quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

DA - Capítulo 10

~ 10 ~

Melinda

Com um suspiro lento, eu fechei meu exemplar gasto da obra “O Príncipe”, de Maquiavel.

Eu já havia perdido as contas de quantas vezes tinha lido e relido cada uma daquelas páginas. Mas eu precisava pensar em outra coisa que não fossem romances. Precisava pensar em algo mais próximo do mundo real. Necessita, urgentemente, esvaziar minha mente de qualquer coisa que pudesse me fazer lembrar de Robert. Mas essa não era uma tarefa tão fácil quanto parecia.

Nos últimos dias, eu tentei mil e uma formas diferentes de me fazer lembrar do quão estúpido era me deixar envolver por ele. O problema era que eu já estava envolvida, mas era orgulhosa demais para admitir algo assim. Esses eram sentimentos que eu jamais coloquei em palavras. Ao menos não em palavras audíveis, e esse era, sem sombra de dúvidas, um passo muito longo.

Durante anos, eu me resguardei para que nenhum tipo de rejeição voltasse a tocar minha vida e, os únicos que realmente se aproximaram de mim, foram Javier e Eva. Mas eles eram diferentes de tudo e todos que já conheci. De alguma forma, eu sempre soube que poderia confiar neles. Não sou expert no quesito “pessoas e suas interações”, mas desde o primeiro momento em que pus meus olhos na família Gonzáles, soube que poderia confiar neles.

A forma como Javier e Eva tratava um ao outro, os olhares calorosos que me lançavam, o modo como sempre falavam com seus olhos fixos nos meus! Isso tudo me passava tanta segurança, que foi impossível não me apegar a eles.

O fato de Javier ter confiado a mim a triste história de sua família, bem, acho que isso só fez com que nos aproximássemos ainda mais. Saber que ele também teve uma boa parcela de sofrimento, de certa forma nos tornava mais próximos, nos humanizava. O modo como seus olhos negros se encheram de lágrimas enquanto ele me contava da morte de seu pai, há sete anos, que foi vítima de uma bala perdida na saída de um restaurante, numa de suas viagens de férias.

O pai de Javier — Pablo — era argentino, e sua mãe — Marcela —, colombiana. No entanto, eles se conheceram aqui, nos Estados Unidos, enquanto se lançavam na busca por uma vida melhor que pudessem oferecer às suas respectivas famílias. Pelo que Javier me contou, foi amor à primeira vista e, eles não demoraram muito tempo até decidirem se casar.

Pablo e Marcela fixaram residência nos Estados Unidos, onde Javier nasceu, mas sempre iam visitar a família que continuou na América Latina. Eva se juntou ao filho e à nora quando ficou viúva e, acabou ajudando na criação de Javier. Após a morte de Pablo, a família deixou as viagens de lado, até porque os custos eram altos e, agora que o provedor da casa não mais vivia, era hora de segurar as rédeas.

Marcela não viveu muito mais, depois disso. O trabalho exaustivo para ajudar Javier com as contas da casa, para que ele pudesse também estudar, acabou roubando-lhe a saúde, e ela padeceu. Javier nunca mencionou qual mal assolou sua mãe, e eu achei melhor não questioná-lo sobre isso. Tocar nesse assunto sempre fazia com que seu semblante animado desaparecesse, e essa era a última coisa que eu queria que lhe acontecesse.

Bom, ao menos eu podia dizer que Javier era capaz de entender parte do meu sofrimento. E eu digo ‘parte’, porque ele não estava de todo sozinho. Ele tinha alguém por quem lutar... alguém para quem viver. Quanto a mim, a única motivação que eu guardava era ser útil de algum modo; sentir que eu fazia diferença na vida de alguém. Eu também queria esquecer o passado, e as marcas que os meus dias de solidão me trouxeram.

As coisas não são assim tão simples, contudo.

Por mais que eu tenha conseguido erradicar os pesadelos que me perseguiam, causados pela fatídica noite em que quase fui violentada, ainda havia muitos medos a serem superados. A rejeição era um deles.

Eu podia dizer que as coisas estavam melhores, porque de fato elas estavam. Desde a chegada dos Gonzáles, foi como se eu tivesse ganhado uma família, e a sensação era incrível. Mas eu queria mais, mesmo que isso pudesse soar egoísta.

Eu queria ter o meu próprio lar, e não apenas uma casa para onde voltar após o expediente. Queria que houvesse alguém me esperando, ou queria poder esperar alguém, não faria diferença para mim. Mas como isso seria possível, se a simples ideia de ter um homem me tocando intimamente se tornou tão asquerosa, depois daquela noite de tormento?

Eu não me sentia à vontade com ninguém além de Javier, e mesmo assim ele era o irmão que eu não tive. Além dele... bom, além dele havia apenas uma pessoa. Alguém tão perto e tão distante ao mesmo tempo, a quem aprendi a amar sem nem mesmo me dar conta.

Então, descobri que amar Robert não era o problema, porque eu já havia aprendido a conviver com esse sentimento. O problema residia no fato de ele ter me notado e, sem um motivo aparente, querer estar perto de mim. Esse não era o tipo de coisa que eu poderia aceitar sem um questionamento, e tampouco era o tipo de coisa que eu ousaria discutir com alguém. Afinal, eu não poderia expor meu ponto de vista sem antes expor meus medos e inseguranças, e não havia ninguém com quem eu pudesse falar sobre isso.

Bem, havia Christine... mas nós não éramos amigas. É fato que ela me contava tudo o que se passava em sua vida, mas não por haver algum laço de amizade entre nós, senão por ela não ter o menor interesse de esconder nada do que lhe acontecia.

No entanto, eu tinha todo o interesse do mundo em manter o assunto “Robert” trancado a sete chaves, até porque, quão ridícula uma pessoa pode parecer ao confessar que se apaixonou perdidamente aos dezessete anos, graças a uma ação generosa e um recorte de jornal? Eu mesma não exteriorizava esses pensamentos, porque soariam ridículos aos meus próprios ouvidos.

Talvez se eu tivesse superado tudo isso, se não tivesse trago esses sentimentos para minha vida adulta! Mas eram tantos “se” em questão, e não era como se eu pudesse mudar tudo o que venho sentindo nos últimos anos.

E agora, por não conseguir administrar bem essa situação, por não conseguir deixar de ouvir a voz de Christine, que insiste em me dizer que sou apenas um passatempo para Robert... por não esquecer a voz dele dizendo que precisa de mim, e por não conseguir calar a voz do meu coração, que me grita loucamente para que eu dê uma chance para nós, estou completamente perdida.

Como se tudo isso não bastasse, ainda há uma quarta voz. A voz da minha consciência, que me grita “PERIGO!” todas as vezes em que meus pensamentos resvalam para longe do meu controle, e acabam esbarrando na lembrança de ter os lábios de Robert junto aos meus.

***

— Nada? — eu inquiri a Javier cautelosamente, enquanto ele desabava no sofá de seu apartamento.

— Nada — respondeu num suspiro que expressava fatiga e indignação.

— Não fique assim, Javier — disse-lhe num tom condescendente, levantando-me do meu assento e acomodando-me ao seu lado. — Você vai ver como as coisas vão se acertar logo, logo... — articulei tentando confortá-lo, com uma mão pousada em seu ombro.

Durante todo o dia, Javier esteve à procura de um novo emprego, algo que fosse capaz de cobrir as despesas da casa de forma mais satisfatória, uma vez que seu salário como professor de ritmos latinos não era grande coisa. Agora que Eva estava tomando mais medicamentos, a fim de controlar sua pressão e todos os outros infortúnios que o tempo lhe trouxe, o salário de Javier estava se mostrando quase insuficiente.

Na verdade, o que vem segurando as pontas até agora é o fato de que os Gonzáles possuíam algumas economias no banco, mas não era inteligente esperar que o dinheiro acabasse antes de se lançar na busca por mais.

— Você me disse a mesma coisa na semana passada, no entanto, as coisas só estão piorando — Javier retorquiu com uma pontada de ironia. Mas não era a ironia de sempre. Aquela frase também expressava infelicidade, e não restavam dúvidas.

— Apenas dê tempo ao tempo, Javier, e tente melhorar essa cara. Dona Eva não irá gostar de vê-lo assim — adverti.

— E como quer que eu fique, Linda? — inquiriu com seus olhos negros fixos em mim. — Sou o homem da casa, não posso simplesmente dar tempo ao tempo...

— Se martirizar também não ajuda! — eu o interrompi. — Sua avó está tirando um cochilo, agora, mas quando acordar, eu preciso lhe devolver um neto brincalhão e sorridente, então, por favor, coopere comigo, está bem?

Os olhos de Javier me analisaram com mais atenção, e um pequeno sorriso escapou de seus lábios.

— Você sempre disposta a ajudar, certo?

— Essa sou eu — concordei num meio sorriso.

— Dessa vez eu não posso prometer nada, Linda, mas vou dar o meu melhor para que minha abuelita não perceba nada — anuiu.

— Talvez se você tivesse alguma distração... — ponderei em voz alta, enquanto uma ideia surgia em minha mente. — Por que nós não saímos? — sugeri alegremente. — Eu estou devendo isso a você, de qualquer modo! Sendo assim, eu pago minha dívida, e você mantém os pensamentos negativos à distância! O que acha?

— O que eu acho? — ele testou cético. — Eu acho que você ainda não entendeu que estou à procura de emprego para tentar melhorar minha situação financeira!

— Ei! — eu comecei uma reprimenda, fingindo-me ofendida. — Eu convidei, as despesas são por minha conta!

— Sem chances! — Javier exclamou levantando-se do sofá e caminhando em direção à cozinha. — Uma mulher não vai me levar pra sair!

Eu o segui, ainda sem acreditar que ele realmente pudesse estar falando sério!

— Qual é, Javier! — chamei incredulamente. — Estamos no século XXI, mulheres pagam a conta, hoje em dia!

— Não pra mim! — objetou enquanto procurava por alguma coisa dentro da geladeira.

Qual era o problema dele, afinal? Será que eu não podia retribuir algo que ele já fez por mim tantas e tantas vezes?

Javier voltou à sua posição ereta, fechando a geladeira em seguida, mas não antes de arremessar uma caixinha de achocolatado em minha direção. Eu a apanhei habilmente, refletindo os gestos de Javier ao abrir a embalagem e provar do líquido cremoso.

— Você está soando machista! — protestei verdadeiramente contrariada.

— Chame como quiser — ele deu de ombros, indiferente, sorvendo sua bebida. — Eu agradeço tudo o que está fazendo, Linda, de verdade, mas não posso permitir que você faça isso por mim!

— Talvez seja por mim, também! — disse antes mesmo de poder pensar a respeito.

A verdade é que eu também precisava de uma distração.

Ler a obra de Maquiavel deixou de funcionar provavelmente na quarta tentativa, quando meu cérebro migrou para o automático sem nem mesmo pedir autorização. Eu poderia tentar algum romance, mas a quem eu queria enganar? Eu precisava de pessoas! Pessoas que falassem sobre tudo, menos sobre romance!

E Javier era perfeito! Ele sempre foi!

— Como isso poderia ser por você? — Javier testou unindo suas sobrancelhas sobre seus olhos escuros, em confusão.

Como explicar isso? — gritou meu subconsciente para mim.

Mentindo... ou omitindo parte da verdade — eu decidi!

— Preciso dar uma folga ao meu cérebro — comecei. — Ele tem trabalhado muito, e meu corpo não tem trabalho nada! Equilibrar seria bom!

Ele acreditou, certo?

Mesmo com aquele olhar desconfiado em minha direção... eu tinha soado convincente, porque aquilo era verdade.

— O que você tem em mente? — Javier instigou caminhando em minha direção.

— Eu tenho em mente... — ponderei a respeito, buscando dentre o leque de possibilidades que a companhia de Javier me ofertava, algo que eu realmente quisesse fazer, esta noite. — Tenho em mente sair pra dançar lambada! — decidi-me, por fim.

— Você não sabe dançar lambada, Linda — zombou, enquanto eu retorcia minha expressão facial em desgosto.

— Mas você sabe! — apontei. — E se você sabe, significa que pode me ensinar! Afinal, é você quem grita aos quatro ventos que aprendi a dançar depois de termos nos conhecido! — eu dei de ombros, demonstrando indiferença.

— Então isso seria como aulas de lambada, certo? — ele testou com um pouco mais de divertindo na voz e em seu semblante. — Acho que podemos fazer alguma coisa sobre isso — anuiu com um sorriso.

— Tenho certeza que sim! — concordei com evidente animação.

Javier era uma excelente companhia, sobretudo um excelente amigo. A verdade era que eu sentia falta de passar algum tempo com ele, como costumávamos fazer antes de Robert se materializar em minha vida e deixá-la de pernas para o ar. De fato, eu esperava que ao menos essa noite, com a ajuda de Javier, eu pudesse deixar os questionamentos difíceis para trás.

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