlar a vida deles, porque só você sabe o que é bom para os dois. Aí quando é a minha família você me vem com essa? Pimenta no dos outros é refresco agora?
— Calma — ele pediu, erguendo as duas mãos em rendição e gargalhando. O filho da mãe teve a ousadia de gargalhar. — Eu não disse que discordava de você. Só estou dizendo que não acho que você vai conseguir impedir o Jamie por muito tempo, se ele estiver mesmo resolvido.
— Ah, tá. Ajudou muito — bufei.
— Não sabia que você estava pedindo ajuda pra alguma coisa.
— Não estou.
Aquela conversa já tinha dado o que tinha que dar. Mas então Kyle riu outra vez e eu percebi que ainda tinha como eu ficar mais nervosa.
— Nessas horas parece mesmo que você e Logan são mesmo primos. Aposto que você está aí se segurando pra socar alguma coisa, não está? — ele provocou, se pendurando num galho alto e fazendo um punhado de flexões exibicionistas antes de soltar o próprio peso no chão e se sentar sob a árvore. — Senta aqui, vamos conversar de verdade.
— A gente estava brincando até agora? — Para a sorte dele, não respondi à pergunta sobre querer socar alguma coisa.
— Senta logo.
Revirei os olhos irritada, descrente e, ao mesmo tempo, curiosa. Por causa dessa última parte — e também porque não tinha nada melhor para fazer — acabei me sentando.
— Eu ajudaria você com os efeitos colaterais. Jared também, claro. Caramba, vocês são praticamente os pais do Jamie! É claro que têm que cuidar dele. Mas, sinceramente, não sei se dá pra evitar a bomba. Nas duas vezes em que fiz o que fiz, eu precisava ter feito, tanto com Sunny quanto com Paddy.
— Sua teoria então é que Jamie precisa sofrer? — A pergunta soava cínica, eu sabia, mas não era completamente. Naquele ponto, já que eu não estava dando conta do assunto sozinha, eu não tinha muita saída a não ser deixar minha teimosia se curvar à lógica de outra pessoa.
— Minha teoria é de que você escolheu uma certeza muito desconfortável, mas segura de que não existe chance de haver uma relação entre você e aquelas Almas. Só que Jamie era criança demais para concluir qualquer coisa sozinho. Agora que ele tem maturidade para fazer isso, vai precisar de respostas.
— E se eles realmente não quiserem saber de nós?
— Alguns sofrimentos a gente consegue evitar, outros não.
— Pimenta no dos outros... — comecei, mas não estava mais brava.
Kyle riu outra vez.
— Não é assim, não, Melanie. Vai por mim. A verdade é que você nunca sabe realmente o que vai acontecer. Não tem como. Eu sei que você não quer ter esperanças, mas se tudo der errado, todo mundo vai estar aqui pra vocês. E se der pra tirar alguma coisa boa da experiência... Bom, é lucro, não é? Ou você realmente acha que tem como ficar pior do que já foi?
Com uma sobrancelha erguida, Kyle me desafiava à razão. Encarei-o com o cenho franzido, meio angustiada, meio surpresa por ele estar tão certo. Depois de um momento, desviei os olhos e voltei a olhar a imensidão da antiga fazenda Stryder.
— Como foi quando você conheceu Paddy? — perguntei, voltando a olhá-lo brevemente.
— Esquisito.
— Posso perguntar como?
Ele soltou um suspiro alto, mas não era exasperação, era mais como o esforço de articular ideias.
— Eu já tinha passado por aquilo antes, conhecia as armadilhas. Mesmo assim, quando cheguei, ele estava abraçado com Ian e eu não consegui evitar a ilusão, sabe? Era meu pai. A imagem, a sensação quando eu o abracei também, o som da voz dele. Só por uns segundos, eu me permiti isso. Depois você vai notando as coisas pequenas. Uma palavra ou uma frase que a pessoa não usaria, um gesto... Então eu me forcei a não ficar bravo com essas coisas, porque quando era com Sunny, eu detestava! Estava sorrindo e brincando com ela, quando de repente me dava conta de que não era daquele jeito que Jodi reagiria e ficava com raiva, me fechava, deixava Sunny confusa por besteira. Com Paddy, eu prometi a mim mesmo que não faria isso, que se tivesse que perder a paciência, que fosse com alguma coisa que ele fizesse, e que se tivesse que apreciar alguma coisa, que não fosse o quanto ele parecido com meu pai.
— E você conseguiu?
— Bom, você conheceu o cara? É bem difícil não gostar dele.
Sorri. De fato, Paddy era adorável. A mesma mansidão de Sunny e o comedimento de Peg, mas filtradas por aquele jeito paternal de acolher todo mundo que quase me fazia lembrar do tio Jeb.
— E a parte esquisita? — perguntei.
— Paddy tinha que trabalhar na limpeza da cidade naquele dia. A gente foi junto, até o John. Varremos umas folhas com ele e mais nada. Os caras nem sujam a rua! — Kyle brincou e nós rimos, sabendo que era verdade. — Em pouco tempo, a gente estava na casa dele... Na nossa casa. E estava tudo diferente, tecnológico, as paredes pintadas de outra cor, outros móveis em arranjos diferentes... Foi até fácil estar ali e separar as coisas na minha cabeça. Era a casa do Paddy, ponto. Um esforcinho e eu conseguia ignorar o fato de que era a casa da minha infância. Então Ian começou a explicar a John que Paddy era seu avô, aí foi quando a coisa complicou.
— Como?
— Não por John, é claro. Você sabe que o conceito dele sobre família e parentesco tem mais a ver com afeto do que com genética. O moleque está acostumado a chamar todo mundo de tio, tia, avô... Paddy também se comportou da melhor maneira possível. Tipo, dava pra ver que ele queria esclarecer que ele mesmo não era o avô, e sim meu pai, mas deixou Ian e Peg conduzirem a conversa e entendeu rápido que era cedo para uma explicação tão complicada. Ele se emocionou quando John o abraçou, foi aquela cena linda do menino fazendo carinho no rosto dele e eles se reconhecendo... Caramba, até eu quase desmontei tudo de novo! Mas aí o John me veio com essa de “Ah, papai, então você e o tio Kyle moravam aqui? Paddy é seu papai? Posso olhar onde vocês dormiam?” E pronto. A droga do quarto estava exatamente igual. Exatamente! As fotos, as flâmulas ridículas de times de beisebol, o troféu de basquete do Ian no Ensino Médio, meu capacete de futebol, tudo! O quarto era uma porra de um santuário!
—Ai, droga.
— É. Droga.
— Entendi agora a parte esquisita.
—Paddy reformulou a casa inteira. Ele tinha uma autêntica vida de Alma, com amigos, passatempos idiotas e obrigações. Mas tinha aquela parte da gente guardada numa bolha. Esse tempo todo, ele nunca nos deixou ir embora de verdade.
— Hum, ele deve ter ficado constrangido... — murmurei solidária e com um pouquinho de inveja. — E eu entendo que não pensar nele como seu pai deve ter sido difícil depois disso.
Kyle não respondeu. Só deu uma risada estranha que parecia mais como se ele estivesse engolindo uma lufada de ar.
— A gente foi pro hotel logo depois — continuou contando. — Quer dizer, ninguém disse explicitamente, mas ficou meio óbvio que nós três precisávamos respirar, embora Paddy tenha ficado inseguro. Acho que mesmo deixando endereço, números de telefone e tudo o mais, ele ficou com medo de que a gente não voltasse, mas não perguntou nada, só deixou a gente ir naquela hora. Ficou quietinho, sem fazer pressão nenhuma, sem perguntas. Só que aí no dia seguinte, eu acordei cedo com o telefone tocando. Era ele me perguntando se eu me incomodava que ele viesse passar uns tempos aqui. Que já tinha falado com Ian, mas queria saber o que eu achava.
— E o que você respondeu?
— O que eu podia responder? “Arrume as malas, te pego em duas horas.” E aqui estamos.
— Você se arrepende?
Kyle olhou direto nos meus olhos, sério e definitivo como um ataque do coração.
— Nunca.
— Hum.
— Sério!? “Hum”é o que você tem a concluir?
— Não vai ser assim comigo e com Jamie.
— Certo. E você sabe disso por causa das inúmeras vezes em que passou pela experiência antes.
Olhei para ele com olhos estreitos e uma careta disfarçada de sorriso cínico.
— Haha.
— Acho que você está com medo de encarar os riscos.
— Ah, não brinca! — retruquei e Kyle riu da minha cara de novo. Ficar irritada com ele parecia que só piorava as coisas. — Tá, eu estou com medo de encarar os riscos. Dá pra me censurar?
— Não, não dá. Mas uma coisa que todos nós aprendemos quase que na marra é que o medo nunca impediu Melanie Stryder de fazer o que era preciso.
Dei um meio sorriso, sem querer admitir totalmente o quanto ouvir aquilo me fazia bem. De todas as pessoas, era uma verdadeira maluquice que eu tivesse procurado justamente Kyle. Mas mais impressionante ainda era o quanto essa parecia ter sido uma decisão acertada.
— Vou fazer o que for preciso — admiti, encarando o horizonte à nossa frente.
— Eu sei — ele disse, dirigindo o olhar para a mesma imensidão.
— Só preciso de um tempo, eu acho. Um tempo para me preparar.
— É, também sei disso.
Não nos preocupamos em dizer mais nada depois. Apenas ficamos ali, contemplando aquele lugar onde passado e futuro pareciam unir suas pontas.




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