segunda-feira, 20 de agosto de 2018

CD2 Cap 32


Capítulo 32
Tudo Vale a Pena se a Alma Não é Pequena

There was a boy

A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he
And then on day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me

The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return
(Nature Boy – Nat King Cole)


Estrela

                Quando Logan voltou de sua conversa com Jeb, eles brincaram com Lindsay e John durante duas horas inteiras. E quando Ian levou um John exausto e já praticamente adormecido para o quarto deles, Lindsay também adormeceu um sono longo e pesado ao som de sua Canção de Ninar, mas desta vez cantada por outra voz.
            — Vou deixar vocês descansarem também — disse Jeb, levantando-se da poltrona com Lindsay nos braços e depositando-a ao meu lado e de Logan na cama. — Ainda mal tiveram tempo de se recuperar da viagem. O pessoal pode esperar até depois do jantar pela reunião.
            — Acho que sim — respondi por Logan, deitado sonolento em meu colo, antes que ele decidisse discutir. Depois que decidimos parar de submetê-lo às extrações, não pudemos esperar muito para voltar para casa. Por isso ele ainda não estava no melhor de sua forma física e eu estava mesmo preocupada que as emoções do dia o tivessem desgastado.
            Eu também preciso de um tempo — Jeb confessou. E então pôs a mão sobre a cabeça de Logan, o polegar mexendo-se de leve num afago discreto. — Vamos descansar, filho.
            Logan fechou os olhos ao ouvir a palavra, acostumando-se ao som como se fosse a primeira vez que Jeb a dizia. E de certa forma era. Depois de tudo o que tinham conversado, as palavras soavam como novas. Principalmente para mim.
            Na verdade, eu soube no minuto em que os vi que alguma coisa profunda e imutável tinha acontecido entre os dois, e achava que sabia o que era. Parecia fácil, diante das circunstâncias.
— Foi positivo? — perguntei exultante, porque apesar dos motivos de Logan para relutar eu conhecia seu íntimo. Mas ele apenas sorriu de um jeito estranho, deu de ombros e me abraçou.
— Nós decidimos que sim — Jeb respondeu, puxando Lindsay, que corria pela sala de jogos, para um abraço apertado. — Dê um beijinho no vovô, patinha. Senti muitas saudades.
— Ai! — ela deu um gritinho. — Solta, vovô!
— Está bem. — Ele a atendeu, fingindo uma expressão chateada.
Então ela o olhou bem, seus pequenos lábios se contorcendo num muxoxo como se espelhassem o gesto dele, deu-lhe um beijo estalado no nariz e saiu correndo, às gargalhadas.
Jeb riu também. Leve. Feliz. E me deixando mais confusa a cada segundo.
— Nós não fizemos o teste — explicou Logan, antes que eu começasse a suspeitar que “negativo” era um bom resultado.
— Não!? Mas...
— Percebi que não mudava o que eu sentia — disse Jeb, tocando meu ombro e depois meu rosto de leve. — Se desse negativo, que diferença a biologia faria? Ora, Estrelinha, você sabe tão bem quanto eu que não faz nenhuma.
Seu olhar se voltou para John, que também brincava de pega-pega, como se me lembrasse de tudo o que eu sentia pelo filho de Peregrina e Ian. Ou por minha própria filha, que obviamente tinha o DNA de Vivian, minha hospedeira. Geneticamente, não havia nada de mim, Estrelas Refletidas no Gelo, em minha menina. E isso nunca tinha tido a mais ínfima importância.
            — Acho que as coisas se encaixam como têm que se encaixar, não é? — falei.
            — Parece que é inevitável. Por mais que Logan tente teimar.
            — Eu não estou teimando. Quem é que consegue com você?
            — Isso nunca te impediu de tentar — Jeb respondeu, mas Logan não pôde retrucar, porque Lindsay o puxou pelo braço para entrar na brincadeira.
            — Ele só precisa de um tempo — disse a Jeb assim que eles se afastaram. — Você sabe. É quase como um instinto se proteger assim, porque ele ainda precisa se convencer de que merece. E tem medo de perder sua amizade quando você se der conta de que está lhe dando algo que parece não ser dele. Então se nega a receber. Mas ele te ama muito. Se você for perseverante, Logan não vai ser teimoso para sempre. Ele vai entender — garanti, segurando a mão do amigo que, de forma que eu mal achava possível, agora amava ainda mais.
            — Você é muito sábia, Estrelinha. É exatamente a pessoa que ele precisava neste mundo. Mas não tem que se preocupar. Eu não tenho nenhuma pressa. Conheço um Stryder quando vejo um. Essa teimosia é só traço de família — ele brincou e eu sorri.
            — Seria tão mais fácil se Logan entendesse que precisamos dele também, não só do que pode nos dar. Parece que nunca aceita ser amado como se deve, mas eventualmente...
            — As coisas se encaixam como têm que se encaixar — completou quando não encontrei as palavras.
Logan podia ser frustrante às vezes e nunca encontrei alguém que entendesse isso melhor do que Jeb conseguia naquele momento. Mas o bom era que ele também entendia o coração maior que o mundo que cabia no peito do filho. Eu não precisava explicar que algo assim merecia cuidado.
— Vamos dar tempo ao tempo — propôs.
E então tive certeza de que ia ficar tudo bem. Como agora, quando se tornava nítido como o ritmo das coisas soava natural para Jeb e ele se despedia para nos deixar sozinhos em nosso quarto, mesmo que ainda parecesse guardar para si tantas expectativas.
Ele me deu um beijo na testa e saiu, então apoiei a cabeça de Logan no travesseiro e me estiquei de frente para ele na cama. Ficamos apenas nos encarando, regalando-nos no calor suave do corpinho de Lindsay entre nós, exatamente como naquela noite em Nova Orleans, quando passamos tanto tempo nos amando sem gestos e sem palavras, apenas no silêncio de nossos olhares.
— Como você está se sentindo? — perguntei, por fim, depois de alguns instantes usufruindo daquela pura sintonia.
— Não sei. — Com a ponta do dedo indicador, Logan traçou o contorno da minha têmpora até o queixo, num carinho tão simples que quase pareceria banal, se não fosse o tipo de coisa que eu reconhecia nele quando estava imerso no mais puro de sua humanidade. — Eu já sabia como era a felicidade, Estrela. O que é família. Graças a você e nossa filha. E eu já amava Jeb antes, mas isso é diferente, entende? É familiar e estranho ao mesmo tempo. Parece um pouco assustador.
Eu entendia. Era muito fácil amar. Mas ser amado exigia cuidado. Exigia se soltar em queda livre acreditando que havia uma rede de proteção embaixo para aparar o baque. E por mais que eu e Lindsay fôssemos sua família, por mais que ele soubesse o quanto seus amigos o consideravam, por mais que todos lhe déssemos nossos corações, o amor que Jeb estava oferecendo era de um tipo que Logan nunca tinha tido. Era amor de pai de verdade. Do tipo que se sustenta inteiramente sozinho, sem necessariamente precisar das bases da reciprocidade.
— Acha que pode se acostumar? — perguntei. — Por que é um tipo de relação diferente que vocês terão agora, de qualquer jeito. É amor também, mas imagino que a percepção seja outra.
— O que eu acho é que quero me acostumar com isso. E é por essa razão que preciso ignorar a sensação de que está errado simplesmente decidir que as coisas são simples. — Ele riu baixinho para não acordar Lindsay, mas também porque era o próprio retrato da incerteza.
— Mas aí é que está! Essa decisão não teve nada de simples, ou mesmo de impensada para Jeb. Foi uma prova de amor que ele deu a você. Não só porque vocês não precisariam ter que lidar com a hipótese de dar negativo, mas também para te provar que, uma vez que ele não teria a chance de ser pai de Logan Smith, o corpo não tinha importância. Quem importa é você. Ele escolheu a Alma. Escolheu, sabe? Isso é muito precioso.
— Eu sei. Eu entendi. Tem mais valor do que qualquer outra coisa. Mais que nada, é isso que realmente sempre fez de Jeb minha família.
— Então você precisa dizer a ele. E, além do mais, já que você reconhece que sempre se comportou como filho, precisa deixar que ele se comporte como pai.
— Ele me disse algo assim também. Mas é claro que minha relutância não é por não aceitar. É que... Às vezes tenho medo de não ser o homem que ele vê. Tenho medo de não ser aquele que os outros reconhecem.
Aquelas palavras não podiam me soar mais absurdas, mas ao mesmo tempo eu entendia de onde partiam. Na maior parte do tempo, todos nós somos incapazes de enxergar o que os outros veem. E essa cegueira nos impede de entender e aceitar o amor na sua real natureza incondicional. É uma luta contínua resguardar os outros dessa interferência insana de nossas inseguranças. E essa dificuldade tem sido um tópico constante em nossas conversas.
— Bem, nós já falamos sobre isso muitas vezes — lembrei. — Você sabe o que penso.
— Que são as pessoas que decidem que percepção têm da gente.
— Exato. Isso não está sob seu controle. Não pode estar, porque não é sua prerrogativa. Se a gente resolver decidir isso pelos outros, corre o risco de estragar tudo.
Logan me olhou de um jeito divertido, entendendo bem o que eu queria dizer. Não era nenhuma novidade que a raiz de todas as suas dificuldades residisse em não conseguir se desapegar das rédeas. Ele mesmo dizia isso.
— Por favor, esposa, não desista de mim — ele brincou, mas logo depois ficou sério de novo. — Não quero te fazer sentir como se estivéssemos tendo sempre a mesma conversa. Eu estou ouvindo o que você diz. Sempre ouço. Só preciso de um tempo para processar tudo. Mas essa sim e uma decisão simples. A de fazer o que for preciso para todos nós ficarmos bem. E o fato é que estou feliz, é bem fácil admitir isso.
— Então acho que podemos viver com o resto — falei, afagando seu rosto. — Tudo se ajeita se estivermos felizes e dispostos, certo? Tem sido sempre assim entre nós.
            Logan segurou minha mão em seu rosto e a levou aos lábios.
            — Espero que não seja tão difícil quanto imagino contar aos outros. Mas acho que vão dizer que é maluquice. Kyle vai se comportar de forma terrível. E não quero nem pensar em Magnólia.
            — Sua tia Magnólia!? — Ri um pouco alto e Lindsay se mexeu, mas não acordou. Logan riu também e abafou minha risada, primeiro com a mão e depois com um beijo. — Todo mundo vai acabar entendendo. Se não, vão fingir que sim e seguir em frente porque é o óbvio a se fazer. Sejamos sinceros, só o que falta para você e Jeb é a nomenclatura. Vocês sempre agiram como pai e filho. E todos veem isso.
            Ele sorriu de um jeito que parecia novo.
            — Como é que eu poderia imaginar que minha vida na Terra seria assim? — perguntou. — Quando tudo começou para mim aqui, minha única pretensão era sobreviver ao ciclo de vida do corpo, cumprir minhas obrigações e partir. Nunca ambicionei realmente viver como parte de outra coisa. E agora é a única coisa que desejo. Eu trocaria toda minha existência por um único dia desta vida que tenho aqui, se fosse só o que eu pudesse ter com vocês.
            — Mas você pode ter muito mais. Todos nós podemos. Porque, de algum modo, você encontrou seu caminho para a sua família.
            — De algum modo, não — ele disse, me beijando outra vez e colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha enquanto me olhava nos olhos. — Foi você, Estrela. Eu segui seu coração até o deserto e depois disso o meu nunca mais ficou vazio.
            Sorri em resposta. Embora ao longo dos anos eu tivesse adquirido uma crença inexplicável no destino, acho que podia aceitar o mérito desta vez. Porque eu merecia a felicidade impressa no sorriso do homem que eu amava. Eu tinha lutado por ela junto com ele. Segundo a segundo. Dor a dor. Dúvida a dúvida. E por quanto tempo nos fosse permitido viver, eu juraria que valeu a pena.  


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