terça-feira, 12 de junho de 2018

CD2 - Cap 29


Capítulo 29 — De Esperança e Dor

The door is open to go through
If I could I would come, too
But the path is made by you
As you're walking start singing and stop talking
Oh, if I could hear myself when I say
(Oh love) love is bigger than anything in its way
So young to be the words of your own song
I know the rage in you is strong
Write a world where we can belong
To each other and sing it like no other
(Love Is Bigger Than Anything In It’s Way – U2)

Doc

            Sharon acha intrigante a minha maneira de ver o mundo.
            É bonitinha, ela diz, o que é um adjetivo estranho para uma mulher como ela.
            Um furacão. Uma ruiva explosiva, no melhor e no pior sentido.
            No mundo de antes, talvez ela não perdesse dois segundos comigo, porque eu sou aquele cara em quem ninguém nunca repara por mais tempo do que isso.
Não chega a ser um problema, porque estou acostumado. E também não é que eu seja um sujeito totalmente desinteressante. Já me disseram que sou cínico demais para ter baixa autoestima. Portanto essa não é um tipo banal de constatação autodepreciativa.
É só o jeito como as coisas são.
Somos diferentes, as pessoas. E eu gosto de observar essas diferenças. Observo, tiro conclusões, catalogo em minha mente. Acho que cheguei a uma boa noção de como as coisas funcionam fazendo isso. Por esse motivo tenho um respeito saudável pela agressividade natural de cada um, pela maneira como os indivíduos encaram suas paixões, suas perdas e frustrações. Na maior parte do tempo, tento não interferir nas decisões de ninguém e reservar meus julgamentos para quando são requisitados.
Essa é a parte que Sharon acha “bonitinha”. Do ponto de vista dela, eu sou paciente e sei lidar com os outros de forma empática. Palavras da bela ruiva que eu simplesmente aceito de bom grado, tentando não ficar muito envaidecido para não estragar a boa impressão. Porque nesta nova realidade eu sou o tipo de homem por quem ela se interessou e na vida toda, aparentemente, essas são qualidades que ela aprecia muito.
Entenda, Sharon era professora de crianças no mundo de antes. E continuou exercendo essa vocação em nossa célula. Primeiro com Jamie, Kate, Isaiah e Liberdade. Depois com os pequenos John e Lindsay, na medida do que a pouca idade deles permite. Empatia e paciência são, portanto, condições que ela considera sine qua non [1] para um ser humano de respeito.
Pouca gente sabe disso, porém.
Porque ela acabou criando para si uma carapuça impenetrável de mulher furiosa e inacessível. Uma defesa que as circunstâncias da vida fizeram parecer necessária. Mas é uma capa destacável. Prova disso era que estávamos juntos ali, à espera de seres que ela tinha passados a década vendo como inimigos.
— Eles parecem amigáveis — comentou nervosa enquanto ajeitava repetidamente os óculos escuros, nossa tática para reduzir o impacto de nossos olhos humanos sobre os amigos de Logan.
— Fique calma, Shar. Temos tudo sob controle.
— Temos? — ela perguntou com aquele jeito provocativo que, por minha vez, sempre achei tão atraente.
Mesmo naquela situação, a capacidade que Sharon tinha de, com um palavra ou um olhar, me fazer questionar o que acreditava ainda era muito mais interessante do que o conforto das certezas. Então apenas sorri em resposta e segurei firme a mão dela.
Observei-os de longe, descendo do carro com Logan. Uma jovem negra e um senhor oriental com aquele típico ar venerável de filmes de artes marciais. A claridade da tarde batendo em cheio em seus rostos me impediu de sondar suas expressões, mas fiquei imaginando o que eles viam em nós também, ali do outro lado. Que tipo de expectativas tinham? Era muito difícil teorizar àquela altura.
Obviamente, embora não conhecessem seus interlocutores, David e Flora não estavam alheios ao assunto que os trouxera até ali. Houve uma conversa prévia com Logan, conforme combinamos, mas ainda assim estávamos bastante nervosos com o modo como tudo transcorreria quando soubessem que éramos humanos.
Parecia loucura que estivessem vindo às cegas a um encontro no meio de uma estrada rural, à beira de uma plantação por onde poderíamos desaparecer rapidamente por uma rota pré-traçada e nos encontrar com Jared e Brandt do outro lado para fugir. E onde também se escondiam, a uma distância segura e em pontos diferentes, Lily e Jamie, devidamente armados com as pistolas de paralisium com que Logan os treinou. Mesmo assim, eu podia entender por que eles não tinham sido capazes de vislumbrar perigo algum.
Porque, exatamente como nós, confiavam em Logan.
Essa ao menos era outra coisa que tínhamos em comum e talvez devesse ser um motivo para não nos preocuparmos tanto. Ainda que eu pudesse adivinhar os olhares tensos de Lily e Jamie, sentir o suor que empapava a mão de Sharon na minha e a gagueira que ameaçava tomar minha voz.  
Foi consenso que não deveríamos dar a eles um aviso prévio de com quem estavam lidando. Por mais que Logan e Estrela confiassem nos dois, nós ainda precisávamos, naquele ponto, do pouco senso de segurança que o elemento surpresa fornecia, dando-nos uma ilusão de vantagem.
No entanto, eu começava a questionar se aquela tinha sido mesmo a melhor estratégia.
Como falar de confiança, da possibilidade de igualdade, enquanto víamos a nós mesmos em uma posição tão diferente dessa?
            Finalmente, a alguns passos de nós, pude olhá-los bem e perceber que David sorria inocentemente, enquanto Flora parecia intrigada, olhando de nós para Logan. Então tudo aconteceu ao mesmo tempo.
Por um milésimo de segundo, ela parou e ele continuou seu movimento, a mão estendida em nossa direção, em cumprimento. Sharon moveu-se instintiva e milimetricamente para trás, como se achasse que algo naquele gesto pudesse representar perigo. Flora pousou a mão no braço de David, abaixando-o suavemente.
— Não queremos assustar vocês — disse em um tom quase maternal.
O cenho de David franziu-se em confusão, mas em seguida os óculos que usávamos chamaram sua atenção e, antes mesmo que eu tivesse a chance de tirar os meus, vi que ele também tinha entendido o que éramos.
— Humanos — murmurou. — Como...?
— Meu nome é Eustace Miller — despejei, surpreendendo a mim mesmo também. — Mas no mundo de agora todos me chamam de Doc.
Recebi um breve olhar de censura de Logan e sabia, mesmo sem ver, que Sharon devia estar furiosa comigo por contrariar os nossos planos e dar meu nome real. Queríamos que eles soubessem o mínimo possível sobre nós, mas ali, diante dos dois, eu simplesmente não conseguia vislumbrar uma conversa honesta que começasse com uma falsa apresentação, com uma mentira tão básica e ainda assim tão definidora.
De alguma forma, senti que Logan concordava comigo quando veio para junto de mim e bateu de leve no meu ombro. Esse gesto de confiança me deu segurança e, olhando diretamente para David, foi minha vez de estender-lhe um cumprimento que ele correspondeu sem nenhuma hesitação visível.
— Ah, um médico — ele disse. — Eu também já fui um. Quer dizer, David Yoshida era. Mas no mundo de agora, como você disse, pode me chamar apenas de David. Eu sou um Conselheiro, assim como meus dois amigos aqui. Sou um Representante também. Cuidamos do bem comum, por assim dizer.
— Sim, eu sei. É um prazer conhecê-lo, David — respondi. — E a você, Flora. Como vai?
Flora sorriu para mim e aceitou a mão que eu lhe oferecia com curiosidade acentuada. Então ela olhou para Sharon, à espera de alguma reação que não veio naquele momento.
            — É muito bom conhecê-los — falou empolgada de qualquer forma. — Mas... como...? Como foi que Tempestade Solar encontrou vocês?
            — Logan — ele corrigiu. — Meu nome é Logan. E essas pessoas têm sido nossos amigos... Nossa família há muito tempo.
            — “Nossa”? — ela questionou, sem deixar que o plural lhe escapasse.
            — Sim. Há outros deles e outros de nós vivendo juntos — expliquei. — Somos uma família grande. Logan e sua esposa foram os últimos a chegar, mas têm nos ajudado a sobreviver com dignidade. E tenho orgulho de dizer que ajudei a trazer a pequena Lindsay ao mundo.
            — Mas isso é simplesmente fantástico! — Flora vibrou.
            Ouvi Sharon suspirar e senti que a tensão estava quebrada, talvez pela jovialidade da menina, talvez pela agudeza óbvia da familiaridade com as Almas que eu havia mencionado. De qualquer jeito, ela se aproximou.
            — Perdoem meu comportamento — pediu. — Não queria fazer parecer que estava com medo. Só estávamos nervosos com a reação de vocês.
            — Nós entendemos. Vocês não são os primeiros humanos que conhecemos, claro, mas todos os outros são nascidos em nossas comunidades. Então também é bem estranho para nós — disse Flora, se aproximando de Sharon como uma criança curiosa, destemida e vagamente sem critério. — Seus olhos são lindos!
            — Obrigada — ela respondeu um pouco sem graça, mas inteiramente desarmada pela espontaneidade inocente da menina. — Eu... Nós tínhamos muito a dizer, mas francamente já não sei por onde começar.
            — Então permita-me, senhorita — disse David com uma cortesia que pareceria meio exagerada para qualquer um, mas para ele servia como uma luva. — Nós gostaríamos de retribuir a confiança que estão nos depositando. Por isso podemos começar pela garantia de que não perguntaremos nada além do que quiserem revelar. Estamos aqui para ouvir. E se no final dessa conversa vocês decidirem partir para longe de nós, recebam a nossa palavra de que jamais os procuraremos.
            — Ah, mas, por favor, não façam isso! — pediu Flora, me lembrando perfeitamente a forma como Jamie Stryder conseguia as coisas. David riu.
            — De fato. Seja lá o que for que viemos fazer aqui, desejamos que não seja a última vez que nos vemos, porque tenho a sensação de que o motivo de nos encontrarmos é porque temos projetos semelhantes para o futuro, não é mesmo?
            — Logan nos disse o que os Representantes pretendem. A evacuação em massa, segundo decisão dos humanos — esclareceu Sharon. — É incrível imaginar que isso seja possível, mas ajudou a mudar meu ponto de vista. Pela primeira vez em muito tempo, eu pude voltar a desejar a liberdade. — Então ela se virou para mim e sorriu, lembrando uma conversa que tivéramos tempos atrás. — E filhos. Esse mundo que consigo imaginar torna possível acreditar nisso. Nossa esperança é conseguir uma forma dessa mudança de perspectiva acontecer com outros resistentes também. Tanto do nosso lado quanto do de vocês.
            — Entendo que provavelmente vocês acharam que tinham que nos convencer, mas já estamos convencidos — argumentou David. — Apenas nos faltava a certeza de que os humanos, em especial os resistentes, estavam abertos ao diálogo. Contudo, senhorita, temo que da mesma forma que Flora e eu não podemos falar por todos de nossa espécie, vocês também não podem falar pela de vocês.
            — Talvez não — intervi. — Mas precisamos começar de algum lugar. A invasão, a perda de nosso mundo e de nossos entes queridos é uma ferida aberta, não podemos negar. Porém é fato consumado. É preciso agora lidar com o que nos restou e o que nos resta é o futuro. Continuaremos como fugitivos ou tentaremos restaurar a paz?
            — Colocada assim, a questão é muito lógica — observou Flora. — Mas essa visão é racional demais, não combina com as atitudes passionais que aprendemos aqui. Nós não conhecíamos o ódio, a culpa, o medo, mas agora compreendemos a violência desses sentimentos. Os humanos nos odeiam, por isso muitas Almas sentem medo.
            Sharon se retesou, do jeito que fazia quando estava procurando as palavras certas e não encontrava, e pude sentir a frustração da qual eu mesmo compartilhava, porque simplesmente não havia a coisa certa a dizer ali. Flora tinha razão, havia muito medo e ódio entre nós.
            Tínhamos ensaiado aquela conversa dezenas de vezes com Peg e Estrela, tentando imaginar o que dizer a respeito de cada objeção que pudesse ser levantada. Mas a questão era que, por mais que tentassem, as Almas aculturadas não podiam compartilhar da perspectiva daquelas que conheciam os humanos apenas como inimigos. Por isso, como nas nossas inúmeras conversas anteriores, estávamos de volta ao mesmo beco sem saída onde sempre acabávamos e de onde nunca conseguíamos escapatória.
Como em todas as outras vezes, diante da objeção mais previsível de todas, estávamos subitamente sem argumentos.
— Não estamos dizendo que não seja possível — emendou David, a título de consolo. — Apenas que há uma jornada longa a ser galgada com pequenos passos. Mas estamos juntos nela.
— Não é impossível — disse Sharon. —  O ódio... Ele existe, mas pode ser superado.
— É nossa grande esperança também — concordou David. — Mas as outras Almas...
— Eu odeio vocês — ela o interrompeu, e todos os olhos se arregalaram na direção dela, exceto pelos de David, que se tornaram ainda mais compassivos do que antes, como se de algum jeito pudesse compreender muito bem. — Mas... — Sharon fungou, lágrimas se adivinhando em sua voz. — Não é como... Não é uma declaração de guerra, entendem? Deixem-me explicar.
Até eu, que estava acostumado aos arroubos de Sharon, fiquei surpreso pelo caminho que ela escolheu, mas de alguma forma David parecia tentar acompanhá-la.
— Estamos ouvindo, criança — ele disse baixo e respeitosamente.
— Sim, queremos entender — confirmou Flora.
Sharon respirou fundo outra vez e se preparou. Sem saber o que fazer, Logan e eu apenas esperamos.
E talvez — não que eu fosse admitir isso para ela — uma pequena oração pelas causas impossíveis tenha me voltado subitamente à memória.
— Quando vocês começaram a chegar, meu tio percebeu que havia algo estranho, algo a ser temido. Bem, vocês não podem negar que... — Sharon esfregou as costas da mão no nariz, depois limpou uma lágrima fujona, respirando um pouco para firmar a voz. — Não dá pra negar que ele tinha razão, embora quase ninguém tenha acreditado. Ele é um homem muito excêntrico, meu tio. Diferente. Os humanos não confiam no diferente.
“É o irmão da minha mãe, ela o ama e eu também, mas eu estava no que parecia o auge da minha vida, preocupada com inúmeras outras coisas, construindo meu futuro, então... Certo, ele nos alertou. Minha mãe queria acreditar, mas meu pai estava cético e eu também. Percebíamos as estranhezas, mas simplesmente era mais fácil achar que meu tio estava louco e que nossa própria imaginação tinha sido contaminada por ele, que ia ficar tudo bem se parássemos de procurar algo errado. Então nós ficamos tempo demais cegos pelo conforto de nossas certezas, até já ser muito tarde...
Segurei a mão dela, todavia ciente de que nada seria o bastante para amenizar a dor daquelas lembranças, porque agora eu entendia aonde ela queria chegar.
Para mim tinha sido muito fácil. Jeb era meu único amigo de verdade. Eu fui com ele sem hesitar, porque não tinha nada de importante para deixar para trás.
Um consultório de cidade pequena, umas idas ao bar para satisfazer um gosto nocivo por álcool que eu tentava controlar, mas que de vez em quando me permitia, um casamento desfeito e alguns conhecidos. Essa era minha bagagem. O que me impedia de “empacotar” tudo e ir numa aventura, mesmo que não desse em nada?
Mas então eu vi.
A Sra. Fowley, minha paciente mais antiga e que tinha se resignado a um diagnóstico de linfoma em seus estágios finais. Em um dia eu estava lidando com a ideia de que em menos de um mês provavelmente estaria em seu velório. E no outro, a velhinha esbanjava disposição fazendo exercícios no parque.
Não resisti e quis falar com ela, cheguei mesmo a vislumbrar o brilho prateado em seus olhos, mas Jeb me impediu, dizendo que devíamos fugir de qualquer interação que não fosse indispensável. Eu não soube bem o que pensar na hora, mas naquela noite mesmo, me vi dentro de um furgão com Jeb e outros “loucos” partindo para o deserto. Depois disso, quanto mais eu me distanciava da vida de antes, mais suspeita ela me parecia, até que não houve mais dúvidas.
Para Sharon, no entanto, o processo tinha acontecido de forma abrupta e violenta.  E ela tinha guardado o veneno indissolúvel disso.
— Meu pai e eu não conseguíamos mais negar que havia algo errado — continuou. — Todo mundo estava se comportando estranho e os sinais estavam por toda parte, acordos para a paz mundial e coisas assim. — Ela riu amargamente da ironia. —  Minha mãe insistia que devíamos ir encontrar meu tio e nós finalmente concordamos. Acho que os vizinhos desconfiaram da movimentação estranha e nos convidaram para um jantar. Vizinhos com quem mal falávamos! Meu pai garantiu que estaríamos lá em algumas horas, mas em vez disso nós fugimos imediatamente.
Os olhos dela estavam vermelhos e outra lágrima fujona correu por seu rosto atormentado. Pouquíssimas vezes eu a tinha visto assim e a primeira foi quando me contou aquela história. Exatamente nesse ponto, se muito não me engano. Passei meus braços em torno dela para sustentar parte de seu peso e tive vontade de enxugar a lágrima, mas sabia que ela não gostaria que eu fizesse isso.
Gestos de carinho a comoviam e a deixavam vulnerável. E ela não gostava que a vissem assim. Por isso eu sabia o quanto estava sendo difícil contar aquilo a Logan e a dois estranhos, ainda que tão gentis.
— Nós estávamos assustados e meu pai pisou fundo no acelerador. Aquilo atraiu a atenção de outros motoristas, que agora eu sei que eram Buscadores, e fomos perseguidos por um bom trecho de estrada. A gente conseguiu ganhar um pouco de distância e achamos que tínhamos despistado quem nos seguia, mas ainda estávamos muito rápido e então... Não sei explicar como, meu pai perdeu a direção e o carro capotou — ela disse de um jeito comovido, as lágrimas que não permitia que corressem embargando sua voz. — Eu não sei o que aconteceu, que tipo de milagre... só sei que minha mãe e eu mal nos ferimos. Mas meu pai... ele ficou preso nas ferragens. Vivo e consciente, mas estava com tanta dor! Tinha muitos cortes e a perna presa sangrava demais. Minha mãe e eu tentamos tirá-lo dali, mas os outros carros estavam se aproximando, dava para ouvir o barulho. Mas a gente não podia sair, não podia!
Finalmente a represa cedeu e as lágrimas começaram a correr de verdade. A voz de Sharon falhou e as pernas oscilaram um pouco, confiando o peso do corpo dela a mim, que a segurava. Achei que ela não conseguiria prosseguir daquele ponto e decidi terminar aquela tortura. Que ela brigasse comigo depois, se achasse devido, mas eu não suportava mais vê-la se esforçar para pôr para fora lembranças que a machucavam tanto.
— Pelo que me descreveram, a artéria femoral dele estava lesionada — expliquei no lugar dela. — A hemorragia era impossível de conter e ele teria morrido de qualquer jeito. Mas as duas não conseguiam deixá-lo.
— Ele tinha uma arma. Minha mãe tapou meus olhos quando entendeu. Mas eu ouvi. O grito dela. Eu ouvi tudo.
Sharon estava chorando muito agora. Logan tinha baixado os olhos e Flora tampava a boca com as mãos como se segurasse um grito.
Como homem do campo acostumado ao abate de animais, Seth, o pai de Sharon, sabia o que aquele ferimento significava. Então ele tinha entrado em desespero e tirado a própria vida para que ela e Maggie pudessem ganhar minutos preciosos e fugir sem se preocupar em deixá-lo para trás. E ele tinha conseguido. Aquela atitude salvou as duas. Mas tinha também transformado seus corações de uma forma perturbadoramente inegável que eu ainda me esforçava para entender em sua totalidade.
— Sinto profundamente por sua dor — David se aproximou e segurou uma das mãos de Sharon. Ela não se negou ao contato. Em vez disso, levantou o rosto enterrado em meu ombro e olhou para ele.
— É isso que eu quero dizer — pronunciou com a voz entrecortada. — Eu nunca achei que isso fosse possível — ela indicou as mãos juntas. — Na minha cabeça, as Almas destruíram minha família. Mas no meu coração, eu sei que não foi o senhor, ou Flora, ou Logan ou nenhuma outra. Sei que nenhum de vocês queria que isso acontecesse comigo.
— Não. De jeito nenhum! — Flora admitiu. — Eu faria qualquer coisa para evitar se pudesse.
— Eu sei. Agora eu sei. Não conheço você, mas conheço Logan e sei o que ele fez para salvar a vida do meu tio. Talvez um dia ele conte. E o que a esposa dele fez por um amigo e pela Alma que salvou minha prima. O que outras Almas que conhecemos fizeram e fazem. Eu nunca admiti isso — Sharon sorriu para Logan e ele retribuiu —, mas nunca conheci seres mais propensos à empatia e dispostos ao sacrifício. Levou tempo para que eu conseguisse acreditar que a linha entre inimigos e amigos não existia mais, mas eu entendi. Eles tiveram paciência de me esperar compreender e agora posso retribuir explicando aos outros também. Mesmo que leve tempo.
— Tempo — murmurou Flora. — Fico imaginando quantas feridas podíamos ter curado se tivéssemos pensado em tudo isso antes. Quanta fome podia ter sido saciada! É inadmissível que haja sofrimento em um mundo onde há fartura e boa vontade. Mas creio que boa vontade seja um processo que estabelece seus próprios prazos, não é?
— Creio que sim — Sharon sorriu de um jeito tristonho. — Mas às vezes só o que é preciso para dar o primeiro passo é conhecer quem está do lado oposto da estrada. É o único jeito de não termos medo. Ou ódio — completou. — A propósito, meu nome é Sharon Stryder Jones. E estou muito feliz em conhecer vocês. Também espero que não seja a última vez.
— Se é de sua vontade, Sharon Stryder Jones, e da sua, Doc, não será. Estamos cientes de que haverá percalços, tropeços e até mesmo perdas, porque nem todos compreenderão rapidamente — David declarou. — Contudo, não podemos mais admitir um mundo apartado dos humanos, não podemos nos conformar com seu sofrimento. Por isso vale a pena lutar. E daqui para frente, vocês têm mais do que aliados. Têm amigos. Podem nos considerar como os novos integrantes da sua grande família.
Nós sorrimos uns para os outros, esperançosos. E meus dedos finalmente secaram as lágrimas no rosto daquela mulher tão vulnerável quanto resiliente. Tão teimosa quando podia ser inteligente quando seus ideais mais profundos eram postos em xeque.
Por um tempo, continuamos conversando até o momento em que Lily e Jamie se juntaram a nós quando Logan os chamou pelo celular, para surpresa e agrado de David e Flora. Uma hora depois, sentados no chão de terra porque estávamos cansados, Jared e Brandt, desconfiados, mas dispostos, atenderam ao nosso chamado e vieram também. Quando a tarde se punha, concordamos que ainda havia muito a dizer e prometemos que voltaríamos.
De fato, aquela foi a primeira de muitas vezes.



[1] Expressão em latim que significa “sem a qual não pode ser”.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

CD2 - Cap 28


Capítulo 28 – Um Pequeno Passo

There comes a time
When we hear a certain call
When the world must come together as one
There are people dying
Oh, and it's time to lend a hand to life
The greatest gift of all
(...)
We are the world
We are the children
We are the ones who make a brighter day, so let's start giving
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day, just you and me
(We Are the World – USA for Africa)

quinta-feira, 8 de março de 2018

CD2 - Cap 27


Capítulo 27 – Limites Rígidos, Limites Brandos,

I'll be there for you
These five words I swear to you
When you breathe I wanna be the air for you
I'll be there for you
I'd live and I'd die for you
I'll steal the sun from the sky for you
Words can't say what love can do
I'll be there for you
(I'll be there for you – Bon Jovi)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

CD2 Cap 26


Capítulo 26 – Sobre Decidir Quando Sair do Paraíso

Oh, think twice
Cuz it's another day for you and me in paradise
Oh, think twice
Cuz it's another day for you
You and me in Paradise

Think about it
(Another Day In Paradise – Phill Collins)

Jeb

— Como você está? — perguntei, assim que voltei para o hospital de Doc e encontrei Logan sentado na mesma cadeira onde estive antes.
Era uma pergunta idiota, porque eu sabia. Ele estava confuso e com raiva. De um jeito que fazia com que não conseguisse se proteger atrás da indiferença, como era seu costume quando se sentia ameaçado. Mesmo assim, eu tinha que dizer alguma coisa, mas ele não me respondeu.
Estava sentado com as costas eretas, olhando para um ponto à frente de si, os punhos cerrados sobre as pernas. Contornei a mesa para me sentar no lugar oposto e poder ver seu rosto enquanto falássemos. Os olhos pareciam vazios quando os fixou em mim.
— Há quanto tempo? — perguntou, e sua voz estava tão diferente que mal pude reconhecer. Quase deu para ouvir seu maxilar trincando. A decepção e a fúria mal contida estavam evidentes em seu rosto.
Tentei me manter impassível, mostrar que não tinha vergonha de ter escondido minhas suspeitas. Afinal, eu o estava protegendo, pelo amor de Deus! Era muito mais complicado do que sinceridade e confiança entre amigos. Porque eu simplesmente não podia virar o mundo dele de cabeça para baixo por causa de uma pulga atrás da minha orelha, podia?
Agora, por exemplo, eu seria muito melhor amigo se inventasse uma história para despistar, negasse o que ele ouviu e deixasse tudo voltar a ser como horas atrás. Com certeza seria muito mais fácil.
Mais fácil dizer do que fazer.
— Desde o dia em que fiquei doente, quando você cantou aquela música para Lindsay — confessei, porque eu seria um bom amigo, mas um péssimo pai se optasse pelo caminho sem complicações. E não importava se tudo isso fosse loucura da minha cabeça ou que o garoto diante de mim fosse uma Alma. Eu me sentia pai dele. Não podia mais me comportar como se as coisas fossem simples.
Tinha chegado a hora. Logan e eu precisaríamos lidar com isso.
— Era uma música antiga que meu pai cantava — continuei. —  Nunca a ouvi em lugar algum, por isso não sei de onde ele tirou. Só me lembrava dela e costumava cantar para Norah, tocando violão quando acampávamos. Maggie é a única outra pessoa que se lembra da letra, mas eu sei que ela nunca a ensinou a ninguém.
Logan balançou a cabeça para mim, indignado, finalmente me vendo como quase todo mundo me via. Como um maluco.
— Isso não prova nada! É só uma música!
Ele se levantou com violência, a cadeira arrastando-se com um barulho alto e quase tombando a seus pés. Parecia um tigre enjaulado, andando de um lado para o outro, afundando o rosto nas duas mãos exatamente como Norah fazia quando estava nervosa.
Quanto a mim, sentia como se a barragem de uma represa tivesse se partido. Todas as comparações que eu tinha evitado fazer me vinham à mente agora, todos os traços em comum que eu tinha me convencido de que eram apenas coincidências absurdas me pareciam mais evidentes do que nunca.
Logan chutou o suporte de um dos catres num gesto de pura frustração. O objeto se chocou contra a parede com um estrondo e ficou ali, torto e fora de lugar, como uma prova incontestável da inutilidade da raiva que ele sentia.
— Às vezes, quando vocês jogam futebol, Melanie abre um sorriso traiçoeiro quando está planejando uma jogada — falei, imerso em minhas próprias razões. Logan me olhou com indecisão, provavelmente analisando se eu estava delirando ou se ia chegar a algum lugar com aquilo. Mas de qualquer jeito, ele esperou. E eu continuei. — Eu sempre sei o que ela vai fazer depois disso, para onde vai direcionar o olhar, para que lado jogará o corpo... São os movimentos do pai dela. Trevor sempre sorria para mim daquela maneira. Você sabe, eu era o irmão mais velho dele. Ninguém conhece nossos truques como nossos irmãos. — Sorri com a lembrança de nossa antiga cumplicidade, algo que agora eu tinha com meu filho. — No dia em que te conheci, quando saímos naquela viagem apressada para conseguir medicamentos para Estrela, você sorriu para mim do mesmo jeito antes de sair do carro e entrar no hospital. Achei que estava vendo um fantasma...
— Chega — Logan tentou me interromper, mas eu continuei como se não o tivesse escutado.
— Mas os olhos eram diferentes. Trevor tinha olhos escuros como nosso pai. Os seus são idênticos aos de minha mãe.
— Pare com isso...
— E a sua voz... No dia em que você cantou pra Lindy, não foi apenas a canção que me lembrou do meu pai. Então eu percebi, você fala como ele também. A mesma entonação áspera, a mesma cadência...
— Pelo amor de Deus, Jeb — Logan implorou, sentando-se à minha frente outra vez e apoiando a testa nas mãos, os dedos enterrados nos cabelos. — Pare com isso. Não prova nada. Não prova porcaria nenhuma, entendeu? Você tem que parar com essa loucura! Que diabos você está fazendo? Mas que droga!
Minha resposta foi um riso seco. Eu sabia como ele estava se sentindo. Sabia que estava sobrecarregado. Mas eu também estava. Estava cansado demais de fazer aquilo sozinho por tanto tempo.
         — É improvável até para uma porcaria de novela, mas não me sai da cabeça mesmo assim, porque vamos falar em improbabilidades, Logan. Você me disse uma vez que não se lembrava do nome da mãe dele, porque era uma daquelas informações desnecessárias que você não se preocupou em reter, mas o sobrenome que ele usava é o mesmo dela. Você contou que a mãe dele foi presa por tráfico e depois morreu na prisão, e as drogas foram o motivo principal para Norah e eu termos terminado, lembra? Depois disso ela sumiu e nunca mais tive notícias dela. Norah desapareceu da minha vida por completo. Pensando agora, podia ser porque ela estivesse presa ou morta. Então eu sei que Smith é um sobrenome comum e que essa podia ser a história de quase todo órfão, mas estive esperando pela derradeira coincidência para ter certeza. Porque por mais que você me diga que as lembranças não existem, porque ele tinha só uns 3 ou 4 anos quando foi separado da mãe e você deixou o pouco que ele devia guardar enterrado aí no fundo, ao menos o nome dela ele tinha que saber. E é improvável mergulhar nas lembranças de um homem e não trazer algo assim à tona. Ao menos quando você sabe o que procurar.
         — Para ter certeza e nos livrar do fardo. Era por isso que você queria que eu me focasse na infância dele.
         E ali estava. A porção de Logan que mais se parecia comigo. Ardiloso, orgulhoso e cabeça dura. Apenas esperando para jogar na minha cara as únicas palavras que pegou para si do que ouviu. Seria muito esperar que o garoto tivesse herdado de mim alguma coisa mais fácil de lidar, como o gosto por jogos de carta, a cor dos olhos ou até o jeito que os outros chamavam de excêntrico. Mas ele tinha logo era que ser a criatura mais teimosa da face da Terra!
         — Você pode me acusar de tudo, menos de não me importar com você, garoto. Você é meu amigo. Você é o Logan que conheço. E isso significa alguma coisa. Ou será que você não se perguntou por que eu não disse nada dessas coisas antes? Se eu tivesse te explicado o que estava acontecendo, você poderia ter se lembrado de algo ou ido atrás de algum documento antigo que desfizesse ou confirmasse minhas suspeitas. Mas eu guardei tudo para mim, porque não tenho nada. Não podia correr o risco de estragar o que você tem.
         Tive medo de ser claro. Medo de que ele não tivesse pensado naquilo e que, ao mencionar, eu estivesse sugerindo. Mas o que eu queria dizer era que não podia me arriscar que ele decidisse ser retirado do próprio corpo e, no fim, tudo não passasse de loucura minha e qualquer consequência ruim fosse por nada.
Afinal, e se o humano acordasse? E se ele fosse alguém detestável que tentasse roubar a vida do Logan que eu conhecia e atrapalhar tudo o que este tentava construir entre Almas e humanos? E se ele não fosse mesmo meu filho?
E se fosse?
— Você não entende, Logan. Quando disse isso pra Candy... — Esfreguei o rosto com as mãos, frustrado por não conseguir explicar, quase sentindo raiva dele por ter ouvido o que não devia. Mas a verdade era que eu é que não deveria ter dito aquilo. Aquela maldita frase devia assombrar só a mim. — Você precisa saber que não tinha a ver com você! Eu me orgulho de você desde o dia em que nos conhecemos e isso é tudo menos um fardo. Essa história toda... Não é sobre o que eu penso de você, entende? Porque, sim, você é como se fosse meu filho e nada do que descobrirmos poderia mudar isso. Mas uma coisa como essa... Saber que tive um filho biológico que nunca conheci... Não é uma coisa fácil de lidar. Como é que eu posso viver com o conhecimento de que meu filho teve uma vida miserável porque eu não estive por perto pra protegê-lo?
A expressão de desafio no rosto de Logan se desfez enquanto eu falava. Em seu lugar, surgiram outras coisas, muitas que eu não saberia identificar. Mas sobre uma pelo menos não havia engano.
Tristeza.
Aquele garoto estava tomado por uma tristeza que fazia meu fígado se retorcer como se lidasse com a pior bebedeira de uma vida. Eu só não sabia por qual de nós ele se sentia pior.
— Mas você não teve culpa — ele disse, parecendo quase surpreso que eu mesmo não estivesse me justificando. — Você não sabia de nada. Se for mesmo verdade, a mãe dele escondeu tudo de você.
Tirei um momento para apreciar o fato de que, nem por um segundo, mesmo enquanto estava com raiva, Logan achou que eu tivesse abandonado meu filho de propósito. Mas a questão era que, no fim, que diferença fazia?
— Isso não muda o resultado. Eu não estava lá para ele. E nem tenho o consolo de saber que alguém esteve em meu lugar.
De tudo, isso era o pior. Diante de como as coisas se desenrolaram, eu me contentaria se algum dos amantes de Norah tivesse proporcionado ao garoto alguma noção do que era um pai, mas nem mesmo essa esmola o destino nos deu.
— Existe uma forma de sabermos — Logan decretou sério, determinado, afastando a dor e a revolta de minutos atrás por um momento de sanidade para ambos. — Mais de uma, na verdade, porque os documentos dos hospedeiros foram todos digitalizados e guardados nos escritórios dos Buscadores de cada cidade. Preservamos o máximo que pudemos da história de cada um porque nunca se sabe quando alguma informação pode ser necessária. O nome da mãe dele seria fácil de conseguir, portanto. Mas acho que não bastaria descobrirmos se ele era filho de Norah. Pelo que entendi, ela não era fiel a você...
— É uma forma gentil de colocar — respondi, tentando esboçar um mínimo de bom-humor, mesmo em uma situação impossível. Obviamente, não era um ponto que eu achava agradável de tocar. — Mas já seria uma pista. A coincidência derradeira, como eu disse. Sei que não basta, mas...
— Podemos fazer um exame — ele me interrompeu. — Colho seu sangue, invento uma história e tiramos a dúvida.
A simplicidade óbvia da coisa me deixou sem ação. Quer dizer, eu não era ignorante, sabia que existiam testes de DNA, mas o mundo estava tão diferente agora que não pensei que ainda existisse utilidade para eles. Aparentemente, porém, do jeito que Logan falava, parecia até bem comum.
— Almas fazem testes de paternidade? — perguntei.
— Há muitas utilidades para um exame genético. Mas eu não preciso propriamente mentir sobre nosso objetivo. Posso dizer que encontrei outra Alma que acredita ter um parentesco comigo e que gostaríamos de confirmar a teoria.
— Não estranhariam que eu simplesmente fornecesse a amostra para você e não fosse até lá?
— Provavelmente, mas qualquer história que eu inventasse para explicar sua ausência seria aceita. Não há motivo para desconfiarem de algo suspeito em meu comportamento, portanto também não há razão para questionamentos.
— Se você acha que é possível... — falei sem muito entusiasmo, até para minha própria admiração.
Parecia tão simples. Meses de angústia torturante resolvidos com umas gotas de sangue e uma historinha qualquer. Fácil demais.
Mas a vida não é assim. Burros velhos como eu sabem disso e por essa razão eu me sentia no direito de desconfiar da sorte, que já não era pouca por ele estar tão disposto a me ajudar.
No fim, as coisas não tinham sido tão terríveis entre nós. Dava para ver que Logan estava magoado, que algo na maneira singela e admirada com que ele me via tinha se quebrado, mas ele ainda estava ao meu lado. Havia esperança para nós. As pontes não estavam queimadas e podíamos chegar um até o outro novamente.
A questão era que, àquela altura, o que me preocupava era a resposta. O não era tão ou mais difícil do que o sim. Porque se tudo não passasse de uma fantasia da minha cabeça desparafusada e Logan não fosse meu filho, o coração velho e seco que ele tinha resgatado do deserto em que nos metemos se partiria. Mas se ele fosse, o que isso faria com nossas vidas?
— Talvez devêssemos deixar o teste para depois — sugeri. — O trabalho que você está fazendo agora é muito importante. E sua cabeça precisa estar inteiramente nisso.
Logan estreitou os olhos e me analisou com aquela expressão irritante de policial buscador jogador de pôquer. É claro que ele já tinha percebido que havia algo de errado na minha reação pouco entusiasmada. Só esperava que não soubesse exatamente o quê. Afinal, era preciso ganhar tempo para nos preparar para o que viria se a resposta fosse positiva. E Logan era do tipo que se apressava para enfrentar o fogo.
Assim, embora eu soubesse que era impossível evitar que um de nós sofresse, conhecia Logan o suficiente para saber também que ele se colocaria na linha de frente, tentando impedir que fosse eu. E, como Peg havia feito por Melanie, o garoto faria por mim o sacrifício supremo de abrir mão de si mesmo.
A grande questão é que eu não teria ânimo de impedi-lo.
Depois de tantos anos e das experiências com Jodi e Pet, havíamos concordado que a chance de um hospedeiro acordar era remota. Quanto maior o tempo de supressão, mais o corpo sofreria em risco depois da retirada da Alma, à espera de que o humano acordasse. E se caso isso acontecesse por um milagre, havia uma série de complicações com que lidar. Mas como, em sã consciência, eu poderia impedir que essa chance fosse dada ao meu filho? Se havia uma possibilidade de ele acordar, por mínima que fosse, eu devia isso a ele. Só não podia agir como se a culpa pelo que aconteceria com este Logan não me afetasse.
— Não sei bem o que você está esperando de mim, Jeb, mas acho que está querendo, de alguma forma, me proteger das consequências. Só que isso não é mais possível. Saber das coisas é um caminho sem volta e eu já estou envolvido. Não há mais como deixar de ir até onde for preciso.
Sim, como eu disse... Irritante!
— Eu já esperei muito, Logan. Posso esperar mais um pouco. Você é o rosto que David e Flora conhecem. Como eles reagiriam se te vissem em outro corpo e tivéssemos que explicar o que fizemos aqui? Com Peg, Estrela, Candy, Lacey...? Pode estragar tudo o que você está tentando construir.
— Se Peg encontrar Fords, ele vai saber o que aconteceu com ela. E não é algo que possamos esconder para sempre, de qualquer maneira — ele disse como se não estivesse sentindo nada a respeito. Como se não estivesse pensando.
— Pense no que isso significaria para sua família, garoto. Não seria como foi com Peg. As coisas são diferentes agora. Se o Logan humano acordasse, como ele se sentiria em relação a Estrela e Lindsay? — A pergunta parecia tê-lo atingido como um tijolo e eu quase me arrependi, mas precisava dizer. Ele precisava encarar tudo o que podia perder tentando ser o herói abnegado. Isso eu devia a ele. — E você? Que tipo de sentimentos seu novo hospedeiro traria da antiga vida? Nós não temos como saber ao certo. Então entenda que não sou prioridade aqui, por mais que eu queira dar uma chance ao meu filho... Ter uma chance com ele. Só estou tentando proteger o filho que já tenho.
Os olhos de Logan ficaram vermelhos enquanto ele me encarava. Os meus ardiam como o inferno. Eu só queria levantar daquela cadeira e abraçar meu menino. Mas não o fiz. Nem ele. Ficamos apenas ali. Dois corações desertos lidando com todas as emoções que não deveríamos ter.
— Eu vou esperar — Logan quebrou o silêncio, por fim. — Preciso preparar Estrela e Lindsay. Principalmente Lindsay — ele esfregou o nariz, a expressão resignada e os ombros tombados de quem carregava o peso do mundo. — Você está certo quanto a David e Flora. É cedo para pôr em risco alianças que ainda nem temos. Até falarmos com eles... Bem, é isso. Vamos dar um tempo a nós mesmos para nos acostumarmos com a ideia. Quanto ao exame...
— Pode esperar também.
— Você não quer saber? Não quer ter certeza?
— Você quer?
Uma risada breve e amarga escapou pelos lábios dele, mas exceto por isso, não houve resposta. Por um único momento, admitimos em silêncio um para o outro — e entendemos — que nossa coragem habitual tinha temporariamente se recolhido à terra dos covardes.
— Conte-me, Jeb — Logan pediu, a voz melancólica de meu pai tão presente na dele que era como se eu a ouvisse de novo. — Me fale sobre sua história com Norah.
Então eu respirei fundo. E passei as próximas horas falando sobre mágoas há tanto tempo esquecidas que pareciam pertencer a outra vida. Exceto que agora eram parte desta aqui também.



CD2 Cap 25


Capítulo 25 – O Último Grão da Balança

I know that there's no turning back
If we put too much light on this we'll see through all the cracks
Let's stay in the dark one more night
Don't want to know
I'm ok with the silence
It's truth that I don't want to hear
(Lie – David Cook)

Logan

Há muito tempo eu não sabia mais como era isto. Não sentir nada.
Antes de Estrela, vivi todos os meus anos na Terra me mantendo apartado da realidade, distanciando-me ao máximo das emoções humanas, porque eu é que tinha que ter o controle sobre elas, não o contrário.
Então Estrela chegou e eu entrei neste redemoinho que ela trouxe consigo. De repente, quando passei a me importar com ela, era como se o antes não tivesse existido. Fiquei vulnerável. Toda minha experiência não valia de nada sem a indiferença que eu julgava ser minha fortaleza. E sem isso eu não sabia mais como me proteger.
Assim, como se sempre tivessem estado à espreita, os sentimentos me invadiam, me enlaçavam em teias imensas de prazer e dor e eu me deixei levar. Pela primeira vez nesta vida, me deixei levar.
Sem hesitação ou arrependimentos, eu tinha chegado até aqui. A este lugar onde tinha descoberto o que era amor e família. Onde tinha amigos que me dedicavam uma confiança que tornava a dor inevitável apenas parte da vida, não de mim. Onde eu tinha encontrado quem era e aprendido a gostar disso.
Mas estas paredes guardavam segredos estranhos também. O passado das outras pessoas. E, aparentemente, um pouco mais do meu.
“Agora a história do humano é a história dele também.”
...extraído do corpo.
“A suspeita de que ele é seu filho...”
“Ele precisa se lembrar, Candy. Logan precisa se lembrar da verdadeira história do humano...”
Sim, eu também tinha querido me lembrar.
Mas no instante em que as palavras me atingiram, elas me transformaram. Porque eu soube que, quer as lembranças viessem ou não, e fosse o que fosse que me trouxessem se chegassem, nada nunca mais seria igual. Eu seria culpado por ser quem Jeb esperava. Seria culpado por não ser também.
Então como enxergar a mim mesmo depois disso?
Lutei incansavelmente para chegar até aqui e ser alguém novo. Tinha me permitido ficar em carne viva para poder construir algo sobre os escombros e, de repente, isso não valia mais nada, porque eu tinha que voltar ao princípio para poder suportar, ao Logan anestesiado de antes.
Não. Logan não. Canção Noturna.
Canção Noturna era uma Alma. Apenas isso. E Logan era mais do que podia ser. Logan era também o outro, mas sua história não estava mais no passado para ser lembrada, estava?
Não. Estava aqui agora. Mais presente do que nunca quando eu não poderia estar mais cansado de trazê-la comigo.
De repente, um novo e último grão foi depositado na balança e ela pendeu. Desequilibrou-se. Todo peso que eu não podia aguentar caiu sobre meus ombros e eu soube que era demais para mim, não importava o quanto eu já tivesse acreditado que podia carregar.
O passado. As memórias. A dor. Eu simplesmente não queria mais.
Não queria essa humanidade, não queria os sentimentos e lembranças do outro. Não queria nada. Porque sentir era muito difícil e eu estava me afogando.  
Minha mente se convenceu, então, de que eu precisava parar de me debater e boiar. Apenas esperar o torpor e nadar até chegar àquela ilha dentro de mim onde pudesse ficar seco. E seguro.
Porque há segurança no entorpecimento.
Dor alguma poderia me afetar se eu deixasse de me importar com tudo.
— Logan — às minhas costas, a voz de Jeb me paralisou, provando que era cedo para me anestesiar. Ou talvez tarde demais para mim, de qualquer jeito. — Você pode, por favor, me escutar? Eu não sei o que você ouviu, mas não tire conclusões precipitadas, me deixe explicar...
Havia preocupação em sua expressão quando me virei para encará-lo. A voz estranhamente amena trazia um tom de súplica que eu não reconhecia e odiei isso.
Aquele não era o Jeb a que me acostumei, não era o meu amigo. Toda aquela preocupação não era para mim. Talvez nada do que havíamos passado já tivesse sido, aliás. E esse pensamento só provava que eu não estava pronto para aquela conversa. Ainda doía como o inferno. Por isso eu precisava esperar enquanto a dor fazia seu trabalho de se tornar parte de mim outra vez. Até que eu não sentisse mais nada.
— Não posso. Tenho que levar isto para Lily — respondi secamente, empunhando o frasco de Curar. — E continuar os treinos.
— Pare com isso, eu sei que não é nada grave. Porque se fosse você teria trazido a garota aqui para dentro imediatamente — ele disse sem hesitar, porque sabia que era verdade. Eu a teria mesmo trazido imediatamente. Jeb me conhecia bem, era inegável. Talvez por isso mesmo devesse saber que não adiantaria falar comigo naquela hora, mesmo assim ele insistiu. — São só alguns minutos, Logan. Lily não vai se importar em esperar um pouco. Aqui todos estamos acostumados a viver sem remédios. Era assim antes de vocês...
— Fale por si — interrompi. — Já que está claro que você nunca precisou dos parasitas para nada.
Não sei ao certo por que disse isso, mas a palavra pejorativa saiu como uma bola de espinhos de minha garganta, ferindo a mim também enquanto eu a cuspia para machucá-lo. Ainda assim, ela nunca tinha me parecido tão verdadeira e poderosa, o que me fez sentir como o nada dentro de uma casca.
— Eu não preciso mesmo de parasitas — Jeb me corrigiu —, apenas dos meus amigos. E o nome certo é Alma. — Suspirou como quem se prepara para lidar com o impossível. — Foi o que me ensinaram. Meus amigos são chamados assim.
Almas. Esse era o nome que minha espécie tinha assumido aqui e Jeb sempre o tinha respeitado, ao menos em minha presença. Quanto a precisar de nós, eu sabia que não estava sendo justo. De todas as pessoas, ele havia sido sempre o primeiro a se tornar necessário em nossas vidas antes que tivéssemos a possibilidade de retribuir. Então, não. Jeb não precisava de mim ou de qualquer outra alma — humana ou não — que tenha acolhido, nós é que precisávamos dele. E talvez fosse essa, em grande parte, a razão por eu me sentir desta maneira agora que sabia de suas suspeitas. Como um maldito parasita.
“Ele precisa se lembrar, Candy. Logan precisa se lembrar da verdadeira história do humano, para livrar a nós dois do fardo que seria eu ser seu pai.”
Fardo, sim. Porque não seria justo eu ter roubado a vida do filho dele. E era por isso que ele queria tanto que eu enfrentasse as memórias difíceis. Não por elas me atormentarem ou porque eu sairia melhor do enfrentamento dessas aflições quando elas se tornassem velhas conhecidas. Mas porque ele não podia lidar com a realidade do que eu representava. Um parasita. Um ladrão. Um...
— Ouça, filho... — ele começou, mas aquela palavra também era uma facada em mim agora, por isso não deixei que continuasse.
— Você pode não me chamar assim? Eu não sou seu filho.
— Disso você não sabe — Jeb me respondeu sério, tentando aparentar que não tinha sentido o baque.
E outra vez a maldita bola de espinhos machucava minha garganta, mas eu não conseguia parar. Simplesmente queria feri-lo e, ao mesmo tempo, sentia que merecia toda dor que isso me causava.
— Então me diga o que você sabe — cedi, porque agora eu tinha chegado em um ponto de onde não conseguia voltar. — Se quer tanto conversar, vamos livrar a nós dois desse fardo.
— Vou pedir um favor a Jared — disse, pegando o frasco de Curar de minha mão e fingindo ignorar o amargor que eu tentava destilar. — Ele vai levar o remédio para Lily e assumir seu lugar no treino de hoje. Direi que preciso tirar umas dúvidas com você ou algo assim. Me espere no hospital enquanto isso. Candy não vai estar mais lá e Doc está com Sharon e Estrela levantando hipóteses sobre o que David pode querer saber. Não vamos ser perturbados e eu preciso de mais do que alguns minutos.
Jeb disse tudo isso com a praticidade fria de sempre, mas não se moveu por longos segundos depois de terminar. Apenas ficou parado ali como se esperasse alguma coisa que nenhum de nós dois sabia o que era.
— Você sempre foi meu garoto, Logan — falou, por fim. —  Se quiser, posso não usar a palavra. Mas não tem jeito de você me fazer esquecê-la agora que eu disse. E sei que você também não vai.
Então ele se foi e eu fiquei com a dor de saber que tudo o que eu mais queria era que isso fosse verdade. E que esse desejo me tornava absolutamente desprezível.
Uma coisa era sobreviver. Eu nunca tinha me permitido sentir culpa por estar neste corpo de que tanto precisava. Sem ele, não haveria vida para mim. Mas outra coisa completamente diferente era viver um laço ao qual minha contraparte humana tinha direito absoluto.
Estrela era minha mulher, meu amor. Lindsay era minha filha. Sunny, Peg e John eram a família que eu tinha escolhido. Kyle, Ian, Jared, Melanie, Jamie, Lily... Meus amigos eram meus amigos. Meus.
Jeb era meu amigo.
Mas por mais que eu quisesse, não era justo que ele também fosse meu pai. Isso era somente dele. Do Logan humano. E eu não podia viver com a culpa de ter lhe tirado algo tão precioso.



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Entre a Luz e as Sombras

Entre a luz e a sombras. Confira já.